Opinião

ARTIGO | Obscurantismo e ódio

O Brasil tem vivenciado nos últimos anos uma radicalização do debate público

Lavras

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"Os termos depreciativos, a personalização do debate, a virulência e a convicção com que as opiniões são expressas são os sintomas mais evidentes dessa tendência a qual estamos sujeitos e que joga uma pá de cal sobre qualquer possibilidade de convivência democrática" / Arquivo

Tive a feliz oportunidade de participar, recentemente, como professor convidado de uma atividade profissional na UNILAB (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira), instituição de ensino superior criada entre 2008 e 2010, e que eu desconhecia quase completamente.

Curiosamente, na mesma semana em que estava na UNILAB, o historiador Marco Antonio Villa, professor associado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e conhecido comentarista da rádio Jovem Pan, atacava duramente essa instituição e a UNILA (Universidade da Integração Latino-americana), a partir de ideias muito semelhantes. Não tenho, obviamente, a intenção de falar em nome da UNILA e da UNILAB. Sirvo-me aqui desse episódio tão somente para refletir sobre a escalada de obscurantismo e ódio que temos vivenciado na sociedade brasileira.

O argumento central formulado por Villa em seus dois pronunciamentos públicos (disponíveis no canal Youtube) foi que tanto a UNILA quanto a UNILAB são universidades “absolutamente inúteis”, visto que não ensinam ou não produzem conhecimento relevante. Mais do que isso, o principal ponto da crítica desse publicista é que, além de irrelevantes, essas universidades são fortemente ideológicas, isto é, propagam uma visão de mundo não científica e distorcida, que não corresponde à realidade, mas sim à visão de mundo que ele denomina de “lulopetismo”.

Em resumo, esse padrão de governo (consolidados nos mandatos de Lula e Dilma) teria criado uma série de novas universidades que teriam como único propósito “fabricar ideologias”. A “herança maldita” deixada por eles, só para ficar no campo da educação, salienta o historiador, foi tão nociva e profunda que levará uma década ou mais para ser extirpada do país. Mais do que apenas criticar governos passados, Villa cobra das atuais autoridades do Ministério de Educação (MEC) alguma medida contra essa situação (ainda que de modo bastante condescendente, se comparado à sua posição em relação a Lula e Dilma). Mas como Villa justifica suas severas críticas à UNILA e à UNILAB?

Fundamentalmente, a estratégia retórica do historiador consiste em escolher algumas disciplinas que são ministradas aos alunos da UNILA e, a partir do título dado a essas disciplinas, chamar a atenção do ouvinte para fundamentalmente três aspectos: seu caráter incomum, seu caráter ideológico e sua irrelevância sob a perspectiva científica. "Pretagogia", "Teorias da Diáspora" (I, II e III), "Fundamentos filosóficos e prática do samba", "Descolonização epistêmica", etc., são exemplos de matérias que, pelo título, revelariam cabalmente que essas universidades são inúteis e só servem para formar “militontos”.

Em primeiro lugar, cumpre destacar que a crítica pública ao conhecimento produzido nas universidades é não apenas uma concretização do direito de livre expressão, como é algo absolutamente necessário para que a relação entre sociedade e universidade seja mais profícua. A autocrítica deve mesmo ser parte indissociável do fazer científico.

Entretanto, essa crítica – visto que ela própria reivindica o status de conhecimento verdadeiro – deve obedecer a certas regras do discurso científico. A primeira e mais fundamental é que toda opinião proferida deve estar fundamentada em uma análise cuidadosa da realidade, não em uma rápida avaliação.

Nesse sentido, a posição esposada por Villa deixa muito a desejar. Ele argumenta, por exemplo, que desconhece o que seriam essas disciplinas, pois elas adotam um título enigmático. Cabe ressaltar que a análise de programa de uma disciplina acadêmica requer, minimamente, que se investigue não o seu título mas, sim, o programa da disciplina, isto é, a descrição minuciosa acerca dos seus temas, objetivos, metodologia, referências bibliográficas, etc.

Os programas das disciplinas ofertadas em uma universidade devem estar disponíveis ao grande público, precisamente para permitir que os interessados possam saber do que se trata. Tanto a UNILAB, quanto a UNILA fornecem em seus sites o "programa geral” de seus cursos, que contém a descrição das disciplinas ofertadas. Por que Villa não os consultou? O mencionado polemista deveria – precisamente por estar reivindicando maior probidade e rigor dessas instituições – prezar pela qualidade da sua análise, não?

A título de simples exemplo, se adotarmos a mesma estratégia de Villa e avaliar, apenas através do título, as disciplinas ministradas no curso de História Social da USP (Universidade de São Paulo), onde Villa se doutorou, casos como "Roma e România: a questão das línguas à cisão das culturas", "Cosmologias indígenas do Centro México: um percurso pelos códices pré-hispânicos e coloniais", "Origens, desenvolvimento e perspectivas do movimento operário no Brasil", entre outras disciplinas, podem parecer tão ou mais incomuns, ideológicas e despropositadas do que as matérias ofertadas pela UNILAB. Precisamente, porque o método de avaliação é, no caso, inadequado.

Tampouco a alusão de Villa sobre o que pensariam das disciplinas oferecidas pela UNILAB os intelectuais que ajudaram na fundação da USP (da chamada "missão francesa"), como o antropólogo Lévi-Straus, não é mais do que um expediente retórico, contra factual, quando não uma falácia de apelo à autoridade e confissão de "complexo de vira-latas".

Além desse equívoco primário – entre tantos outros, como o de afirmar, por exemplo, que a UNILAB tem quatro campi, quando, na realidade são dois -, que sugere que o propósito desse intelectual é menos o de refletir seriamente sobre os rumos da educação nacional e mais o de polemizar, seria importante refletir ao menos sobre outros três aspectos do discurso de Villa.

O primeiro diz respeito à ideia de que certas disciplinas não deveriam ser ensinadas pois seriam inúteis. Não é trivial que tal crítica seja dirigida às ciências humanas (história, antropologia, etc.), pois tradicionalmente a crítica utilitária recai sobre esse tipo de conhecimento científico. Sem exagerar, é possível dizer que, desde o surgimento da filosofia na Antiguidade grega, essa objeção é veiculada com certa frequência. Curioso é que ela seja feita por alguém das ciências humanas e que não perceba que uma vez admitida sua razoabilidade, se o tráfico de escravos não precisa ser sistematicamente estudado (para usar um exemplo dado por Villa), por que outros fenômenos da história brasileira e mundial deveriam ser? Por que as universidades não deveriam se limitar ao estudo e ensino das ciências "úteis", como as engenharias, medicina, etc.? Villa, assim, reitera certo senso comumnas sociedades capitalistas que concebe a educação instrumentalmente, como apenas um meio, que só é valorizado na medida em que gera os fins que seriam verdadeiramente importantes.

O segundo aspecto digno de menção se refere à ideia de que essas disciplinas da UNILAB seriam " ideológicas" e que visariam "formar militantes". Não é desnecessário destacar como esse juízo se harmoniza com recentes propostas como a Escola sem Partido. Esse tipo de discurso, como a proposta de iniciativa de lei, parte da premissa de que ele próprio não é ideológico e que há em curso no país um processo de doutrinação nas escolas e/ou universidades, ambas premissas bastante contestáveis e que exigiriam uma análise mais séria do que a realizada por Villa.

Por fim, não se deve ignorar que a crítica desse intelectual se dirige a duas instituições de ensino que apostam na integração brasileira com outros países do eixo sul-sul, isto é, uma estratégia da política externa brasileira alternativa àquela que priorizava tradicionalmente as relações do país com as nações desenvolvidas, fundamentalmente da América Anglo-saxônica e da Europa Ocidental. Marco Antonio Villa brada: por que nós temos que arcar com os custos de educação de paraguaios, venezuelanos, angolanos, cabo-verdianos, etc.? A pergunta deve ser levada a sério, penso eu, até porque não se trata apenas de uma questão meramente econômica, mas mesmo cultural, visto que as atividades de pesquisa, ensino e extensão dessas universidades se orientam a partir de temas e demandas geradas por esse processo de integração internacional.

Mas não deixa de ser curioso que aquele que se levanta contra a entrada de latino-americanos e africanos se revele favorável e mesmo saudosista em relação à entrada de franceses no ensino superior brasileiro. Mais importante, contudo, é notar que a atitude xenófoba de Villa contraria a tradição das melhores universidades do mundo, de receber alunos estrangeiros e estabelecer relações de cooperação acadêmica, o que historicamente contribuiu para o desenvolvimento científico, como é o caso da própria USP.

Depois de ponderar sobre as diversas falácias e absurdos proferidos por Villa e, ao mesmo tempo, consultar o seu currículo, que atesta, a princípio, sua qualificação acadêmica fico, de fato, em dúvida se o que move esse intelectual é má-fé ou ignorância. Ambos, provavelmente.       

De qualquer modo, o mais relevante é notar que o Brasil tem vivenciado nos últimos anos uma radicalização do debate público, no qual importa menos as razões e a análise paciente da realidade, e mais a adesão dogmática e inflamada a certo posicionamento político. Villa, nesse sentido, apenas reitera um padrão de comportamento no qual, à direita e à esquerda, cada um já “tomou partido”, “já escolheu um lado”, de tal modo que o debate é dispensável, pois, na realidade, estou ali apenas para divulgar minha opinião a ser, inevitavelmente, reforçada pela existência de meu adversário. São casos cada vez mais comuns que comprovam que certeza não é garantia de conhecimento.

As evidências, em suma, não contam. Saber que não se avalia a pertinência e adequação de uma disciplina acadêmica pelo seu título, por exemplo (entre outros impropérios pronunciados em alto e bom som por Villa), é irrelevante. O que importa, nesse contexto de crescente obscurantismo e ódio, é assumir um lado e combater meu adversário, pois ele não é apenas alguém que discorda de mim, mas meu inimigo, no caso de Villa, aqueles que implementaram “um projeto criminoso de poder”. Os termos depreciativos, a personalização do debate, a virulência e a convicção com que as opiniões são expressas – comuns tanto à fala de um intelectual minimamente qualificado como Villa, quanto aos comentários de qualquer um nas redes sociais – são os sintomas mais evidentes dessa tendência a qual estamos sujeitos e que joga uma pá de cal sobre qualquer possibilidade de convivência democrática.

Sócrates, ao morrer, deixou muitos “seguidores”. Dentre eles, os céticos, isto é, aqueles que consideravam que o principal ensinamento do filósofo ateniense consistia em identificar na precipitação o grande problema humano. Erramos e sofremos porque julgamos apressadamente em nossa vida cotidiana. Contra esse mal, receitavam a “suspensão do juízo” (epokhé): nem negar, nem afirmar, mas permanecer atento à realidade. Uma dose de ceticismo faria muito bem à opinião pública brasileira.

*Marcelo Sevaybricker Moreira- Professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA).