Justiça

UFABC é denunciada ao MP por apoiar estudante que ficou cega em protesto

Professores da universidade criaram um abaixo-assinado em defesa da democracia, tolerância e solidariedade

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Estudante Deborah Fabri, no momento, em que foi atingida por estilhaços de bomba atirada pela Polícia Militar, em um protesto contra o golpe / Reprodução

O Ministério Público Federal (MPF) acolheu uma denúncia feita contra a reitoria da Universidade Federal do ABC (UFABC) por ter prestado assistência à Deborah Fabri, estudante da universidade que perdeu a visão de um olho ao ser atingida por um estilhaço de bomba durante a repressão da Polícia Militar ao protesto contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no dia 31 de agosto.

Um abaixo-assinado em solidariedade à UFABC foi criado pelos professores da universidade nesta terça-feira (18).

O documento, intitulado Em defesa da democracia, da tolerância e da solidariedade na UFABC, já foi assinado por mais de 1.500 pessoas e tem a meta de acumular 2.500 assinaturas em repúdio às atitudes de intolerância e "apelar para o bom senso da comunidade acadêmica".

A denúncia, que os professores acreditam ter vindo de um aluno que compartilhou mensagens de ódio e preconceito nas redes sociais, foi acolhida preliminarmente pelo MPF, que deu início aos procedimentos judiciais contra a universidade.

Ajuda

A acusação diz respeito à atitude de gestores da UFABC de providenciar ajuda a Deborah e aos seus familiares, que viajaram do interior de Minas Gerais para São Paulo (SP) quando ficaram sabendo da agressão.

A reitoria da universidade providenciou um carro que levou os pais da jovem da rodoviária até o hospital onde já se encontrava internada, e enviou um profissional integrante do quadro de servidores da UFABC para prestar apoio psicológico à ela.

A atitude, que, segundo a gestão, teve um custo calculado em R$ 14 referentes ao combustível consumido pelo carro utilizado, foi motivo de acusação por "mau uso" de recursos da instituição e de "desvio" de suas funções. Em um trecho do abaixo-assinado, os professores afirmam se orgulhar "de a universidade ter sido solidária com a dor de um de seus integrantes, prestando ajuda humanitária que era requerida no momento".

"Consideramos que esse tipo de apoio deve ser uma diretriz de ação de UFABC frente à sua comunidade em situações de fragilidade de seus membros, respeitando suas possibilidades institucionais e racionalidade de seus recursos", completa o documento. 

Segundo o professor de Relações Internacionais Igor Fuser, "com raras exceções, a comunidade universitária da UFABC – professores, funcionários técnico-administrativos e estudantes – tem se expressado de diversas maneiras em solidariedade a Deborah e à generosa atitude da Reitoria". 

Tatiana Berringer, que também é professora da UFABC e bacharel em Relações Internacionais, a denúncia ao MP faz parte de um contexto repressor contra às origens e valores da universidade.

"A instituição completou dez anos no último mês, mas como qualquer espaço, alguns grupos à direita começaram a crescer na universidade e têm atacado a reitoria, chegando ao ponto de atacar o mínimo apoio que prestamos nesse momento", explicou.

Segundo ela, o grupo que denunciou se chama "Universidade Livre", e tem realizado alguns eventos na universidade, como um com a presença de Kim Kataguiri e Fernando Holiday, do Movimento Brasil Livre, e outro com Luiz Philippe de Orleans e Bragança, um descendente da "família real" no Brasil.

"Eles acusam a universidade de ser doutrinária e esquecem que cada um tem um lado, e que a universidade é um local de debate e disputa de ideias", acrescentou Berringer.

Segundo Ivan Filipe de Almeida Lopes Fernandes, professor de políticas públicas da UFABC, e membro do grupo Universidade Livre, o grupo não tem nenhuma relação com a denúncia. "Inclusive eu e outros membros do Universidade Livre assinamos o abaixo assinado contra a denúncia", disse. O professor afirmou ainda que os responsáveis pela denúncia são estudantes que formaram um outro grupo, chamado "UFABC Livre".

Contexto

Segundo a professora, a situação é um reflexo da disputa política que o país tem passado. "Mais do que isso, a UFABC recebeu muito investimento e ainda precisa crescer para terminar seu projeto, ter o espaço físico necessário. Mas os cortes do governo Temer vão afetar brutalmente a universidade, não apenas nos investimentos, mas no custeio. A expectativa é que, se de fato for aprovada a PEC 241 no Congresso, a UFABC vai fechar no próximo ano". 

Uma assembleia realizada nesta quinta-feira (20) aprovou a paralisação dos professores da UFABC a partir da próxima segunda-feira (24), um posicionamento contra a PEC 241.

Edição: Camila Rodrigues da Silva