Ditadura

Justiça italiana ouve primeira testemunha contra ex-agentes da ditadura no Brasil

Arquivista falou sobre ditaduras do Cone Sul e Operação Condor

Opera Mundi

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A arquivista italiana Giulia Barrera, primeira testemunha do caso que julga ex-agentes da ditadura brasileira na Itália / Janaina Cesar / Opera Mundi

Na manhã desta segunda-feira (05/12), foi a ouvida a primeira testemunha do processo Condor brasileiro que tramita no tribunal de Roma, na Itália. O caso julga os ex-agentes da ditadura militar brasileira (1964-1985) João Osvaldo Leivas Job, Carlos Alberto Ponzi, Átila Rohrsetzer e Marco Aurélio da Silva – que morreu no dia 2 de junho – pelo assassinato do ítalo-argentino Lorenzo Viñas Gigli.

 

A arquivista italiana Giulia Barrera falou à corte por mais de quatro horas e, antes de entrar no caso específico de Viñas, explicou o que foi a Operaç ão Condor e como as ditaduras do Cone Sul a colocaram em prática. Barrera usou slides de textos, gráficos e imagens para ilustrar de forma didática o período repressivo na região. Documentos desclassificados do serviço de inteligência dos Estados Unidos também foram elencados e lidos, entre estes um fax da Embaixada norte-americana em Buenos Aires onde era citada a prisão de 12 militantes do movimento Montoneros, que lutava contra a ditadura na Argentina (1976-1983) e do qual Viñas fazia parte.

O ítalo-argentino desapareceu em 26 de junho de 1980, entre os municípios de Paso De Los Livres e Uruguaiana, na fronteira entre Argentina e Brasil. Por conta da militância nos Montoneros, Viñas já havia sido preso em 1974. No exílio, foi para o México em 1975, com sua esposa Claudia Olga Allegrini, e veio em 1977 para o Brasil. Em 1979, retornou à Argentina, onde nasceu sua filha, Maria Paula. Por conta da perseguição política, o casal decidiu ir para a Itália. Em junho de 1980, Viñas embarcou em um ônibus em Buenos Aires com destino ao Rio de Janeiro — sua esposa Claudia faria o mesmo percurso um mês de depois e juntos iriam para o país europeu. No entanto, Viñas não completou o percurso e desapareceu na fronteira entre os dois países.

Comissão Nacional da Verdade

A arquivista italiana mencionou uma carta escrita em 1994 por Silvia Tolchinsky, militante Montonero sequestrada em Las Cuevas, fronteira da Argentina com o Chile, e endereçada a Claudia Allegrini, em que Tolchinsky relata ter encontrado Viñas em uma prisão clandestina. Barrera também usou o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, produzido pelo governo de Dilma Rousseff, onde o nome de Viñas aparece entre as vítimas da repressão brasileira. Diante da apresentação da ficha da CNV com o resumo da história do italiano, a procuradora Tiziana Cugini interveio e ressaltou a importância do relatório por ser o primeiro produzido por uma comissão da verdade onde os nomes dos possíveis criminosos são divulgados.

Para a procuradora Cugini, “o depoimento de Barrera é fundamental para contextualizar o período histórico e os crimes cometidos”. Segundo o Ministério Público italiano, na data em que Viñas foi sequestrado, Leivas Job era secretário de Segurança do Rio Grande do Sul; Ponzi chefiava a agência do SNI (Serviço Nacional de Informações) em Porto Alegre; Rohrsetzer era diretor da Divisão Central de Informações do Rio Grande do Sul; e Silva, delegado de polícia, cobria o cargo de diretor do Dops (Departamentos de Ordem Política e Social) do Rio Grande do Sul. Rohrsetzer mora em Florianópolis e Leivas Job e Ponzi vivem em Porto Alegre. Marco Aurélio da Silva vivia, até sua morte em junho passado, em uma praia do litoral gaúcho.

Investigação

Cugini está substituindo o procurador Giancarlo Capaldo, que por cerca 15 anos investigou a morte e o desaparecimento de 25 cidadãos de origem italiana entre 1973 e 1980, período de atuação da Operação Condor. Com o fim das investigações preliminares, foram denunciadas 146 pessoas, mas por falta de colaboração de alguns países e devido ao grande número de pessoas já falecidas, apenas 33 viraram réus, além dos quatro brasileiros.

Em outubro passado a procuradoria romana pediu a prisão perpétua de 27 ex-agentes de ditaduras de Bolívia, Chile, Peru e Uruguai e absolveu um ex-militar. A sentença deste processo deve ser proferida no dia 13 de janeiro de 2017. Já a próxima audiência do processo em que os brasileiros são réus foi marcada para o dia 27 de fevereiro.