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Ex-secretário da Saúde de Alckmin processa jornalistas pela segunda vez

Segundo a Revista Adusp, Guido Cerri ocuparia cargos de liderança em OSs enquanto era gestor da pasta

Redação

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Guido Cerri manteria ligações com organizações sociais enquanto era secretário da Saúde do estado, segundo a Revista Adusp / Memória/EBC

Giovanni Guido Cerri, ex-secretário estadual da Saúde de São Paulo, entrou na Justiça com uma segunda ação, desta vez por danos morais, contra a Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp) e os jornalistas Pedro Pomar, Tatiana Merlino e Débora Prado, da Revista Adusp. O processo de indenização corre na 1ª Vara Cível do Foro Regional de Pinheiros, Zona Oeste da capital paulista.

Em 2013, Cerri entrou com a primeira ação judicial, de caráter criminal. Ele, que esteve à frente da pasta entre entre janeiro de 2011 e agosto de 2013 na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB), alega que a reportagem “Empresário do setor, secretário da Saúde ‘dá as cartas’ em duas OSS”, publicada da edição 54 da publicação da entidade, teve finalidade difamatória.

A segunda ação movida tem natureza cível e, além de retomar as alegações de crime contra a honra, acusa a associação e seus profissionais por “uso desautorizado de imagem”.

Capa e reportagens estampavam uma fotografia do professor, tirada em cerimônia pública. Segundo nota publicada no site da Adusp, as fotos foram cedidas pelo banco de imagens da USP, "não havendo dúvidas, portanto, de que se destinavam precisamente à publicação por quaisquer mídias da universidade".

Denúncia

A investigação das repórteres revela que Cerri teria integrado o Conselho de Administração do Hospital Sírio-Libanês, ao qual se vincula a organização social de saúde (OSS) Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês (IRSSL), enquanto exercia o cargo de secretário da Saúde.

Ele ainda era “presi­dente licenciado” da Fundação Faculdade de Medicina (FFM), também qualificada como OSS. Ambas as organizações possuem contratos com a pasta, e alguns foram assinados pelo próprio secretário.

O editor da revista, Pedro Pomar, reitera que, durante o processo de apuração da reportagem, Cerri foi procurado por Débora e Tatiana para que se pronunciasse, mas não obtiveram retorno.

Para o jornalista, a abertura de um novo processo jurídico, agora envolvendo a associação, mostra uma "disposição de intimidar, amordaçar e punir eventuais vozes críticas".

"Esse tipo de processo contra jornalistas, hoje generalizado no Brasil, é um instrumento de intimidação e de perseguição. Um verdadeiro atentado contra a liberdade de expressão. Figurões que possuem poder político e econômico não suportam ser questionados e partem para a retaliação judicial, com a finalidade de obter a prisão de jornalistas ou pesadas indenizações", disse o editor.

O médico radiologista pediu demissão ao governador em agosto de 2013, após a publicação da reportagem. Na época, ele justificou que voltaria a se dedicar às atividades acadêmicas e científicas como diretor da Faculdade de Medicina da USP.

Negociação

O valor de reparação foi fixado em R$ 200 mil, com correções inflacionárias desde maio de 2013. Além da indenização financeira, Cerri pretende que os réus sejam condenados a publicar retratação com o mesmo destaque que deram à matéria "em ao menos um jornal e uma revista indicados pelo Autor”.

Segundo a Adusp, nas audiências de conciliação da ação criminal, os advogados do ex-secretário se recusaram diversas vezes à oferta de publicação da versão do professor nas páginas da revista da entidade.

O ex-secretário se dispôs a aceitar apenas a publicação de uma retratação como matéria paga na Folha de S. Paulo, "exigência que foi considerada exorbitante até pela juíza [Aparecida Angélica Correia] do caso", conforme nota da associação.

Agora, a Adusp reiterou que não buscará conciliação. Para Pomar, a posição demonstra que a entidade confia no rigor jornalístico da reportagem questionada pelo ex-secretário.

"A Adusp entende que havia uma clara situação de conflito de interesses, robustamente documentada, e que, portanto, não existe motivo para retratação", afirmou.

A próxima audiência entre as partes ainda não foi agendada. Já o julgamento da ação criminal movida em 2013 será em fevereiro de 2017.

O Brasil de Fato procurou Cerri através da assessoria do Instituto de Radiologia da USP, onde leciona, que informou que o ex-secretário estava viajando a trabalho e não poderia atender à imprensa.

Edição: Camila Rodrigues da Silva