ABASTECIMENTO

População recebe água marrom em Itabira (MG) por 2 meses

Cidade do Vale do Aço é rodeada por mineradoras, que podem ser as responsáveis pela contaminação

Belo Horizonte

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A água, mesmo tratada, teria índice muito alto de manganês, metal que pode trazer sérios problemas à saúde / Reprodução de vídeo

Moradores da cidade de Itabira, no Vale do Aço, estão indignados com o abastecimento de água da cidade. Pelo menos dez bairros estão recebendo água escura e com mau cheiro ou não estão recebendo, segundo o líder comunitário do bairro Fênix, Tiago Batista. A captação de água está sendo feita em local de estocagem de resíduos de minério da empresa Vale S.A.

“Terça não teve água, na quinta e sexta deu só para fazer a merenda dos meninos”, conta a professora Creidimar Duarte Azevedo, da Escola Municipal Marina Bragança de Mendonça. Ela afirma que, desde setembro, escolas estão dispensando alunos em diversos dias por falta de água. “A gente chega e não tem água no bebedouro e nem pra merenda. Não tem como trabalhar com as crianças nessa condição”, explica.

Vídeos enviados por Tiago, que é morador do bairro mais afetado, mostram a água saindo marrom ou amarelada da torneira de várias residências. Ele participa da comissão de moradores que, em reunião com o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Itabira (Saae), denunciou que casos de diarreia, manchas na pele e vômitos têm aumentado consideravelmente nos bairros afetados.

De onde vem a água?

No final de 2015, a Estação de Tratamento Pureza começou a ser insuficiente para a cidade, época em que o Saae começou a implantar a Estação de Tratamento de Rio de Peixe. A água passou a ser captada de uma barragem de rejeitos da Vale S.A., para onde vão resíduos da mineração. O ponto de captação já foi mudado três vezes, na tentativa de captar água de melhor qualidade. Hoje, essa estação abastece 20% dos habitantes da cidade.

Foi entregue ao Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente de Itabira (Codema), no dia 10 de novembro, um relatório técnico desaconselhando o consumo da água, elaborado por um engenheiro agrônomo, uma auditora fiscal e uma farmacêutica. A água, mesmo tratada, teria índice muito alto de manganês, metal que pode trazer sérios problemas à saúde.

Resposta

O secretário de Meio Ambiente de Itabira, Nivaldo Ferreira, defende que a informação sobre o manganês seja complementada com análise de outras substâncias, não sendo possível tirar conclusões apenas pelo relatório. Segundo o vereador Bernardo Mucida (PSB), a cidade está diante de um impasse. “O Saae afirma que, se a captação em ETA de Peixe for suspensa, a população sofrerá um sério racionamento. Precisamos decidir se abrimos a discussão ou se suspendemos já a captação”, explica. 

“Era uma cidade de muitas nascentes’’

O modelo de mineração implantado no Brasil, e também em Itabira, é uma das atividades econômicas que mais utilizam água na sua produção. Quem afirma isso é o ambientalista Gustavo Gazzinelli. “A mineração concorre com outras prioridades no uso de água, mas parece estar claro que essa concorrência passou do limite”, lamenta.

De acordo com ele, existem dois problemas centrais. O primeiro é o uso da água para o beneficiamento do minério de ferro. O segundo problema seria a destruição de aquíferos. “A mineração de ferro faz uma cava no solo, onde muitas vezes estão localizadas reservas de águas subterrâneas”, afirma. Este processo destrói o reservatório natural formado pelas rochas e extingue os aquíferos ferruginosos, que são fonte de muitas nascentes.


Vista de Itabira (MG) | Foto: Reprodução

 

Um lugar que não existe mais

“O caso de Itabira é único no mundo. A mineração é vizinha da população, literalmente dentro do perímetro urbano”, critica o vereador Bernardo Mucida. Ele conta que vários moradores lembram-se da abundância de água na região. O mesmo descreve a professora Creidimar Duarte Azevedo. “Itabira era uma cidade de muitas nascentes. O que aconteceu é que não temos cuidado ambiental e, para piorar, temos a Vale, uma estrondosa consumidora de água”. (RD)