Educação

Além da UFPR, 14 campi universitários estão ocupados no Paraná

Ação reforça movimento secundarista contra as medidas anunciadas pelo governo de Michel Temer (PMDB)

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Só no Paraná, já são 850 escolas,14 campi de universidades e três núcleos regionais de educação ocupados, de acordo com informações do movimento Ocupa Paraná / Camilla Hoshino/ Brasil de Fato

O movimento secundarista ganha aliados para resistir às propostas do governo de Michel Temer (PMDB) para a educação pública com o crescimento das ocupações de universidades pelo país. Só no Paraná, já são 14 campi ocupados, de acordo com informações do movimento Ocupa Paraná. 

Na noite desta segunda-feira (24), estudantes universitários ocuparam um dos prédios da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mais antiga instituição de ensino superior do Brasil, localizada no centro de Curitiba. Os principais motivos são a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, que congela gastos públicos em saúde e educação pelos próximos 20 anos e a Medida Provisória (MP) 746, que determina reformas para o ensino médio.

Confira a versão em áudio da reportagem (para baixar o arquivo, clique na seta à esquerda do botão compartilhar):

 

"Nossa ocupação está sendo um reforço às ocupações dos estudantes secundaristas nas escolas estaduais, pois entendemos que essas pautas também são nossas", afirma o estudante do segundo ano de pedagogia Vitor Yano, de 30 anos.

Ele explica que a ação na universidade ainda coloca em debate pautas locais e internas da instituição, sendo a principal delas a Resolução 96/15, que estabelece novas normas para o cancelamento e suspensão do registro acadêmico e que será votada nesta semana durante reunião do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. 

Assim como nas escolas, apesar de não haver consenso absoluto sobre a ação, os universitários estão recebendo apoio de professores, de sindicatos solidários ao movimento e de outros alunos não envolvidos diretamente na ocupação, que auxiliam com colchões, impressão de material e alimentação. 

É o caso da estudante do curso de Direito da UFPR, Jaqueline Andrade. Para ela, é preciso que a população apoie as manifestações para que não haja retrocessos nas conquistas de direitos sociais. “Caso sejam aprovadas, essas medidas trarão sérios danos para o Brasil, paralisando investimentos em tecnologia, desenvolvimento de pesquisa, extensão e na qualidade de ensino”, lamenta. 

Quanto  à MP 746, Jaqueline acredita que ela interfira na liberdade de pensamento dos secundaristas, não dando prioridade a disciplinas que fazem com que os estudantes tenham uma visão mais critica do mundo. 

Para a professora e coordenadora do curso de Pedagogia, Angela Coutinho, a atual luta dos estudantes em defesa da educação pública tem ensinado à sociedade como é possível se posicionar e se organizar. “Isso tem alterado a opinião de que o jovem não tem protagonismo político”, diz.

 “A primeira coisa que fizemos ao ocupar foi realizar uma assembleia para estabelecermos regras sobre a ocupação: não se pode quebrar nada e é preciso manter tudo organizado. Além disso, nos dividimos em comissões para garantir a estrutura em relação à limpeza, segurança, comunicação, entre outras atividades”, explica Vitor. Segundo ele, a ideia é que os universitários interajam com os secundaristas promovendo debates e atividades ao longo dos próximos dias.

Até o momento, os estudantes ocupam apenas o prédio Dom Pedro I do Campus Reitoria, onde funcionam os setores acadêmicos. A parte administrativa e financeira segue funcionando.

Cenário local 

Além das universidades e dos institutos federais, o cenário de aproximadamente 850 escolas ocupadas no Paraná coloca em evidência a dificuldade de diálogo com o atual governo de Beto Richa (PSDB).

É o que destaca a professora e coordenadora do Observatório do Ensino Médio da UFPR, Mônica Ribeiro, ao explicar que a Secretaria Estadual de Educação (SEED) anunciou que iria implantar as mudanças no currículo antes mesmo da MP ter sido analisada e votada pelo Congresso Nacional.

O Paraná conta com 2.100 escolas estaduais, sendo que, dessas, 1.525 oferecem o ensino médio – três delas em período integral – com 100 alunos, no total. A intenção da pasta é de que, além das mudanças curriculares, sejam 25 unidades com tempo integral, de acordo com informações da Secretaria de Educação do Paraná (Seed).

"Minha hipótese é a de que os estudantes decidiram por essa forma de protesto devido ao modo como foi anunciada a decisão aqui no estado, sem prévia discussão com a rede estadual de ensino. Evidência disso foi a rejeição quase unânime nos seminários promovidos posteriormente pela SEED PR, dos quais participaram estudantes, pais, mães e professores”, garante Ribeiro.

A greve dos professores da rede estadual, iniciada no dia 17 de outubro, une-se a luta pela educação básica no Paraná. A reação veio após a Mensagem 43 enviada pelo governador à Assembleia Legislativa, anunciando que não iria cumprir o acordo de recomposição salarial que resultou no fim da greve em 2015.

No último sábado (22), por 724 votos a favor e 719 contrários, conforme informações do Sindicatos dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná (APP-Sindicato), os professores decidiram pela manutenção da greve. 

Edição: Camila Rodrigues da Silva