João Paulo Cunha

João Paulo Cunha é jornalista e colunista do jornal Brasil de Fato MG. Trabalhou em jornal, rádio e TV em Belo Horizonte.

Temer é pior que Trump

No audio source provided.

Se Trump ameaça programas sociais, Temer já chegou cumprindo

Enquanto os analistas se engasgam em explicações sobre vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, o mundo parece viver um pesadelo antecipado. Afinal, se o futuro presidente norte-americano for apenas a ínfima parte do que se arroga, o mundo tem um deserto a atravessar nos próximos anos. Preconceito, machismo, xenofobia, racismo, indigência intelectual, belicismo como política de afirmação nacional, demagogia, oportunismo, homofobia, desrespeito aos direitos humanos, ausência de solidariedade, fanatismo e uma série interminável de defeitos de alma.
É claro que o candidato não venceu pelos seus deméritos, embora eles digam muito de parte da alma do americano médio. Trump eleva o que há de detestável em todo ser humano a níveis estratosféricos, o que responderia por um sentimento de compartilhamento neurótico: a identificação com canalhas completos ameniza a canalhice mirim dos simples mortais. Mas ele também desperta emulação por suas pretensas qualidades, mesmo que algumas delas tenham sido questionadas durante a campanha: sucesso profissional, riqueza, liderança, assertividade e senso de justiça afiado pela ausência de constrangimentos – humilhar e demitir os outros é uma forma de diversão que o celebrizou na TV.
Há ainda uma variável importante, característica que engolfou o mundo como uma onda: a transfiguração da política com o esvaziamento da dimensão ideológica em favor de certo pragmatismo individualista. Com a perda de consistência dos debates no campo das ideias e projetos de sociedade, a democracia perdeu intensidade, volume, significação. Esvaziada de suas atribuições mais básicas, a democracia fica apenas com o referencial mais imediato, a contagem de votos como início e fim do processo. 
Discurso da negação da política
Sem partidos, sindicatos, associações, inteligência, liberdade de expressão e sentimento de coletividade, a democracia se transforma num arremedo de concurso de popularidade. Não é um acaso que as lideranças surjam negando a política, fortalecendo o jogo antissistema como forma de falsa contestação. Vem daí, por exemplo, o sucesso de figuras como Doria em São Paulo, Kalil em BH e Crivela no Rio. O primeiro contesta com os signos do sucesso, o segundo com o voluntarismo antipartidário, o terceiro com a afirmação de uma legitimidade revelada. No mundo da antipolítica, sobejam os novos ricos de fachada, os temerários de fancaria e os salvacionistas ungidos. 
Para completar o quadro da lambança norte-americana, há que se lembrar que Trump não chega num cenário livre de disputas históricas e conflitos em andamento em seu país e no mundo. Sua atuação é potencialmente destrutiva em cenários como os conflitos na Síria, em relação aos muçulmanos, no que diz respeito à imigração, no tocante à fronteira com o México. É ainda preocupante o que pensa em fazer em matéria de políticas sociais internas (sobretudo a prometida desmontagem do sistema de saúde criado por Obama), na área de empregos e no protecionismo econômico que solapa acordos internacionais. Sem falar de temas de interesse universal, como a possível regressão do acordo climático e, especialmente, em relação ao acordo nuclear com o Irã. Tudo isso deixa antever muita crise e perigo no horizonte. O homem tem os códigos ao alcance das mãos. O dedo no botão.
Golpe segue no Brasil
O mundo vai mal. Mas as coisas não estão melhor no Brasil, com a diferença de que, por aqui, a responsabilidade é nossa e ninguém vai chorar por nosso destino. Em vez de ficar de olho na tragédia estadunidense, temos um programa amplo de resistência a implantar contra o governo ilegítimo que se abancou no país. Temer é bem pior que Trump. Em primeiro lugar, não foi eleito, mas tomou o poder por meio de um golpe que se perpetua a cada dia pela ação de seus responsáveis de primeira hora: o Judiciário, a mídia, o Legislativo, as guildas empresariais e bancárias e os setores conservadores no campo dos direitos humanos, religiosos e laicos. 
Tudo que em Trump é bazófia personalista, em Temer é um programa estruturado. Podemos nos surpreender com Trump. Com Temer, tão estrito em seu projeto de solapar as bases erigidas pela Constituição de 1988, não teremos sequer essa possibilidade. É um tirano menor e atilado, incapaz de contradições.
Se Trump ameaça programas sociais, Temer já chegou cumprindo, com ataques ao sistema de saúde pública, à pesquisa, à ciência e tecnologia, à assistência social, ao sistema previdenciário e à legislação trabalhista. E, principalmente, à educação, tratada a decretos autoritários empurrados por agentes públicos incapazes do debate que sempre honrou alunos e professores. Que a maior trincheira de defesa da democracia venha das escolas ocupadas e de jovens corajosos e informados politicamente é um sinal a ser compreendido e honrado. A escola pública os trouxe até aqui. É por isso que, na avaliação dos golpistas, ela precisa ser ressecada até se tornar espaço de treinamento acrítico para o mercado. Para coroar o programa protofascista e antipopular, a segurança assumiu novamente a carranca da repressão. Justiça, no Brasil, hoje evoca violência do Estado contra o cidadão. 
Machismo ostentação
Há também o lado menos denso, mas igualmente dissolvente em termos éticos. Temer e Trump casaram-se com mulheres mais jovens e que exibem comportamento evasivo e orgulhosamente subalterno, na contramão da história. A diferença é que Temer ainda deu emprego à sua moça, num misto de recrudescência do primeiro-damismo, assistencialismo rasteiro e marketing, numa afronta aos programas consistentes de atenção à criança.  
Os dois mandatários têm maioria parlamentar. No entanto, o presidente americano, mesmo com um Congresso de maioria republicana, vai precisar dar conta do sistema de pesos e contrapesos de uma democracia mais madura. Terá que abrandar a empáfia e aprender a negociar com congressistas, inclusive de seu partido. Por aqui, Temer deita e rola com deputados e senadores venais e previsíveis. E previsíveis porque venais.
Não é hora de lamentar o trumpismo, mas de combater o temerismo. 
*

Editado por: Redação

|

Newsletter