CRÔNICA

Caixas d’água

Caio Fernando Abreu morreu em 25 de fevereiro de 1996

Recife

,
Beto - como gosta de ser chamado – é do Recife e, vez ou outra, desajeita-se na palavra. / Arquivo pessoal

(Para ler no ônibus. Ou ao som da versão ao vivo de Nina Simone cantando “To love somebody”.)

Ela morreu três dias após o seu casamento. Quando me defrontei com os amarelos de outubro nos vitrais do Mosteiro de São Bento, sobre o seu corpo rezavam a missa do sétimo dia de sua morte. Imaginei-a noiva – triste, rendada e alva – rodopiando sua última valsa num fundo radiante de caixão. Na igreja do Mosteiro, os seis milhares de tubos do órgão de 1954 suscitavam alguma luz, além de música, por mais grave que fosse. Ela morreu três dias após o seu casamento. Caio Fernando Abreu morreu em 25 de fevereiro de 1996. Encontrei o meu volume de “Morangos Mofados” numa manhã de sábado, em 2011, num dos sebos da Praça da Roda, no centro do Recife. Na contracapa de margens encardidas, escreveu-se “Marina 1982”. Eu nunca convidei Marina para um cigarro. Nunca mantive na língua a mulher cujo lampejo de passado me pertence e lateja na estante da sala. Nasci apenas em 1983, não muito longe dos sebos, na Ilha do Leite, numa maternidade que sequer mais existe. E se ainda envio mensagem à intenção de saber se já se leu Caio Fernando Abreu, é exatamente por essa razão. Porque todo destino é desterrado e eu, que aponto a quem quiser as ruínas do edifício onde nasci, tropeço em nossa inexatidão. Caio Fernando Abreu morreu em 25 de fevereiro de 1996. Todo sol morre. No fim da tarde de hoje, divisei as costas amareladas dos prédios de Casa Caiada quando as sombras se expandiam e rareavam no asfalto, entre as lanternas acesas dos automóveis. A oeste, contra as costas, o sol morria. Lá, por trás dos sítios de Ouro Preto, por trás do que vem depois dos sítios de Ouro Preto, o sol morre atrás das caixas d’água. Em Olinda, todo sol se desfaz atrás de uma caixa d'água. É assim que a água enlodada dos poços artesianos inunda de amarelo as blusinhas das moças que vendem cerveja e queijo coalho assado nas barracas do carnaval. Não são marcas de óleo. São réstias. Todo sol morre. Seis morreram nesta madrugada, no momento em que eu, corpo retesado, suor manchando lençóis, acordei à procura da voz de Nina e dos sóis a que assisti nascer na sua boca. Todo dia, todo sol renasce. Nina Simone morreu em 21 de abril de 2003. A essa época, eu não sabia o seu nome, não contava sóis e passava, no mínimo, três horas diárias dentro de dois, três, quatro ônibus. Se olhasse com vagar, do Cais de Santa Rita eu poderia antever, do outro lado do rio, os dois rapazes que, à beira e a despeito da vontade das pedras portuguesas, abraçam-se sem se beijar.