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Feiras agroecológicas: espaços de vida

Alimentos são comercializados por preços menores do que nos supermercados


Recife

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No Recife, o bairro de Santo Amaro também possui feira. / Arquivo Centro Sabiá

Ir à feira, comprar alimentos na feira, passear na feira. As feiras fazem parte da vida de muitas pessoas que adquiriram o hábito de frequentar esses espaços não só para a compra, mas também para encontrar pessoas queridas, saber o que está acontecendo na cidade ou na comunidade. Assim também são as Feiras Agroecológicas, cada vez mais frequentes em Pernambuco. Elas são espaços em que se pode encontrar alimentos sem agrotóxicos, por exemplo, mais saudáveis a nossa saúde, mas também espaços vivos, cheios de cores, sabores e saberes.
O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Cada brasileiro e brasileira consome em média 5,2 litros de agrotóxicos ao ano. O que significa que a maioria dos alimentos que chega à mesa da população estão contaminados com veneno. Já os alimentos agroecológicos ou os alimentos orgânicos são produzidos sem venenos. A diferença é que o alimento agroecológico, além de não ter veneno, é produzido levando em consideração outros elementos como os ciclos da natureza, as relações igualitárias entre homens e mulheres, o protagonismo da juventude. Por isso, alimentos agroecológicos são carregados de valores que consideram o meio ambiente, mas não só isso, valorizam também aspectos sociais e culturais.
Maria Cleide frequenta há quase 20 anos uma das feiras agroecológicas do Recife, o Espaço Agroecológico das Graças, e começou na busca de uma alimentação melhor. “Moro próximo da feira e desde que fiquei grávida fui buscar uma alimentação mais saudável. Inclusive, percebo muito claramente que esses alimentos são mais baratos que os do supermercado”, fala a consumidora que é terapeuta floral consteladora e advogada.

Custo dos alimentos – Uma das questões sempre levantadas sobre os alimentos agroecológicos é que eles são mais caros. Davi Fantuzzi, assessor de comercialização do Centro Sabiá, organização não-governamental que assessora e acompanha várias feiras agroecológicas em todo o estado, explica que “o alimento orgânico do supermercado de fato é mais caro. A cadeia produtiva dele é mais longa, ele tem mais custos do ponto de vista da certificação”. Mas Davi também explica que o alimento comercializado nas feiras agroecológicas não segue essa lógica. Na feira, o agricultor ou a agricultora vende diretamente a quem compra, o processo da produção daquele alimento segue uma lógica de circuitos curtos de comercialização, o que faz com que a produção se torne mais barata, inclusive porque quem vende é o agricultor diretamente, não existe atravessador. “Realizamos um estudo com o curso de Gestão Ambiental do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) e conseguimos comprovar que o produto agroecológico das feiras é no geral mais barato que o dos supermercados, comparamos 20 produtos do supermercado e também com produtos convencionais de mercados livres”, explica.
O estudo apresenta que os alimentos vendidos no supermercado são, em média, 46% mais caros que os das feiras agroecológicas. Já as feiras livres apresentaram alimentos, em média, 19% mais caros que das feiras agroecológicas.
Nas feiras agroecológicas também circulam outras relações para além da de consumidor e vendedor. As relações afetivas passam também a serem estabelecidas, mas também muito conhecimento circula em uma feira. “A relação é estruturadora”, diz Maria Cleide, que complementa: “vejo que aprendi com os feirantes e ir na feira é essa busca que você faz com tranquilidade. O sábado é o único dia que eu não me incomodo de acordar cedo, me dá prazer ir à feira e eu com isso trago saúde pra mim e pra minha família. E aprendi o que é a sazonalidade. No supermercado, você vai encontrar todos os produtos sempre e envenenados. Na feira, vai ter semanas que não vai encontrar tomate, por exemplo, e a natureza ensina isso, porque nem sempre ela dá tomate”.
Para Davi Fantuzzi, “as feiras, quando são feitas pelos agricultores, possibilita empoderamento e a organização deles e a relação entre o campo e a cidade em circuito curto”.