Consciência negra

É preciso esvaziar as senzalas modernas e construir o nosso Quilombo!

Com uma recordação conclamo todas e todos a colocar o produto fora da sacola e misturar sabão em pó com pão de alho

Curitiba (PR)

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O Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, lembra a morte do líder Zumbi dos Palmares, que lutou pela libertação dos negros escravizados durante o período colonial no país / Reprodução

Pulei da cama cedo. Naquele dia não precisaria ir à escola, tinha uma entrevista de emprego e, se tudo desse certo, começaria a trabalhar pela tarde. Minha mãe, feliz, juntou as moedas para a minha passagem de ônibus. Eu coloquei a roupa mais formal do meu irmão: bota e calça jeans.

Segui para o centro, cantando um rap em voz baixa no ônibus. Algo em mim estava em ebulição. Eu ficava assim todo o dia 20 de novembro. Esse dia me tomava por completo, já imaginando se meus amigos estariam na Rua XV tocando rap, se haveria roda de capoeira ou se algum teatro apresentaria alguma peça.

Era uma data sagrada. As memórias traumáticas de ser negro se confundiam com a felicidade de estar vivo, de ser a continuidade de uma luta que faz do povo brasileiro o mais guerreiro de todos e, ao mesmo tempo, o mais bárbaro de todos, dependendo do lado em que você está, no quilombo ou na Casa Grande.

Mas nada disso me importava naquele momento. Desci do ônibus, o sol tropical incidia sobre as coisas e gerava uma sombra preta, forte, corpulenta, e, camuflado nessas sombras, vi dois amigos negros, com uma caixa de som, ouvindo “Sou Negrão”, do Rappin Hood, lutando com unhas e dentes para que aquela data não passasse em branco. Olhei para aquelas sombras cheio de orgulho e cumplicidade, mas segui meu destino.


No Pão de Açúcar, as coisas tinham cheiro de novo, cheiro de felicidade, de quando a gente fazia compra e sonhava. 


No local da entrevista havia eu e mais oito, todos concorrendo a quatro vagas de empacotador de mercado. Não precisava de experiência nem de ensino médio completo. Bastava conseguir colocar produtos em uma sacola. Uma coincidência: dos nove candidatos, seis eram negros.

Na entrevista, perguntaram se eu tinha algum problema de saúde, se eu tinha passagem na Delegacia de Adolescentes e se eu usava drogas. Respondi “não” a todas e, pronto, estava empregado, feliz e realizado.


No mesmo dia assinaram minha CTPS. Meu plano era abandonar por um tempo o colégio e me dedicar ao trabalho para ajudar em casa - o aluguel aumentava e minha mãe estava desempregada. Voltando da entrevista, agora com mais calma, parei na Rua XV, ouvi um rap, conversei com meus amigos, reclamamos de ter  tão pouca gente ali.

Os transeuntes passavam ao redor como se a gente não existisse, como se aquele dia fosse um dia qualquer, como se a memória de todos os nossos ancestrais não se condensasse ali, naquele momento, acendendo os olhos angustiados e melancólicos de cada irmão. Nada mais justo se éramos invisíveis, nossa data também seria.


“O filho da Dona Sônia da rua de baixo disse que ganha quase dez reais por dia só em gorjeta levando as compras no carro dos boy”.


Mas eu tava feliz, e muito. Cheguei na minha vila e falei para meu melhor amigo que tinha conseguido o trabalho, que começaria ainda naquele dia, mais tarde, e que aquela minha sorte era obra do dia da Consciência Negra. Ele, negro também, concordou e disse que agora, no Pão de Açúcar, a gente teria voz. Falou das possibilidades de gorjeta: “O filho da Dona Sônia da rua de baixo disse que ganha quase dez reais por dia só em gorjeta levando as compras no carro dos boy”.

Fui para casa, contei as boas novas para minha mãe. Ela ficou feliz, fez uma comida, almocei e fui.

Aluguel, x-salada e corpos semi-vivos

No Pão de Açúcar, as coisas tinham cheiro de novo, cheiro de felicidade, de quando a gente fazia compra e sonhava. Como dizia meu padrasto: “Um dia a gente vai lotar dois carrinhos de compra, vamos ter carro e colocar tudo na parte de trás, dois carrinhos!”. Mas enquanto esse dia não chegava, a gente ia de ônibus e contava o número de sacolas que cada um poderia trazer na volta.

O instrutor, operador de caixa, explicou nosso trabalho de forma bem sucinta: “Vocês aqui são os que tão mais embaixo, vocês fazem o que a gente manda, o que o fiscal manda, o que os atendentes mandam e, é claro, o que os gerentes mandam. Mas o trabalho é fácil, é só colocar os produtos na sacola e não misturar comida com material de limpeza. Conseguem, né? Se eu treinar um macaco para fazer ele conseguiria, acho que vocês também!”.

Fiquei meio aborrecido com a explicação tão realista e com a comparação com o macaco, mas me alegrava a possibilidade de ajudar no aluguel, talvez comprar uma roupa ou um x-salada quando estivesse no centro.

Mais de quinze anos depois, percebo a forma de escravidão a que somos submetidos; sem auto-estima, sem possibilidades, sem futuro, sem sonhos, refém da violência que abrevia nossa vida material e, um pouco por dia, nos aniquila simbolicamente. Retiram de nós a humanidade, a criatividade, para que, ao fim e ao cabo, só sobre de nós a animalidade, a bestialidade, o instinto, a força física, o raciocínio mecânico para colocar o produto na sacola.

As novas formas de domínio são mais sutis, como o Golpe que estamos sofrendo, atuam silenciosamente, assassinam sem sangue, e nós morremos sem luto, sem luta. Se antes nos matavam e escondiam os cadáveres, agora nos matam e deixam nos corpos semi-vivos, atrás de algum balcão, servindo. Crime perfeito.

Hoje, como quem foi empacotador, balconista, panfleteiro, repositor, servidor público e advogado, conclamo todas e todos a colocar o produto fora da sacola, a misturar sabão em pó com pão de alho, a lotar as ruas no dia 20 de novembro. Façamos uma greve negra, uma deserção dos subempregos. Vamos esvaziar as senzalas modernas e construir nosso Quilombo!

*Renato Almeida Freitas Jr. é advogado e militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)