MORADIA

Remoções violentas são práticas comuns no Rio de Janeiro, mesmo após megaeventos

Na última semana, mais de 200 famílias foram despejadas de um terreno vazio, que pertence ao estado do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro (RJ)

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No Alemão, mais de 200 famílias foram despejadas de um terreno vazio / Mídia Ninja

No último sábado (1), mais de 200 famílias foram despejadas de um terreno vazio, que pertence ao estado do Rio de Janeiro, no Alemão. As famílias organizadas, com a ajuda do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), ocuparam o mesmo local onde já haviam sido expulsas anos atrás.

Em meio a ação violenta da Polícia Militar, que teve inúmeros disparos de bombas e tiros, muitos perderam seus documentos, dinheiro, remédios e outros pertences pessoais. Além disso, Victor Guimarães, do MTST, Rene Silva e Renato Moura, jornalistas do veículo alternativo Voz das Comunidades, foram levados sob custódia de forma arbitrária para uma delegacia próxima e só liberados após pressão de advogados e políticos, na noite de sábado (1).

Um dos detidos e atingidos pelas balas de borracha, Vitor Guimarães, apresentou quadro de infecção no ferimento e após realização de tomografia constatou a bala ainda alojada na perna esquerda. Realizou uma cirurgia na manhã de quarta-feira (5) no Hospital Miguel Couto e passa bem.

Para o MTST, isso evidencia mais uma vez que as chamadas armas não-letais apresentam riscos à vida dos manifestantes. “Evidencia também a resposta que o Estado e a Polícia Militar de vários estados do Brasil tem dado ao povo que luta: ao invés do direito à manifestação a resposta tem sido ‘tiro, porrada e bomba’.  A despreparada e desastrosa operação do último sábado, que teve dezenas de feridos, foi comandada pelo Major Leonardo Zuma, que recebeu prêmio de Comandante de UPP Revelação um dia antes da operação”, afirmou a organização política, em nota.

Por 12 anos, aproximadamente 500 famílias construíram suas casas nos galpões de uma antiga fábrica da Skol, o que tornou o grupo conhecido como “Favelinha da Skol”. Após um acordo com o governo do estado, foram removidas em momentos diferentes, em 2006, 2009 e 2010. Os galpões foram demolidos para que as moradias fossem construídas no próprio terreno e durante as obras, que durariam um ano e meio, as famílias receberiam o aluguel social, em mensalidades de R$ 400.

Apesar de todas as promessas, mais de seis anos depois, o terreno continuava vazio. Até que as famílias resolveram se organizar e reocupar seu antigo espaço de moradia. “Nunca tivemos resposta do governador e depois da crise do estado tudo piorou. Nosso dinheiro do aluguel social não tem mais data certa para cair, estamos devendo e podemos ficar na rua a qualquer momento. Então decidimos organizar essa ocupação para pressionar e cobrar respostas”, explica a dona de casa Camila Aparecida Santos, 31 anos.

Porém, a ocupação durou menos de um dia. Após uma denúncia, um grupo de policiais militares colocou fogo nos acampamentos. Depois da ação policial, as famílias resolveram reerguer os acampamentos, mas os policiais voltaram, desta vez em maior número, cerca de 50 oficiais, e mais violentos.

“Eles chegaram jogando gás de pimenta e atirando. Foi um ataque muito covarde e nem tinham o mandato de reintegração de posse do terreno”, explica a estudante Fabiana Chavier, 25 anos, militante do MTST. “Sou nascida e criada no Alemão, já vivenciei coisas terríveis, mas esse ataque foi fora do normal”, conclui Camila Aparecida.