Coluna

O partido da “Lava Jato”

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O juiz Sergio Moro se tornou peça chave no "Partido da Lava Jato" / Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
Manter a centralidade na luta eleitoral é um previsível erro

A conjunção de forças que patrocinou o golpe conserva grande unidade em relação às medidas econômicas e sociais que aceleradamente estão implementando. Não vacilam no apoio à “PEC do congelamento”, Reforma da Previdência, desmonte do BNDES, Banco do Brasil e Petrobras. Estão unidos no programa da ofensiva neoliberal, enquanto um bloco de poder, embora comecem a travar uma intensa disputa interna sobre quem assumirá a condução política do golpe.

Nas últimas semanas, o estrato jurídico político do golpe vem assumindo de forma escancarada o papel de verdadeiro “Partido da Lava Jato”. Agora com o apoio explícito da Rede Globo, que retoma sua função de convocar atos públicos, assume a clara representação da classe média alta. Não se trata de uma disputa secundária. É inevitável comparar o momento atual com a disputa política após o golpe de 1964, quando os militares sufocaram seus aliados civis, hegemonizando o controle político.

Partido “Lava Jato” deixa claro que não vai se limitar aos ataques seletivos ao PT, como vinha fazendo, investindo cada vez mais para assumir o controle político do golpe.

Temer vai se tornando uma representação política cambaleante, pressionado para acelerar ao máximo as medidas econômicas e sociais do programa golpista. 

Não podemos esquecer que o grande movimento político em curso no atual golpe é o esvaziamento das margens de governabilidade do Poder Executivo. Caso não compreendam esse processo, as forças populares correm o risco de ver sua tática esvaziada, permanecendo impotentes na luta política. Afinal, desde as primeiras eleições diretas após a ditadura, em 1989, a disputa presidencial converteu-se no objetivo tático central da esquerda brasileira.

O plano de Moro e o desafio da esquerda

O elo frágil do plano político golpista é a inabilitação de Lula para impedi-lo de disputar as eleições de 2018. Sergio Moro precisa condená-lo ainda no início do primeiro semestre de 2017, para assegurar o tempo mínimo de confirmação da sentença pelo Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, impedindo que a inabilitação pela “Lei da Ficha Limpa” adentre o ano eleitoral.

Se conseguirem inabilitar Lula, único candidato de esquerda capaz de atrair uma votação significativa das massas populares desorganizadas, estaremos correndo o grave risco de nos pulverizar em candidaturas inexpressivas, restritas a uma lógica de autoconstrução, aprisionadas numa centralidade eleitoral que já não corresponde ao momento atual. 

É previsível que as tensões sociais se agravem nos próximos meses, com as perdas salariais e redução de políticas públicas. A longo prazo, esvaziar as margens democráticas do Estado acarretará uma bomba social, ainda mais numa conjuntura internacional cuja marca é a imprevisibilidade. Um provável cenário futuro como este explica a necessidade do “Estado de Exceção” e o papel do Partido da “Lava Jato” capaz de assegurá-lo. 

Na atual situação, deixar de compreender coletivamente o processo político em curso e manter uma centralidade tática que já não atende à realidade configuram um previsível erro. Sair da defensiva implica em retomar a campanha pela convocação de uma Assembleia Constituinte, não apenas do sistema político, mas capaz de reorganizar de forma soberana e democrática o Estado brasileiro. Esta pode se converter na principal bandeira para derrotar o golpe. 

Para tanto, a Frente Brasil Popular, principal instrumento unitário surgido no enfrentamento ao golpe, precisa se converter numa ferramenta capaz de apresentar um projeto de país, convertendo-se num polo de organização popular.

Ricardo Gebrim é da direção nacional da Consulta Popular