CRÔNICA

Carta para Talita

Afinal, quem ainda escreve cartas ou crônicas de jornal?

Recife

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Roberto Efrem Filho – ou Beto, como gosta – é do Recife e, vez ou outra, desajeita-se na palavra. / Arquivo pessoal

[Recife, 30 de novembro de 2016, ao som do disco de 1978 de Bethânia, “Álibi”]. Tata, só agora consegui ler a sua carta. Acordei meio encharcado de madrugada e tensão. Sim, a escrita da tese… – ao menos é o que venho me dizendo para justificar toda instabilidade, a majoração galáctica dos meus transtornos obsessivos e a repetição insegura das mesmas músicas a percorrer a massa quente, densa e quase vermelha de ar que se forma dentro de um apartamento onde um homem escreve e se angustia. Acordei só. Iran está no Rio, foi receber um prêmio, estamos felizes. Levantei, passei o café, abri as portas da varanda para que a língua macia da manhã lambesse o livro de contos de Cortázar sobre o baú e os discos de Maria Bethânia que guardo desde a adolescência – aquele dramalhão, você pode imaginar, costas molhadas escorregando nos azulejos do banheiro, chuveiro aberto oceanos e lágrimas peremptórias desatadas apocalipticamente! Tudo bem, pode rir. E se achar. Aproveitei a manhã para mudar de lugar o vaso da hortelã que me parecia tristíssima. Descansei-a ao sol, como meu pai fazia com as gaiolas dos canários. Os bichinhos cantavam e, é verdade, pareciam-me felicíssimos. Eu estava às vésperas de ouvir a hortelã cantar quando pus Bethânia para tocar e abri o seu envelope. “Que seja doce” estava dito. Essa frase de Caio F. sempre me traz Rebeca. Ela é doce, nós sabemos, mas diz isso com aquele sorriso de Dimas se deixar. A máquina de datilografar na Estação da República, você encontrou, deve ter mesmo algo de nosso. Quando vou a São Paulo, é comum passar por ali. Regina mora na Rua do Arouche e me recebe com felinos fabulares, a cadela Capitu e uma cidade sua no interior de um apartamento onde uma mulher escreve, trabalha, faz-se inteira e, como nós, ri-se e se angustia. Mas, Tata, deve haver algo de nosso ali porque não há palavra alheia a setembro. Ou ao sol deste virgem sob o qual nascemos e no qual, de certo, não acreditamos o suficiente. Acho que já lhe contei. Logo que Mariana e eu nos conhecemos, ela nos conectou a constelações. Você e eu teríamos este jeito, assim, “assertivo”… Talvez fosse melhor dizer da capacidade de se mover grave num nó de fragilidades. Iran se equivoca ao remeter essa mania de “certezas” a minha formação jurídica. “Advogado”, ele diz. Não se trata disso. Tem mais a ver com a Talita que existe em mim. Ah, Tata, gosto de ouvir você falar – e você fala! – construindo com firmeza e destreza a arquitetura dos argumentos. Você é hábil. É provável que, como eu, você se perca na ansiedade. Esmera-se, contudo, na tentativa daquela doçura. Gosto de receber suas cartas e de saber que você, também como eu, é dada a essas práticas já antiquadas. Afinal, quem ainda escreve cartas ou crônicas de jornal? Nós cantamos como canários e hortelãs. Eu desafino. E seguimos ao Bela Vista e nos encontramos do lado direito da corda do Eu Acho é Pouco. Tata, eu amo você porque já era seu o carnaval que aprendi, com Mariana, a brincar.