Arte circense

Magia e resistência no palácio de lonas coloridas

Os Zanchettini mantêm viva, há 80 anos, a tradição milenar do circo

Curitiba (PR)

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Discriminação e represálias judiciais dificultam a continuidade da cultura do povo circense / Isabella Lanave, R.U.A Foto Coletivo

Silvio Zanchettini nasceu num “palácio de lonas coloridas”, como ele mesmo descreve seu lar. É uma casa muita engraçada: não tem telhado, não tem paredes, não tem endereço. Mais conhecido como Palhaço Ligeirinho, ele vive sob as luzes do picadeiro. Acrobacias, equilíbrio, contorcionismos, risadas, fogo, motos voadoras e adrenalina fazem parte de seu cotidiano.

As habilidades circenses foram todas compartilhadas pelos familiares e herdadas de geração em geração. É assim que os Zanchettini mantêm viva, há 80 anos, uma tradição milenar.

Eles foram os responsáveis por erguer, peça por peça, a estrutura que abrigou o Circo da Democracia durante dez dias, na Praça Santos Andrade, no Centro de Curitiba. O evento, que reuniu espetáculos e debates contra o golpe no país, promoveu cerca de dez horas de atividades diárias.

Enquanto isso, por trás da lona azul e amarela, uma confissão: onde mora a alegria, segundo Silvio, também moram os obstáculos. O maior deles é o preconceito, que chega como discriminação e represálias judiciais que dificultam a continuidade da cultura do povo de circo.

Apesar disso, Anaíse Zanchettini, sua companheira e parceira de palco no papel da Palhaça Magali Gasolina, não hesita: “É uma vida difícil. Mas eu sou palhaça de profissão. Com muito orgulho! É uma das profissões mais lindas e dignas, fazer as pessoas rirem”. Ela, que conta sua história como “a moça da cidade que se apaixonou pelo trapezista e fugiu com o circo”, tem hoje a sorte de atuar também ao lado de sua filha Andressa Zanchettini, que aos 6 anos é bailarina e que ama voar nos ombros de seus primos montados em monociclos.

Décadas atrás, a vida itinerante era muito mais difícil, a ponto de uma chuva fazer o trailer da família ficar parado por mais de 40 dias na estrada. Ao mesmo tempo, permanece a sensação de que as emoções e os sobressaltos eram mais valorizados.

Hoje, tendo cruzado os interiores do país e além das fronteiras, o palhaço sabe que viver o sonho de carregar o sorriso dos outros na mala é mais que uma profissão, mas um ato de resistência. E dispara: “Não queremos ser um Soleil, queremos apenas sobreviver e levar nossa cultura adiante”.