OPINIÃO

A vitória do derrotado: o IDEB em Pernambuco

Numa breve investigação feita por um trio de pesquisadores foram observados problemas na divulgação dos dados.

Recife (PE)

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O resultado do IDEB coloca Pernambuco e São Paulo empatados no Ensino Médio. Mas a divulgação da informação não veio acompanhada de uma análise acurada dos dados. / Alyne Pinheiro/SEE

No último dia 8 de setembro, o resultado do exame do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2015 foi divulgado e os estados de Pernambuco e São Paulo apareceram empatados na primeira colocação do Ensino Médio. A notícia repercutiu bastante na grande mídia. Mas a ênfase dada na divulgação da informação não veio acompanhada de uma análise mais acurada dos dados. Numa breve investigação feita por um trio de pesquisadores, coordenados pelo prof. dr. Dalson Figueiredo, da UFPE, foram observados problemas na divulgação dos dados que comprometem a validade do ranking. Problemas que vão desde os mais simples como uso inadequado de arredondamentos, até a variação incomum dos resultados em PE ao longo dos anos, passando pela incoerência de resultados entre Ideb e Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Na questão do arredondamento, viu-se que o que a taxa de aprovação (fluxo) escolar foi o mesmo: 0,89, apesar da nota desempenho ter sido diferente. Enquanto SP teve 4,41, PE obteve 4,35. Essa diferença que foi omitida pelo arredondamento faz, na verdade, que os 3,87 pontos alcançados por PE fiquem mais próximos do 3º lugar (Goiás, com 3,83) do que de SP (3,92). O gráfico abaixo ilustra a variação do Ideb 2015 por unidade da federação sem o efeito do arredondamento.

Também foi verificado qual o nível de correlação entre esse resultado do Ideb e a nota do Enem, que é uma avaliação diferente da Avaliação Nacional da Educação Básica principalmente porque os estados não têm a possibilidade de preparar apenas algumas poucas escolas e afetar positivamente a amostra. Observou-se que no Enem de 2015, PE ficou na 9ª posição, distante de sua posição vitoriosa no Ideb do Ensino Médio. Já SP foi coerente e ocupou o 1º lugar, com média igual a 506, dezenove pontos acima de PE. Ou seja, estranhamente PE tem um desempenho simplesmente bem próximo à média nacional no Enem, mas muito acima da média nacional no Ideb. Vale frisar que o Ideb usa a taxa de aprovação como fator de cálculo, e PE mais uma vez aprova 89% de seus alunos, enquanto a média nacional é de apenas 80%.

Mesmo a evolução das notas dos estados de SP e PE ao longo dos anos revela uma trajetória incomum do estado nordestino. Da série histórica com seus escores finais no Ideb, salta aos olhos o movimento ascendente excêntrico sem par no Brasil. Se comparado com SP, que passou de 3,3 em 2005 para 3,9 em 2015; PE obteve um crescimento meteórico, passando de 2,7 para 3,9 no mesmo período. Ou seja, um incremento abrupto de 44,44% enquanto SP fez 19% em 10 anos, e a média nacional foi de 16,33%. Como se não bastasse, ainda existe uma forte incoerência entre o desempenho de PE no Ideb entre níveis de ensino. Em relação aos anos iniciais do Ensino Fundamental, PE aparece na 18ª posição, enquanto SP se mantém em primeiro lugar. Para os anos finais, os dados mostram PE na 11ª posição, porém ratificam a coerência da análise sobre SP e o apontam como líder mais uma vez.

O que se conclui dessas informações disponíveis no site do INEP é que o estado de PE é muito diferente de todos os outros do Brasil quando o assunto é aumentar a nota do Ideb. Mas é tão diferente que precisa ser profundamente investigado, inclusive para que seus métodos de gestão possam ser copiados Brasil afora. Por outro lado, o peso das evidências exige também que os leitores sejam mais prudentes ao se depararem com notas e outras avaliações que possuam grande impacto de marketing. Dificilmente acontecem milagres em educação.

As notas do Ideb não parecem refletir claramente a qualidade da educação no País, e muito menos no estado de PE. Defender o contrário pode ser tentador mas negligencia as evidências. O maior desafio dos gestores hoje é aperfeiçoar a metodologia das avaliações. Pode-se começar evitando que escolas da amostra sejam prévia e especialmente capacitadas, alcançando resultados irreais para a realidade local. Deve-se também garantir total transparência sobre dados de evasão escolar, bem como da análise de dados que orienta a divulgação de rankings. Todos desejamos que a educação melhore nos estados, mas avaliamos que poucos reúnem as condições necessárias para alcançar essa vitória de maneira consistente.

Dalson Figueiredo é Professor Dr. do dpt. de Ciência Política da UFPE.

Erinaldo Carmo é Professor do Colégio de Aplicação da UFPE e Dr. em Ciência Política.
Romero Maia é Analista de Planejamento e Estatística do IBGE.