MINERODUTO

“A vida do povo de um lugar não é levada em conta pela mineradora”

Moradora de Paula Cândida conta como movimentos conseguiram barrar projeto que destruiria o rio Paraopebas

Viçosa

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"Por hora, a água usada para empurrar o ferro daria para abastecer uma cidade de 200 mil habitantes”, afirma Rosilene Pires / Reprodução / Levante Popular da Juventude

A mineradora Ferrous Resources pretendia construir um mineroduto de 400 km, ligando Congonhas, na região Central de Minas, à cidade de Presidente Kennedy, no Espírito Santo. A obra causaria grandes impactos em dezenas de municípios dos dois estados, entre os quais a própria Congonhas, Viçosa, Paula Cândido e Belo Horizonte. Entretanto, no mês de julho, o prazo para o licenciamento do mineroduto expirou. A mineradora chegou a dizer que desistiu do empreendimento por conta do “momento do mercado”. Mas moradores e movimentos populares, que têm feito pressão desde a chegada da mineradora, consideram a desistência da Ferrous uma vitória da luta organizada. Em 2011, começou a Campanha pelas Águas contra o Mineroduto da Ferrous, envolvendo iniciativas junto ao Poder Público e à população, a fim de demonstrar os prejuízos sociais e ambientais da obra. Para entender a campanha, o Brasil de Fato MG conversou com Rosilene Pires, moradora do município de Paula Cândido e militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). 

A chegada da Ferrous

“Desde 2011, quando chegou à nossa comunidade, a Ferrous disse que vinha trazer um projeto de desenvolvimento sustentável. Quando perguntávamos se ficaríamos sem água, eles diziam: ‘Não se preocupem, vamos mandar caminhão- pipa para abastecer’. Veio, então, uma proposta para indenizar moradores, mas sem nenhum critério. As casas tinham preços muito diferentes. Começamos a perceber que a empresa tinha uma estratégia de indenizar muito bem uma casa, passar 40 casas e indenizar muito bem outra e assim por diante. Então, algumas pessoas ficavam satisfeitas e apoiavam, enquanto as outras ficavam encurraladas. Quando iam falar com os moradores mais simples, eles pressionavam. Uma senhora disse que não sairia da casa dela. A empresa respondeu: ‘Se não sair, vamos vir com a máquina e passar por cima’. Também diziam ter um decreto de utilidade concedido pelo governo de Minas. Porém, quando iam negociar com professores da Universidade de Viçosa, o tratamento era outro”. 


"O povo entendeu que o projeto da Ferrous não era bom para a cidade e que teríamos que escolher entre o mineroduto ou a água”


Impactos na vida dos atingidos

“Para minerar, tem que ter água. O mineroduto precisa de pressão da água para levar o minério. Ele passa nas áreas mais baixas, nos vales, onde ficam as casas das pessoas, áreas de cultivo, paióis e também as nascentes dos rios. Isso ia acabar com a água do rio Paraopeba, que serve para o consumo de várias cidades, inclusive Belo Horizonte. A empresa exploraria o minério em Congonhas e gastaria um volume gigantesco de água. Por hora, a água usada para empurrar o ferro daria para abastecer uma cidade de 200 mil habitantes. Além disso, como o trajeto do mineroduto passaria em cima das nascentes, ao cavar em cima, faria com que perdêssemos várias delas”. 

A mobilização

“Nós, atingidos, começamos a pensar: ‘A empresa vem individualmente, vai de casa em casa, conversa, oferece dinheiro’. O que isso gera? Gerava briga e desunião entre as famílias, que discordavam da quantidade que era oferecida a cada uma. Com o tempo, começamos a conversar mais, até que, um dia, com os movimentos, conseguimos nos organizar. Criamos a campanha pelas águas e contra o mineroduto da 

Ferrous. Descobrimos um projeto de mineroduto da Anglo American lá em Conceição do Mato Dentro, visitamos o local e vimos que era um projeto de morte para o povo, além de grande impacto ambiental, com perda das nascentes e assoreamento dos rios. Além disso, perguntamos: mineroduto para quê? Para quem? Vimos que o objetivo era maximizar o lucro dos acionistas da Ferrous, pois seria um transporte mais barato que a linha de ferro.” 

A pressão

“Quem sentia a pressão éramos nós, os atingidos, mas muita gente nas cidades nem entendia o que estava acontecendo. Fomos até a prefeitura pedir um posicionamento do poder público. Ao mesmo tempo, o povo foi se conscientizando nesse processo, até entender que o projeto da 

Ferrous não era bom para a cidade e que teríamos que escolher entre o mineroduto ou a água, que é tão importante para nós.”

A conquista

“Dom Luciano, que foi arcebispo de Mariana, dizia que ‘o céu é ver as pessoas felizes’. Então, essa vitória contra a Ferrous é o céu. Muita gente queria reformar a própria casa e não podia, porque estava presa por essa empresa. Queria fazer uma reforma no curral e não fazia porque ia passar pra empresa. Tivemos muitos sonhos parados por cinco anos! A vida do povo não é levada em conta pela mineradora. Hoje, vivemos um sentimento de vitória. Agora, sabemos que a organização e a luta permitiram conquistar isso tudo.”