Refugiados

Crianças são abandonadas após esvaziamento de campo de refugiados na França

Cerca de 100 meninos e meninas desacompanhadas permaneceram desabrigadas no acampamento 'Selva', em Calais

Brasil de Fato / São Paulo (SP)

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"Jungle", maior acampamento de refugiados da França, localizado na cidade de Calais, antes de sua destruição pelas autoridades francesas. / Malachy Browne/Flickr

Cerca de 100 crianças foram abandonadas no acampamento de refugiados "Jungle" (Selva), localizado na cidade portenha de Calais, no norte da França, e permaneciam desalojadas até a manhã desta sexta-feira (28).

Isso ocorreu porque, nesta quarta-feira (26), autoridades francesas declararam o esvaziamento do acampamento, que, segundo estimativas de organizações humanitárias, era o maior do país, reunindo 9 mil refugiados, dentre elas 1.500 menores de idade.

A "Jungle" ganhou atenção internacional pelas condições precárias e falta de saneamento básico nos acampamentos e pelas tentativas do governo francês de conter a migração dos refugiados ao Reino Unido, através do canal da Mancha - por embarcações ou pelo Eurotunel.

Uma série de cercas e alambrados foram erguidos ao longo deste ano para tentar barrar a passagem dessa população. Em setembro, a França e o Reino Unido iniciaram a construção de um muro com quatro metros de altura e um quilômetro de comprimento em cada margem da rodovia que leva ao porto francês.

O esvaziamento do acampamento se deu por meio da realocação de 4,4 mil migrantes e refugiados em 450 centros de acolhidas espalhados pelo país. No processo, os acampamentos se incendiaram, e o fogo destruiu grande parte dos pertences dos refugiados.

Boa parte das crianças desacompanhadas que viviam na área passaram a noite sem abrigo na madrugada de quinta-feira (27), enquanto aguardavam a decisão sobre o local para onde seriam encaminhadas. Um centro com capacidade para 1.500 pessoas localizado ao lado da Jungle, previsto para abrigar os menores de idade, está lotado.

Emergência

Na manhã de hoje, sob a perspectiva das crianças passarem a terceira noite desabrigadas, as autoridades francesas cederam à pressão internacional sobre o tratamento dispensado aos refugiados e concordaram em disponibilizar ônibus para transferir para centros de recepção os menores que ainda se encontravam na área.

As crianças e os adolescentes foram cuidados por voluntários independentes que se encontravam no local. Segundo denúncias dos voluntários, não houve  nenhum serviço oficial do governo francês para acompanhar as crianças deixadas para trás.

Uma estimativa inicial apontou que quase 500 crianças e adolescentes da 'Selva' têm parentes que já migraram para o Reino Unido e, por isso, tentavam a transferência para o país.

Após centenas de críticas recebidas, a prefeita de Calais, Natacha Bouchart, reconheceu que o anúncio do desmantelamento do acampamento foi precipitado, considerando o número de crianças ainda presentes no local.

Entre os 65 milhões de pessoas deslocadas que compõem o maior fluxo migratório desde a Segunda Guerra Mundial, 51% são menores de idade e grande parte delas migra desacompanhada da família, segundo um relatório publicado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) em junho deste ano.

Edição: Camila Rodrigues da Silva