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Temer é pior que Trump

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09 de Novembro de 2016 às 19:21
"Tudo que em Trump é alarde personalista, em Temer é um programa estruturado" / Reprodução
Se Trump ameaça programas sociais, Temer já chegou cumprindo

Enquanto os analistas se engasgam em explicações sobre vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, o mundo parece viver um pesadelo antecipado. Afinal, se o futuro presidente norte-americano for apenas a ínfima parte do que se arroga, o mundo tem um deserto a atravessar nos próximos anos. Preconceito, machismo, xenofobia, racismo, indigência intelectual, belicismo como política de afirmação nacional, demagogia, oportunismo, homofobia, desrespeito aos direitos humanos, ausência de solidariedade, fanatismo e uma série interminável de defeitos de alma.

É claro que o candidato não venceu pelos seus deméritos, embora eles digam muito de parte da alma do americano médio. Trump eleva o que há de detestável em todo ser humano a níveis estratosféricos, o que responderia por um sentimento de compartilhamento neurótico: a identificação com canalhas completos ameniza a canalhice mirim dos simples mortais. Mas ele também desperta emulação por suas pretensas qualidades, mesmo que algumas delas tenham sido questionadas durante a campanha: sucesso profissional, riqueza, liderança, assertividade e senso de justiça afiado pela ausência de constrangimentos – humilhar e demitir os outros é uma forma de diversão que o celebrizou na TV.

Há ainda uma variável importante, característica que engolfou o mundo como uma onda: a transfiguração da política com o esvaziamento da dimensão ideológica em favor de certo pragmatismo individualista. Com a perda de consistência dos debates no campo das ideias e projetos de sociedade, a democracia perdeu intensidade, volume, significação. Esvaziada de suas atribuições mais básicas, a democracia fica apenas com o referencial mais imediato, a contagem de votos como início e fim do processo. 

Discurso da negação da política

Sem partidos, sindicatos, associações, inteligência, liberdade de expressão e sentimento de coletividade, a democracia se transforma num arremedo de concurso de popularidade. Não é um acaso que as lideranças surjam negando a política, fortalecendo o jogo antissistema como forma de falsa contestação. Vem daí, por exemplo, o sucesso de figuras como Doria em São Paulo, Kalil em BH e Crivela no Rio. O primeiro contesta com os signos do sucesso, o segundo com o voluntarismo antipartidário, o terceiro com a afirmação de uma legitimidade revelada. No mundo da antipolítica, sobejam os novos ricos de fachada, os temerários de fancaria e os salvacionistas ungidos. 

Para completar o quadro da lambança norte-americana, há que se lembrar que Trump não chega num cenário livre de disputas históricas e conflitos em andamento em seu país e no mundo. Sua atuação é potencialmente destrutiva em cenários como os conflitos na Síria, em relação aos muçulmanos, no que diz respeito à imigração, no tocante à fronteira com o México. É ainda preocupante o que pensa em fazer em matéria de políticas sociais internas (sobretudo a prometida desmontagem do sistema de saúde criado por Obama), na área de empregos e no protecionismo econômico que solapa acordos internacionais. Sem falar de temas de interesse universal, como a possível regressão do acordo climático e, especialmente, em relação ao acordo nuclear com o Irã. Tudo isso deixa antever muita crise e perigo no horizonte. O homem tem os códigos ao alcance das mãos. O dedo no botão.

Golpe segue no Brasil

O mundo vai mal. Mas as coisas não estão melhor no Brasil, com a diferença de que, por aqui, a responsabilidade é nossa e ninguém vai chorar por nosso destino. Em vez de ficar de olho na tragédia estadunidense, temos um programa amplo de resistência a implantar contra o governo ilegítimo que se abancou no país. Temer é bem pior que Trump. Em primeiro lugar, não foi eleito, mas tomou o poder por meio de um golpe que se perpetua a cada dia pela ação de seus responsáveis de primeira hora: o Judiciário, a mídia, o Legislativo, as guildas empresariais e bancárias e os setores conservadores no campo dos direitos humanos, religiosos e laicos. 

Tudo que em Trump é bazófia personalista, em Temer é um programa estruturado. Podemos nos surpreender com Trump. Com Temer, tão estrito em seu projeto de solapar as bases erigidas pela Constituição de 1988, não teremos sequer essa possibilidade. É um tirano menor e atilado, incapaz de contradições.

Se Trump ameaça programas sociais, Temer já chegou cumprindo, com ataques ao sistema de saúde pública, à pesquisa, à ciência e tecnologia, à assistência social, ao sistema previdenciário e à legislação trabalhista. E, principalmente, à educação, tratada a decretos autoritários empurrados por agentes públicos incapazes do debate que sempre honrou alunos e professores. Que a maior trincheira de defesa da democracia venha das escolas ocupadas e de jovens corajosos e informados politicamente é um sinal a ser compreendido e honrado. A escola pública os trouxe até aqui. É por isso que, na avaliação dos golpistas, ela precisa ser ressecada até se tornar espaço de treinamento acrítico para o mercado. Para coroar o programa protofascista e antipopular, a segurança assumiu novamente a carranca da repressão. Justiça, no Brasil, hoje evoca violência do Estado contra o cidadão. 

Machismo ostentação

Há também o lado menos denso, mas igualmente dissolvente em termos éticos. Temer e Trump casaram-se com mulheres mais jovens e que exibem comportamento evasivo e orgulhosamente subalterno, na contramão da história. A diferença é que Temer ainda deu emprego à sua moça, num misto de recrudescência do primeiro-damismo, assistencialismo rasteiro e marketing, numa afronta aos programas consistentes de atenção à criança.  

Os dois mandatários têm maioria parlamentar. No entanto, o presidente americano, mesmo com um Congresso de maioria republicana, vai precisar dar conta do sistema de pesos e contrapesos de uma democracia mais madura. Terá que abrandar a empáfia e aprender a negociar com congressistas, inclusive de seu partido. Por aqui, Temer deita e rola com deputados e senadores venais e previsíveis. E previsíveis porque venais.

Não é hora de lamentar o trumpismo, mas de combater o temerismo. 

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