Bento Rodrigues

“Estamos vivos e somos muitos”, dizem atingidos de Bento Rodrigues

Neste 5 de novembro, um  ano depois do rompimento da barragem da Samarco, atingidos e apoiadores realizam ato

Mariana (MG)

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O ato em Bento Rodrigues foi a última atividade da Jornada de “1 ano de lama e luta” / Leandro Taques/MAB

Passou um ano, mas a lama ainda circunda Bento Rodrigues. Foi justamente no povoado inteiramente destruído pelo rompimento da barragem de rejeitos denominada Fundão, da mineradora Samarco (Vale/BHP Billiton) que muitas atingidas e atingidos pelo maior desastre socioambiental da história do Brasil decidiram passar esse 5 de novembro. Dezenas de ônibus e carros partiram de Mariana – onde foi realizado um encontro nos dias 3 e 4 - e chegaram ainda de manhã na estrada onde tudo aconteceu primeiro.

“Nunca esquecer, para nunca mais acontecer” era uma das várias palavras de ordem repetidas em coro pelas centenas de pessoas que se somaram ao ato. Vindas de vários estados e várias cidades de Minas, além de participações internacionais, todos foram tomados pela emoção impactante de entrar na cidade devastada. Depois de uma caminhada pela lama até o que restou de Bento, uma dinâmica lembrou o momento do rompimento. Cobertas de lama, 21 pessoas carregaram cruzes, que depois foram colocadas ao lado de mudas plantadas, em homenagem às vítimas.

O número oficial de vítimas fatais é 19, mas o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que organizou o ato junto com a Arquidiocese de Mariana, contabiliza 21. Um desses é em memória de um aborto forçado, sofrido por uma moradora de Bento devido ao impacto da violência da água misturada a rejeitos de mineração. O outro é para lembrar de um senhor que morreu de depressão há duas semanas, também em decorrência da violência sofrida.

Em meio à dor da encenação tão real, alguém puxou: “Estamos vivos. E somos muitos”. De novo, o coro de mais de 1.000 pessoas responde: “somos muitos”.

Lembranças de Bento Rodrigues - Especial Marcas da Lama

Solidariedade

Estava lá com sua roupa suja de lama seca o senhor Antonio Martins Quintão. De 48 anos, 47 vividos em Bento, ele carregava um cartaz com uma foto de como o povoado um dia foi, com a praça central, a igreja, o campo de futebol. Ele conta que sempre que dá ele volta lá, e já vai com a roupa preparada. “Venho pra ver meu passado. Venho matar a saudade, depois vou embora”, explica.

Hoje ele mora em uma comunidade com o irônico – e maldoso – nome de “Vila Samarco”. A moradia, no entanto, é para ele ainda temporária. O que ele quer mesmo é voltar para casa de vez. “Vir aqui hoje traz um misto de dor e esperança, por ver tanta gente na luta com a gente. Espero que isso ajude a fazer as empresas se conscientizarem”, resume.

Um culto ecumênico reforçou a dimensão coletiva da luta comum. E terminou com a canção ao “Pai Nosso dos Mártires”, dos pobres, torturados e dos marginalizados. “Pedimos-te o pão da vida, o pão da segurança, o pão das multidões”, diz trecho da oração, que precedeu a distribuição de uma comunhão feita com pão sovado.

“Luto para nós é verbo”

Além de religiosos, sindicalistas, moradores de periferias, sem-terra, estudantes, professores, artistas, comunicadores, ambientalistas, mulheres, homens e crianças percorreram o que restou de Bento Rodrigues e se comprometeram a manter a memória viva e em não deixar o crime impune.

Vindos do Chile, Ronald Salsedo e Christian Rivera trabalham para a gigante BHP Billiton, que detém ações da Samarco, junto com a outra gigante Vale S.A. “Chegaram poucas notícias para nós do que foi esse crime. Ver isso de perto é impactante. Nos solidarizamos com a dor de todos os atingidos e vamos levar informações para lá também”, diz Ronald. “Não estamos longe de passar coisa parecida no Chile, porque há muitas comunidades perto das mineradoras e pouco cuidado. Nosso inimigo é o mesmo, é transversal”, completa.

Justiça

O Greenpeace realizou, em parceria com o MAB, uma intervenção para cobrar a responsabilização dos culpados por esse que é considerado o maior desastre socioambiental da história do Brasil. Foi colocada a palavra “Justiça”, em cima da Escola Municipal Bento Rodrigues, completamente destruída. Nos seus escombros, os atingidos entoaram o grito de ordem “Águas para a vida, não para a morte”. 

Juventude 

“Se os ricos batem panelas, nós temos nossos tambores”, dizia ao megafone uma militante do MAB, abrindo alas para a bateria do Levante Popular da Juventude. Rodrigo Souza, nascido no Pará, veio do Rio de Janeiro com outros três militantes do Levante. “A gente vê aqui claramente o efeito perverso dessa lógica mercantil, em que o lucro prepondera sobre a vida. Para os trabalhadores, sobra a lama”, avalia o jovem. 

Junto com ele, veio Nina Sá, que se emocionou ao ver movimentos mais antigos do que o seu tão firmes na luta. “A gente veio desse leito histórico, do MST, do MAB, mas é muito forte vê-los em luta, saber que existem tantos e tantas lutadoras que fazem isso há tanto tempo. É muito importante aprender com eles”, reforça.

Nina e Rodrigo estavam acompanhados ainda de dois estudantes mais jovens que eles: Julia Gabrielly Marinho e Nathan Elias da Silva são secundaristas em Mariana e estão no movimento de ocupação de sua escola há menos de uma semana.

Apesar de morarem a menos de 30km de Bento, eles ainda não tinham ido até o local desde novembro do ano passado. “Antes eu vinha, para jogar futebol. Tinha campeonato de quadra direto aqui”, lembra Julia, de 17 anos. Nathan, de 16, emenda: “agora não tem mais”. Ele diz que no começo, ainda no ano passado, se falou muito do rompimento, mas com o tempo foi diminuindo. “Acho que estão tentando esquecer”. Já Julia teve muito contato com a tragédia, participou da organização das doações e conhece pessoas que perderam familiares. “Mas chegar até aqui e ver é foda. Vou levar isso para o resto da vida. Vou falar disso para os meus filhos, para os meus netos, com certeza”.

Resistência

O ato em Bento Rodrigues foi a última atividade da Jornada de “1 ano de lama e luta”,  organizada pelo MAB. No dia 31 outubro, uma marcha saiu de Regência, no Espírito Santo, e passou por diversas cidades ao longo da Bacia do Rio Doce. Foram mais de 700 km e nove cidades visitadas. Nos dias 3 e 4, foi realizado um encontro dos atingidos em Mariana, que debateu os impactos da tragédia e os próximos passos.

De acordo com Letícia de Oliveira, integrante da coordenação nacional do MAB, o ato político foi realizado como forma de sensibilização, mas também de denúncia à impunidade dos responsáveis pelo desastre. “O que estamos fazendo aqui hoje é um grito de denúncia a todo o mundo para não deixarmos que o maior desastre ambiental do Brasil seja esquecido. Já está mais do que provado que o rompimento de Fundão foi uma tragédia anunciada, ou seja, um crime. Por isso, exigimos a responsabilização dos culpados”, afirma.

Edição: Juliana Gonçalves