Segregação

Coletivos da periferia de SP lançam nota contra Virada Cultural em Interlagos

Em resposta às últimas declarações de Doria, organizações da periferia defendem a descentralização da cultura na cidade

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Racionais Mc's se apresentam no palco principal da Virada Cultural de São Paulo
Racionais Mc’s se apresentam no palco principal da Virada Cultural de São Paulo | Crédito: Racionais Mc's se apresentam no palco principal da Virada Cultural de São Paulo

Na tarde da última segunda-feira (5), João Doria, prefeito recém eleito de São Paulo, afirmou que vai transferir a Virada Cultural do centro da cidade para o Autódromo de Interlagos, na Zona Sul. De imediato, o anúncio foi alvo de repúdio nas redes sociais e, na quarta-feira (7), vários coletivos da periferia de São Paulo reagiram à declaração.

Em repúdio, mais de 40 organizações lançaram uma nota online intitulada “Por um Estado que não segregue e criminalize as periferias”. Além de repudiarem a medida anunciada por Doria — argumentando que ela perpetua, ainda mais, uma lógica de exclusão — eles também criticam suas últimas declarações sobre os bailes funks, os classificando como o “cancro que destrói a sociedade”. 

“Levar para o Autódromo de Interlagos um dos raros equipamentos públicos localizados fora da região central da cidade já nos soa como uma tentativa de cercar o evento, criando barreiras para que ele não seja frequentado por quem não é bem-vindo nos ‘rolês de gente diferenciada’, já que o espaço é murado, com portões que historicamente impedem que vizinhos do lugar o acessem, podendo apenas ouvir os roncos dos motores”, afirmam em um trecho da nota.

Na nota, os coletivos defendem os bailes como manifestações espontâneas da juventude periférica que cumprem o papel de ocupar culturalmente espaços públicos com pouco investimento do Estado. A descentralização dos eventos culturais e da aplicação dos recursos públicos em bairros periféricos da cidade é pauta histórica das organizações articuladas por meio de movimentos e coletivos. 

Outra crítica que os coletivos levantam se refere à Fábio Santos, vice-presidente da agência de comunicação CDN e escolhido por Doria para assumir a Secretaria de Comunicação da cidade em sua gestão. Para justificar a declaração do prefeito recém eleito, Santos argumentou que a transferência da Virada para Interlagos se deve a arrastões promovidos pela “galera que vem da perifa”. “Na Virada, o que acaba acontecendo — me perdoe a crueza — é que você tem uma galera que vem da perifa, alguns organizados para fazer isso [arrastões]”, disse.

O texto da nota ainda diz que declarações como a de Doria e de Santos incentivam a ação violenta da polícia nas periferias e vão na contramão de políticas municipais que impeçam a discriminação, o racismo e a segregação espacial. “Por décadas e décadas, nossos bairros foram roubados e nós fomos levados a ser mão de obra barata a ser explorada na ‘cidade’, construindo parques que não podíamos entrar, morrendo em obras de metrô longe de nossas casas.”

Edição: José Eduardo Bernardes

 

Editado por: Redação

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