Seca

No Piauí, megaempreendimentos intensificam estiagens prolongadas

Construções como a ferrovia transnordestina e o projeto Matopiba são alguns exemplos deste processo

Especial para o Brasil de Fato | Teresina (PI)

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Por quase dez anos, o cacimbão de Seu Manoel serviu para dar de beber a mais de 20 famílias. Hoje, está completamente vazio. / Tertuliano Filho

Em virtude dos baixos índices pluviométricos observados ao longo do mês de setembro e nos meses anteriores, houve uma expansão das secas graves e extremas para a região norte do Piauí, que normalmente não é afetada por esse fenômeno por ser litoral ou mais próximo a ele. Em todo o estado, a seca já atinge cerca de 1,2 milhão de pessoas em 224 cidades, sendo que 128 delas estão em situação de emergência ou em racionamento, segundo levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo.

A falta de chuvas aliada aos megaempreendimentos da região e à ausência de políticas públicas têm prejudicado os assentamentos da zona rural de Parnaíba e o de Canaã do Norte, que está instalado desde 2012 mas, desde então, nunca recebeu assistência do poder público.

Uma senhora chamada Abenonízia conta que, há quatro anos, ela precisa andar três quilômetros para pegar água, já poluída. Às vezes, um jegue ajuda no trajeto, mas as consequências são sentidas na pele, principalmente de crianças e idosos, que sofrem com erupções causadas por micoses e outros problemas de saúde.

As lagoas que existiam na região, onde homens da região pescavam em dias de descanso, já não existem mais. Os camponeses da região, por vezes, precisam se deslocar até o perímetro irrigado Tabuleiros Litorâneos para trabalhar em troca de alguns trocados, sob condições exaustivas.

No centro-sul, reginao semiárida onde a falta de água é um problema histórico, a seca considerada excepcional também teve sua área ampliada.

Megaempreendimentos

A colonização moderna continua a fazer vítimas e aprofundando o modelo de desenvolvimento que retira a possibilidade dos sujeitos de conviverem com a natureza.  Para Maria Sueli Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal do Piauí (UFPI), megaempreendimentos como a ferrovia Transnordestina, a mineração e as extensas plantações de grãos, especialmente os de soja, têm causado fortes impactos na vida da população do semiárido. 

No caso da Transnordestina, as indenizações às famílias atingidas foram irrisórias, e são objeto de contestação por parte de quase todas. Além disso, a ferrovia dividiu mais de 90% das propriedades rurais do entorno em duas partes, dificultando o acesso dos proprietários às fontes de água.

“A soja, por sua vez, envenenou todas as fontes, porque elas ficavam nos terrenos mais baixos, e as plantações, nas partes altas. Assim, todo o veneno do agrotóxico desce e mata os animais, as pessoas e as plantas. Em todo lugar que tem soja acontece isso: as pessoas passam a ser envenenadas cotidianamente. Quem ficou está vivendo nessas condições, e o prognóstico é ainda pior”, afirma Rodrigues.

Ela lembra que, com a implantação do Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba (PDA-Matopiba), já apelidado de 'Mataopobre', espera-se um aprofundamento ainda maior dessas condições. Isso porque o projeto criado quando a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) estava à frente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) representaria a destruição do cerrado, além de não contemplar as comunidades que vivem neste espaço.

O plano, que envolve os estados do Maranhão, Tocantins, Bahia e Piauí, prevê a apropriação destas terras pelo agronegócio, sem levar em consideração os mais de 25 milhões de habitantes que vivem nestes 143 milhões de hectares de terra, a maioria em comunidades quilombolas, indígenas e camponesas que não têm seus territórios regularizados.

Segundo a estudiosa, a seca “piora tudo, intensifica o que já acontece, pois vai juntar tudo para ter uma lógica só de exploração, juntando todos os estados, criando uma zona só. Esta cultura, que já é danosa, será intensificada e ampliada pelas políticas governamentais”, concluiu.

Exceção

Na localidade Santa Rosa, no município de Campo Maior (PI), o agricultor Manoel dos Santos, 54, teve outra sorte. Entre sorrisos e balançadas em sua rede trançada na varanda da casa em que mora com a esposa, ele diz que possui um sistema de irrigação ligado a um poço tubular que permite que seu plantio continue, apesar da escassez de chuvas. Ele planta milho, feijão, mandioca, macaxeira e melancia, tanto para consumo próprio, como para vender.

“O milho, quando sobra, a gente vende, mas a maioria é para consumo mesmo, do criado da gente”, diz, referindo-se a sua criação de bodes e ovelhas. “O feijão é para o consumo mesmo. A macaxeira, quando sobra, a gente vende também”. Além disso, o agricultor possui um cajueiro que, este ano, bateu o próprio recorde de produção, tendo gerado 123 quilos de castanha.

No entanto, ele pondera que o velho cacimbão (uma espécie de poço) no quintal de casa está vazio. Construído com apoio do governo nos anos 1990 durante um período de emergência, decretado devido à falta de chuvas, foi fonte de água para mais de 20 famílias daquelas redondezas por quase dez anos.

Edição: Camila Rodrigues da Silva