CRÔNICA

Discreta tristeza

"Hoje, sou capaz de uma topografia dos relevos de sua dor".

Recife

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Roberto Efrem Filho - ou Beto, como gosta - é do Recife e, vez ou outra, atrapalha-se com as palavras, nas redes sociais ou, agora, nestas páginas. / Arquivo pessoal

 

À mesa da sala, as folhas de um Benedetti às mãos, ouço você chorando enquanto passa o café. Você desconhece, mas ouço. O filtro de papel ecoa pela cozinha o tilintar da lágrima na xícara de porcelana azul, eu sei, sua peça favorita do que restou da louça do casamento de meus avós. Você traz a xícara e eu bebo o sal que mareja o amargo. Disfarço. Você não percebe a minha estranheza, sequer nota que me sirvo do açúcar, assim como não sabe que, nesta madrugada, na cama, assisti a três lágrimas se desgarrarem de seus olhos quando você já dormia. Duas do esquerdo, uma do direito, nesta ordem, desculpe-me a precisão, você sabe, não adoço. Sexta-feira, entretanto, eu dirigia, cruzávamos a noite entre a Paraíba e Pernambuco, o fogo dançava sobre o canavial e avermelhava as nuvens acima da fumaça densa, testemunhei o silêncio de uma lágrima sua pela primeira vez. Ela reluzia. Ardia. Também dançava. Você nada falou, eu tampouco. "A tristeza é discreta", escrevi para aquele poema. "Alimenta-se de toda palavra", completei. Você não reconheceu o verso. Desde então, vivo de mapear seus rastros lacrimais. No sábado, as lágrimas retornaram. Você chorou frente à pia, antes de escovar os dentes. Você chorou na intransponível página 54 daquele Bolaño que eu lhe dei de aniversário em março e você, caralho, nunca terminou de ler. Você chorou no código de barras do boleto do aluguel - sem razão, fiquei pensando; com o dinheiro daquela tradução, eu havia adiantado seis meses do pagamento. É, eu disse, você esqueceu. Mas chorou no filme francês. Logo você, que tanto implicou com minhas aulas e meu jeito barroco matinal de cantarolar Piaf. Não duvide. Hoje, sou capaz de uma topografia dos relevos de sua dor. De tal modo que, sentado a esta mesa, a xícara azul vazia, antevejo o fim desta tarde de agosto. Assim que o vizinho do apartamento ao lado dispor o vinil de Billie Holiday que ele escuta, sempre, aos domingos, eu convidarei você a este sofá. Você virá. Cravará suas pernas sobre as minhas, à mesma posição em que, um dia, eu perguntei seu nome. Sorrirá, como gosta. Ao fim, sua pele desembaraçada da minha, você virará o rosto com rapidez, para que eu não veja a lágrima se formar. Claro, eu verei, e você finalmente saberá. Lamberei de seus olhos nosso último segredo.