Crônica

Aos atingidos pela Usina Baixo Iguaçu, o direito às estacas

A estaca, fincada, atravessa a terra que será engolida pela água; Fere a terra que não será mais terra

Capanema, sudoeste do Paraná

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Da estaca se vê o rio, terra e uma casa. No futuro, tudo debaixo d'água represada. Como fica a gente da terra? / Guilherme Uchimura

O forasteiro que chega expele concreto e lança estacas de suas entranhas. Vem para extrair energia de nossas águas. A energia está vendida para a Vale. As riquezas destinadas para a exportação. Os lucros remetidos para a Espanha.

Restam as estacas.

A estaca, fincada, atravessa a terra que será engolida pela água. Fere a terra que não será mais terra.

Terra que com a estaca se marca. Terra que, para o capital, é feita para fazer mais número. Da estaca se vê o rio, terra e uma casa. No futuro, tudo debaixo d'água represada. Como fica a gente da terra? Hoje a estaca marca esta gente, como gado, piqueteada.

Gente esquecida, aguardando o pasto alagado. Terra de onde agora a Usina Baixo Iguaçu espanta a gente-gado. Ao povo, o direito às estacas. Estaca que marca dezessete metros de água. Estaca que marca. Quanto metros de terra? Quantos metros de vidas?

Hoje? Hoje tem bandeira que se hasteia neste acesso. Hoje são vinte e nove dias de acampamento. Amanhã trinta. Trinta dias de acampamento, trinta dias de acesso fechado.

Contra a Usina cravada, Que direitos? O direito do capital ao acesso. O direito do povo às estacas.

Com quantos direitos o capital constrói sua barragem?

Por trinta dias, o povo levanta-se em obstinada correnteza. Haverá concreto para estancar a luta popular? Quantas estacas para demarcar a nossa vontade de lutar?