Privatizações

BR Distribuidora está na mira de donos do Itaú

Companhia estatal anunciou no início desta semana que começou o processo de venda da distribuidora líder do mercado

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Sede da BR Distribuidora, no Rio de Janeiro (RJ) / Divulgação

Os banqueiros da família Setúbal e Vilella, donos do Itaú Unibanco, maior instituição financeira na América Latina, são os potenciais compradores de ativos da BR Distribuidora, subsidiária integral da Petrobras que atua na distribuição e comercialização de combustíveis derivados do petróleo.

Segundo a agência de notícias Bloomberg, a Cambuhy Investimentos, empresa da família Moreira Salles, a Vitol, a GP Investimentos e a Advent International também estudam fazer propostas à estatal. A criação de um consórcio também não está descartada. 

A estatal confirmou nesta segunda-feira (4) que iniciou formalmente o processo de venda de participação da BR. A Petrobras vai vender 51% do capital da subsidiária e já enviou um prospecto aos interessados.

A seleção de empresas que receberam esse documento, segundo a companhia, foi realizada com base em critérios objetivos e feita em conjunto com a instituição financeira especializada em fusões e aquisições contratada para assessorar o processo de venda. A companhia defende que o novo modelo "atrai o maior interesse do mercado e tem como objetivo maximizar o valor do negócio de distribuição de combustíveis".

Para Paulo Passarinho, economista da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET), o surgimento de nomes ligados ao capital financeiro "é natural".  Ele questiona, no entanto, a vinculação da Petrobras a uma visão de "curtíssimo-prazo" de alguns grupos privados "muito específicos".

"Ela [a BR] é a maior distribuidora do país e é quem garante a colocação de derivado de Petróleo em todos os cantos do Brasil, independentemente de uma visão de lucro a curto prazo (…) Cada vez mais ficamos sujeitos a pressões do mercado, que é cada vez mais controlado por fundos de investimentos de capitais que buscam lucratividade", sintetiza.

Privatização

A decisão faria parte da estratégia de compartilhamento de controle da estatal, definida em julho deste ano pelo Conselho de Administração, após negociações fracassadas para a venda de participação minoritária.

Com a venda, se planeja reduzir a relação entre dívida e geração de caixa, a chamada "alavancagem", de 4,49 vezes para 2,5. Este é o valor considerado ideal pelas agências avaliadoras de risco.  

Em nota, a estatal defende ainda que o novo modelo de venda atrai "maior interesse do mercado e tem como objetivo maximizar o valor do negócio de distribuição de combustíveis, atender aos nossos objetivos estratégicos e manter a operação integrada na cadeia do petróleo.” 

O presidente da Petrobras, Pedro Parente, afirma ser contra chamar o processo de privatização.

Passarinho aposta que a proposta do atual governo é reduzir a importância da Petrobras, ou seja, "colocá-la como uma empresa de produção e exportação de petróleo, quando deveríamos aproveitar e aumentar nossa capacidade de refino e produção petroquímica".

Contradições

Para Passarinho, a medida é contraditória, já que atinge um dos principais componentes do fluxo da Petrobras. Hoje a BR Distribuidora é líder do mercado nacional, com 35% de participação no ramo. Ele afirma que  ainda que este será um "golpe duro" à companhia estatal, que perde, segundo ele, o caráter de instrumento estratégico no desenvolvimento brasileiro.

A nova estrutura societária deve garantir a maioria de 49% do capital votante à estatal. No entanto, Passarinho considera a venda de ativos  um desdobramento "muito grave" de uma onda privatista que já estaria em curso há pelo menos 25 anos. "Essa privatização ocorre desde que a Petrobras abriu seu capital na bolsa de Nova York e passou a se subordinar a certas diretrizes do Conselho de Valores Mobiliários dos EUA. A partir daí, já temos uma contaminação de interesses privados no padrão de gestão a empresa", analisa o economista.

Segundo Passarinho, também houve subordinação a pressões dos acionistas internacionais nos governos do Partido do Trabalhadores (PT), embora a postura da empresa sobre a exploração e produção tenha sido positiva, incluindo o descobrimento do pré-sal.

José Maria Rangel, coordenador geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), acredita que, além de vender uma subsidiária que movimenta o caixa da empresa e cujo postos de combustíveis são uma de suas grande marcas, a negociação não solucionará o endividamento da companhia.

Em seu novo plano de negócios, divulgado no dia 20 de setembro, a estatal previu que sejam gastos aproximadamente R$ 100 bilhões em dívidas nos próximos quatro anos. Já a venda da distribuidora é avaliada em torno de R$ 12 bilhões. "Ou seja, ela ficará devendo e venderá uma empresa que ajuda a gerar caixa. A situação vai piorar", avalia.

Para Rangel, a venda se insere no cenário macropolítico das privatizações promovidas pelo governo não eleito de Michel Temer (PMBD). "A venda da BR está inserida em um dos pilares do golpe, na minha visão, que é a privatização das empresas", afirma.

O petroleiro defende que a venda mostra uma "volúpia" de privatização do setor já vista em 1990, mesmo quando a companhia não estava envolvida em casos de corrupção. "Eles estão entregando o controle acionário da empresa. Nós, petroleiros, vamos resistir de todas as formas, seja em manifestações ou no Judiciário. Vamos mostrar que essa tentativa de venda é mais um crime contra o patrimônio brasileiro", denuncia.

Sobre soluções ao agravamento das dívidas da companhia, tanto o sindicalista quanto o economista são favoráveis ao alongamento dos prazos de pagamentos de empréstimos que foram feitos à empresa, assim como à busca de novas condições de pagamentos.

Edição: Camila Rodrigues da Silva