Ouro em descaso

Rio de Janeiro recebe Jogos Olímpicos com obras inacabadas

Entre elas estão o VLT com percursos inacabados, a Linha 4 do metrô sem uma estação e o BRT Transolímpico pela metade

Rio de Janeiro

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Linha 4 foi inaugurada sem uma estação e não completou a fase de testes / Divulgação

As Olimpíadas tiveram início na última semana, mas grande parte das obras de infraestrutura para receber o megaevento ainda não terminaram. Entre elas, estão o VLT com percursos inacabados, a Linha 4 do metrô inaugurada sem uma estação e o BRT Transolímpico que não concluiu nem metade do trajeto prometido. Além disso, algumas construções que foram entregues apresentaram graves riscos aos cariocas, como o Novo Elevado Joá, com enormes buracos na pista, e a Ciclovia Tim Maia, que desmoronou deixando dois mortos.

Como o mais representativo símbolo de obras olímpicas que deu errado, a Ciclovia Tim Maia, em São Conrado, desabou após uma ressaca do mar, no final de abril, matando duas pessoas. As obras de reconstrução deveriam estar concluídas antes das Olimpíadas, porém a Prefeitura do Rio anunciou que ainda não há uma data para a reabertura.

O Novo Elevado do Joá também apresentou sérios riscos aos usuários. Apenas uma semana após a inauguração, em junho, apareceram vários buracos no asfalto da via de alta velocidade. A obra, que custou aproximadamente R$ 500 milhões, teve que ser remendada com placas de ferro e novas camadas de asfalto.

Obras inacabadas

Quem passa pelo centro do Rio, se depara com as obras inacabadas do VLT. O meio de transporte, que começou a operar comercialmente no final de julho, tem abertas apenas 16 das 32 estações previstas. Pensado para funcionar durante os jogos de forma completa, o VLT não tem agradado ao público. Além dos problemas técnicos apresentados desde que começou a funcionar, o transporte se movimenta muito devagar pelos trilhos.

A Linha 4 do metrô também foi inaugurada em meio a uma série de polêmicas. Um dos maiores investimentos pensados para os Jogos Olímpicos, estimado em quase R$ 10 bilhões, foi aberto apenas ao público das Olimpíadas. A Estação Gávea não foi concluída e o projeto não completou a fase de testes que deveria durar de 6 a 8 meses.

Para o engenheiro Luiz Cosenza, do Sindicato dos Engenheiros (Senge-RJ), o superfaturamento e a falta de planejamento são algumas das causas da ineficiência nos projetos.  “No Brasil, as obras têm tantos problemas porque estão relacionadas aos esquemas de corrupção. Primeiro é estimado um valor, depois que a obra se inicia entram os aditivos, que são valores acrescentados ao gasto final. Nos outros países, a elaboração de um projeto demora mais que sua construção, porque já está tudo calculado e já se sabe o que vai ser feito”, acrescenta Luiz Cosenza.

O BRT Transolímpico, que estava previsto para funcionar a partir de abril com 18 estações, tem somente três abertas. Entre elas, estão estações que servem diretamente ao público das Olimpíadas, como Recreio, Parque Olímpico e estação Magalhães Bastos. Segundo relatórios do Tribunal de Contas do Município (TCM), o projeto somou investimento de R$ 2,2 bilhões.

“O ouro das Olimpíadas e o legado olímpico ficaram para os empreiteiros e para a especulação imobiliária. A população do Rio de Janeiro e o meio ambiente ficaram de fora do resultado das Olimpíadas.”, conclui o vereador Renato Cinco (Psol).

Ônibus sem ar-condicionado

A maior parte da frota de ônibus da cidade continuam circulando sem ar-condicionado. Em 2014, um acordo entre a Prefeitura do Rio e o Ministério Público estadual determinou que fossem climatizados 3.990 veículos até o final desse ano, mas até agora apenas 278 têm ar condicionado. Essa seria uma forma de compensar a derrubada do Elevado da Perimetral e as mudanças no trânsito da cidade com as obras olímpicas.

Como a Prefeitura do Rio não está cumprindo o acordo, terá de pagar multa de R$ 20 mil por cada ônibus não equipado com ar-condicionado em circulação na cidade, segundo decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro divulgada na última semana. A decisão judicial representa um aumento na multa calculada pelo descumprimento do acordo. Antes, a multa era de R$ 5 milhões. Agora, o valor pode chegar a R$ 63 milhões se a prefeitura não acelerar o processo de climatização para atingir a meta desse ano.