GUERRA ÀS DROGAS

Entenda a guerra que explodiu essa semana na Cidade de Deus, no Rio

Perícia aponta que helicóptero da Polícia Militar não foi alvejado e que os corpos dos policiais não tinham perfurações

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Bope invadiu a Cidade de Deus depois que um helicóptero caiu na noite de sábado (19) / Divulgação

Cenas de uma guerra que poderiam perfeitamente acontecer no Oriente Médio, com combates de fuzil, granada e até a queda de um helicóptero. Mas não é na Síria. Aconteceu na Cidade de Deus, pertinho da Cidade Olímpica, que há poucos meses recebeu milhares de turistas e heróis do esporte internacional.

Na terça-feira passada (15) o fundador da Central Única das Favelas (Cufa), Celso Athayde, já alertava para o que estava por vir. “Vai ter uma guerra essa semana no Rio. Fico pensando se há muita diferença entre essa guerra e do Estado Islâmico. Pensem em 60 jovens (do Comando Vermelho) de fuzis empunhados, cheios de ódio, lutando para retomar ‘seus territórios’. Do outro lado, atrás de barricadas uns 200 fuzis (da milícia) pronto para atirar. Eles não têm medo de morrer, não tem pena de matar, de ser presos, de serem alvejados e ficarem inválidos”, escreveu Celso Athayde em suas redes sociais.

Esse seria o prenúncio da guerra entre o Comando Vermelho (CV) que tentaria retomar o controle da Gardênia Azul, favela dominada pela milícia de paramilitares. Essa favela fica ao lado da Cidade de Deus, que é controlada pelo CV. Os milicianos já estavam em situação fragilizada, pois recentemente viveram uma guerra com a milícia Liga da Justiça, a maior da zona oeste do Rio. Esse é o reduto mais importante dos milicianos do Rio de Janeiro.

O Comando Vermelho é a facção criminosa mais antiga do Rio. Ela nasceu como Falange Vermelha, na década de 80 e depois mudou de nome. Dela nasceram outros dissidentes como o Terceiro Comando (TC), Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP), esse último surgiu em 2002, fruto de um racha entre o TC e ADA que, embora fossem facções diferentes, operavam unidas.

Celso Athayde cresceu nas favelas cariocas vendo de perto a estrutura do tráfico de drogas, viveu na Favela do Sapo, território de Rogério Lemgruber (o Bagulhão), fundador da Falange Vermelha, com quem conviveu. No entanto, a realidade nas favelas hoje assusta até mesmo quem cresceu vendo o crime se organizar.

“Qual é o cenário hoje? Vejo o crescimento acelerado da criminalidade. As guerras de facções não param de aumentar e o tráfico de armas só cresce. Estamos caminhando para uma guerra, que vem galopante”, aponta, ao Brasil de Fato, o fundador da Cufa, que realiza trabalhos sociais e promove cursos de formação cultural na CDD.

Tiroteios acontecem toda semana no Rio, então o único motivo da forte reação das autoridades e da imprensa aconteceu em função da queda do helicóptero, segundo Celso Athayde. “Nesse dia teve tiroteio o dia todo. A morte dos quatro PMs foi a novidade e explodiu esse sentimento de vingança. É compreensível esse ódio dos policiais, que sofrem e morrem todos os dias, mas isso não vai resolver o problema da violência que não acontece só na CDD”, afirma Athayde.

Dois áudios, recebidos através de Whatsapp, davam conta do cenário da guerra. De um lado policiais convocaram em grupos do aplicativo PMs para todos aqueles que estavam de férias e de folga se apresentaram no domingo (20) e saírem a campo para vingar a mortes do colegas. No outro áudio, um “soldado do tráfico”, pedia um minuto de silêncio para os companheiros mortos na “luta contra os vermes”.

Perícia preliminar

A perícia preliminar feita no helicóptero da Polícia Militar aponta que a aeronave não foi alvejada. A autópsia feita nos corpos dos quatro PMs mortos na queda do helicóptero também mostra que eles morreram em decorrência do impacto. As informações são do porta-voz da PM, major Ivan Blaz. Ao final o conflito registrou saldo de 22 mortes: 18 moradores da CDD, os quatro policiais, além de duas pessoas gravemente feridas.

Celso relatou que nos cemitérios do Rio, no dia seguinte, foi difícil reconhecer quais eram as mães desesperadas dos policiais e quais as dos supostos traficantes, de tanto que elas se pareciam. “O sistema continua intacto. Os pretos ou periféricos continuam se matando para garantir a festa farta das elites”, critica.

Aos olhos da socióloga e pesquisadora Julita Lemgruber, esse episódio de violência na CDD é o mais triste capítulo da guerra às drogas e defende a legalização como única solução possível para por fim à violência.

“Quando a gente fala em legalização, na verdade estamos falando em regulação. Porque liberada a droga já está. Qualquer pessoa se quiser pode comprar e até pedir para entregar. Chega mais rápido que uma pizza”, ressalta a socióloga.

O tráfico de drogas existe em todos os bairros das cidades grandes, segundo Julita Lemgruber. Para ela, a diferença reside no fato de que na favela esse varejo das drogas é fortemente reprimido. “Eu moro na zona sul do Rio (região de classe média alta), aqui eu poderia comprar qualquer tipo de droga, com a diferença que esse traficante não terá um fuzil apontado para ele”, diz a pesquisadora.

Por isso ela aponta que o caminho indicado do mundo civilizado é a legalização e ela pode ser feita de forma gradual. A primeira delas, como em muitos países, é a maconha. “Temos vários modelos de legalização quem podem ser analisados. Além disso, há estudos nos Estados Unidos, realizados nos estados onde a maconha foi legalizada que mostram que a criminalidade e o uso de drogas entre os adolescentes não cresceram. Com esses estudos, alguns fantasmas estão sendo enterrados”, destaca Julita Lemgruber. Além de estudiosa do assunto, ela é ex-diretora-geral do sistema penitenciário do Estado do Rio de Janeiro, durante o segundo mandato do governador Leonel Brizola (entre 1991 e 1994), e ex-ouvidora de polícia do Estado do Rio de Janeiro e viu de perto o fracasso da guerra às drogas.

“Essa questão da proibição é algo que não tem 100 anos, é coisa do século 20, que entrará para a História como o século das proibições e espero que o 21 seja o século da legalização, depois de darmos conta do mal que a proibição causou à sociedade”, conclui a socióloga.

Edição: Vivian Virissimo