PACOTE DE MALDADES

Trabalhador que ganha em média R$900 gastará 35% em transporte público no Rio

Moradores da região metropolitana gastarão R$320 reais por mês em transporte intermunicipal

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |
Preço mais alto da tarifa de integração do transporte público vai pesar no bolso do trabalhador
Preço mais alto da tarifa de integração do transporte público vai pesar no bolso do trabalhador - Pablo Vergara/ Arquivo Brasil de Fato

A base aliada do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou, na última quinta-feira (9) as mudanças nas regras sobre o Bilhete Único Intermunicipal. A passagem, que custa atualmente R$ 6,50, será reajustada para R$ 8. Sem o desconto, alguém que saísse de Niterói num ônibus intermunicipal e pegasse um outro coletivo no Rio gastaria R$ 11,20, ou seja R$ 448 por mês.

Hoje, quem trabalha de segunda a sexta, o gasto com bilhete único é de R$ 260. O valor representa 28% da renda média dos trabalhadores da região metropolitana é de R$ 900, segundo dados do Instituto dos Economistas, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro. A partir de janeiro, com o valor R$ 8 do Bilhete Único Intermunicipal esse percentual vai subir para 35% da renda média de cidades como São Gonçalo, onde a renda per capita (por pessoa) é de 896 reais, e em São João de Meriti, 904 reais.

O que isso significa? Que vai aumentar o número de trabalhadores que não pode pagar passagem para trabalhar no Rio de Janeiro, correndo o risco inclusive de subir a taxa de desemprego na região metropolitana, já o empregador tende resistir em aumentar o valor destinado ao pagamento de passagens de funcionários.

Segundo cálculo da prefeitura do Rio de Janeiro, hoje o número da população em situação de rua no centro do Rio de Janeiro é de cerca de 5 mil pessoas. De acordo com o Conselho Regional de Serviço Social do Rio de Janeiro (CRESS-RJ) a maioria delas são os chamados “excluídos da mobilidade”, que são vendedores ambulantes, catadores e outros trabalhadores informais que não ganham o suficiente para voltar para a casa todos os dias.

O deputado estadual Eliomar Coelho (Psol) classificou essa medida do governo de Luiz Fernando Pezão de “covarde”. “Aprovar o aumento da tarifa do Bilhete Único e o fim do benefício para grande parte da sociedade é uma covardia com a população, que tem visto sua vida piorar a cada dia. Algumas pessoas vão chegar a pagar quatro vezes mais o que pagam hoje. A consequência disso será desemprego e aumento da miséria”, disse o deputado, que votou contra a medida.

Eliomar Coelho também criticou a postura do governo Pezão de evitar fiscalizar as empresas de ônibus. “Por um lado aumentam os custos para o trabalhador e, por outro, não se mexe em nada nos privilégios dos empresários de ônibus, que continuam com a caixa-preta fechada", aponta o parlamentar.

Inclusive a mudança aprovada pela base aliada do PMDB na Alerj é mais conservadora que a proposta enviada pelo governador Pezão. A proposta inicial ampliava a tarifa para R$ 7,50 e limitava o subsídio para R$ 150.

RODOVIÁRIOS

Empresas do transporte público estão trabalhando para pressionar o governo a acabar com o Bilhete Único, segundo o motorista de ônibus Jorge Silva, de 33 anos, líder sindical. Sem o repasse do Bilhete Único Intermunicipal, interrompido pelo governo estadual por conta da crise, os empresários já anunciaram que algumas empresas não terão condições de pagar o décimo terceiro salário aos funcionários. “Já estamos vendo isso em empresas menores, como a Vila Isabel, por exemplo, e algumas que atuam em bairros da zona oeste. Algumas já distribuíram cartazes avisando que não vão depositar a segunda parcela do décimo terceiro”, relata o motorista.

No entanto, Jorge Silva avalia que as empresas de ônibus na verdade não querem diminuir a taxa de lucro. “Não há crise no setor. A gente que leva o dinheiro para o cofre sabe quanto o patrão ganha. O valor das passagens que cobro em dois dias é o valor do meu salário, que preciso trabalhar 30 dias. Além disso, tem um cálculo do Tribunal de Contas do Município que diz que se o valor da passagem fosse de R$ 2,50 seria o suficiente”, explica o funcionário.

Em nota publicada na sua página oficial na internet, a Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor) afirma que se o governo do Rio de Janeiro não pagar o subsídio do Bilhete Único, corre o risco de paralisar o transporte público. “Quem criou o Bilhete Único Intermunicipal foi o governo do estado, como um desconto direto na tarifa paga pelo passageiro de ônibus. Pela Lei Estadual nº 5.628/2009 o governo tem obrigação de repassar para as empresas o valor referente ao desconto dado a cada passageiro. Se o Governo deixa de pagar, as empresas começam a ter dificuldades para transportar o cidadão”, afirma a Fetranspor, que representa as empresas do setor.

O jornal Brasil de Fato entrou em contato com e a secretaria de Transporte do estado do Rio de Janeiro, mas até o fechamento dessa matéria não obtivemos resposta.

Edição: Vivian Virissimo

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