Coluna

Desobedecer e resistir

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A vida dos golpistas não será fácil

Começa um novo momento na luta dos brasileiros pela consolidação da democracia. Passada a farsa do impeachment no Senado, agora é nas ruas. Todos os dias. O tempo todo. Em defesa de todos os direitos ameaçados. A senha foi dada pela presidenta Dilma Rousseff, por meio de sua atitude altiva, enfrentamento corajoso aos canalhas e palavras exatas de convocação à oposição mais determinada que um governo golpista merece.
O Brasil, a partir de 31 de agosto, está sem presidente eleito. A própria solenidade de “posse” de Michel Temer, com sua protocolar covardia, e a primeira reunião ministerial pós-golpe, com um infantilismo que envergonha a história política brasileira, confirmam a vacância do cargo. O usurpador não tem estatura moral para a função, não congrega patrimônio político para o mandato a que se arroga, não amealha apoio entre a maioria dos brasileiros. Mostrou-se uma figura patética, traído já na estreia da farsa que protagoniza, por obra de seus próprios comparsas. Foi para a China em busca da paz que não teve nem mesmo na rua em que morava.
Há muitos caminhos para a resistência. O primeiro se liga aos projetos já anunciados de destruição de direitos, corte de investimentos sociais e submissão aos interesses do capital financeiro internacional. São ameaças que convocam desde já às trincheiras dos sindicatos e dos movimentos populares de todo o espectro progressista. Para cada direito do trabalhador roçado de leve pelo arbítrio, uma greve.  Para cada riqueza nacional barganhada, dezenas de ações iracundas. Para cada movimento regressivo no sentido da concentração de renda, centenas de ocupações. Às afrontas aos direitos humanos, o combate intransigente e pertinaz.
É claro que a defesa dos direitos e da democracia não se dará no vazio. As práticas de criminalização dos movimentos populares, que fazem parte do DNA da facção que se aboletou no poder, mostrará suas patas. A repressão será enfrentada no deserto da ilegitimidade. Quando se insurgem contra defensores de direitos de cidadania, as tropas não são forças da ordem, mas milícias de interesses privados e, no limite, criminosos. É importante ter claro que, na ausência substantiva da legitimidade, estabelece-se um plano em que desobediência se justifica como forma de ação política.
Resistir e desobedecer. Mas não esquecer de recuperar a história que levou o povo até as conquistas que hoje lhes ameaçam tirar. Tudo começou com a luta popular pela justiça social, direitos humanos e melhores condições de vida. E é nela que se deve buscar de novo a inspiração. Não se trata de começar de novo, o terreno conquistado é inegociável. Mas é preciso preservar os valores que foram o alimento ético de gerações de lutadores da democracia. Voltar às ruas talvez seja destino histórico merecido e necessário.
Os inimigos do povo estão contentes. Podem, por isso, ser reconhecidos pelos risos hediondos que emitem de forma incontida, como hienas. Mas será por pouco tempo.  Cada riso há de se tornar um esgar. A vida dos golpistas não vai ser fácil. É o mínimo que se deve prometer a eles.

 

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