Refúgio

Criança refugiada no Brasil conta suas histórias através de desenhos

“Viemos caminhando. Dormimos na rua, em postos de gasolina. Pegamos cerca de 119 caronas", diz Enrico, da Colômbia

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Mapa da trajetória migratória de Enrico, refugiado colombiano de 12 anos que agora mora no Brasil / Enrico/Reprodução

Viemos caminhando. A gente andou muito pela estrada. Dormimos na rua, em postos de gasolina, às vezes em hotéis. Pegamos cerca de… Quantas caronas, filho?”. “Cento e dezenove caronas! Nós contamos”, respondeu o menino animado, levantando pela primeira vez os olhos do desenho que fazia, deitado na cama, enquanto eu entrevistava seu pai.

Enrico, de 12 anos, seu pai Robert (46) e sua meia-irmã Nataly (21), deixaram Bogotá na Colômbia, cidade onde viviam, no dia 18 de novembro de 2014, com apenas 20 mil pesos colombianos (cerca de 7 dólares), para dar início a uma jornada que durou dois meses e 15 dias até São Paulo. Entraram no Brasil pela fronteira com o Peru no dia 31 de dezembro, chegando em Brasiléia (AC). “Ano novo, país novo, vida nova”, disse Robert, com um sorriso tímido.

A família, que aguarda entrevista com o CONARE para conseguir o reconhecimento de refúgio no Brasil, saiu de seu país de origem por conta da perseguição do narcotráfico e por problemas financeiros. "grupos do narcotráfico e paramilitares, grupos armados da Colômbia. Saímos por seguridad”, continuou o pai, que se tornou alvo por ter feito bicos como membro de um órgão que investigava traficantes de drogas. “Recebia e-mails com ameaças dizendo que já haviam me localizado”.

 

Un pueblo sin piernas pero que camina*“

Com quase meio século de duração e agravado nos últimos cinco anos, o conflito colombiano – uma guerra que envolve múltiplos grupos paramilitares, traficantes e guerrilhas ideológicas como as Forças Armadas Revolucionárias (FARC) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) – coloca o país em segundo lugar em número de refugiados e deslocados internos, os “desplazados”, perdendo apenas para a Síria. Um acordo de paz entre o governo colombiano e as FARC que estava sendo negociado há quatro anos foi anunciado em agosto de 2016, mas acabou sendo recusado pela população por 50,2% dos votos válidos em um plebiscito realizado em outubro do mesmo ano.

São cerca de 6,7 milhões de pessoas deslocadas dentro da Colômbia, aproximadamente 13% da população, e um total de 360 mil colombianos reconhecidos como refugiados em outros países, a maioria no Equador e na Venezuela. No Brasil, são a terceira maior população de refugiados, cerca de 1.100 já reconhecidos, um número que, entretanto, representa uma porcentagem pequena do total de refugiados colombianos.

“É muito comum acontecer isso, todos os dias colombianos deixam o país, mas poucos vêm para o Brasil, por causa do idioma. Eu não conheço  até hoje porque quis vir para cá. Sempre falei que tínhamos que conhecer o Rio de Janeiro. Eu descobri o país direito pela Copa, por televisão. Ficou muito famoso. Quando tomei a decisão de sair de lá, o Rio veio na minha cabeça”, explicou Robert. O Rio, destino ainda inalcançado da família, é referência constante nos desejos de Enrico, refletido nos desenhos feitos pelo menino.

“O Santos do Rio de Janeiro” foi o primeiro desenho entregue pelo garotinho pálido e magro, vestido de camiseta do Corinthians e óculos de grau, que me recebeu com timidez, estendendo um banco de plástico em um apartamento alugado da Baixada do Glicério, enquanto seu pai e irmã cozinhavam arepas colombianas, erguendo uma nuvem de fritura que tomava conta do cômodo único de 20m².

Era noite de Virada Cultural em São Paulo e a família aproveitava a manhã de sábado para encher o estoque dos salgados típicos colombianos, a fim de vendê-los no Vale do Anhangabaú para o público itinerante. Enrico, por sua vez, assistia a um episódio de ‘Todo Mundo Odeia Chris’, sentado na cama debaixo da beliche que divide com sua irmã – o pai dorme em um colchão improvisado no chão.

O menino ria com gosto do seriado na Record e parecia confortável em ignorar minha presença, uma dos tantos “periodistas” que já passaram pelo apartamento para perguntar sobre sua “aventura” ao seu pai. Isso até eu tirar o maço de sulfite e estojo de canetinhas da mochila e perguntar se ele gostaria de desenhar para mim. Ele afastou da TV os olhinhos aumentados pelas lentes e assentiu com a cabeça, sorrindo: “Eu gosto de desenhar coisas. Tenho vergonha de dar entrevista”, disse, em um português quase sem sotaque que, segundo ele, foi “mais ou menos fácil de aprender”.

Em monossílabas, Enrico, ou Yuyo (algo que me custou descobrir por conta da inversão confusa de “apelido” e “sobrenome” feita entre hispanohablantes e lusófonos), me contou que está no sexto ano da escola; que gosta de andar de skate e jogar videogame; que sua matéria favorita é matemática, porque matemática é “bom”; e que quer ser policial ou bombeiro, “porque meu pai quer que eu conduza um helicóptero”.

“Minha escola é mais grande do que a que eu estudava no ano passado, lá eu brinco, faço lição, é fácil. Eu gosto de lá, tem pessoas legais e tem gente chata. Tem gente que enche o saco, fala que eu não sou daqui desse país. Eu gosto um pouquinho só de morar aqui, tem uns meninos que ficam aqui na Baixada que falam muito palavrão”, conta Enrico.

Meia hora depois, seu pai puxa outro banco, esfregando o suor no avental, e pede desculpas pela demora, explicando que pretendem vender bastante naquela noite.  Ele tem um jeito doce, olhos bondosos e preocupados. O menino volta a sua atenção ao desenho e Robert dá início à explicação padrão da viagem para o Brasil, que já deve ter repetido uma centena de vezes, até que desacelera o discurso e se emociona quando as perguntas colocam seus filhos em foco.     

“Eu vim por mim e pela minha família. Mas tenho muitos problemas com eles, as crianças brasileiras discriminam muito, não respeitam. Falam palavrões para ele, batem nele. Ele ainda tem alguns problemas na escola, mas tá indo. Tem alguns amiguinhos. É complicado… O Enrico reclama bastante que quer ir embora para a Colômbia, ele não gosta muito daqui e gostaria muito de voltar, mas entende que não pode. Ele não chegou a ver nada lá, fomos embora para ele não ver. Foi a melhor coisa, por agora”.  

Eletricista de formação, Robert trabalhava em uma padaria na Colômbia antes de ficar desempregado e deixar o país. Enrico frequentava normalmente a escola, e nas horas extras desenhava, jogava futebol ou acompanhava o pai no trabalho. A mãe do menino deixou a família há oito anos. Da sua vida antiga, Enrico diz sentir saudade de muita coisa, principalmente da família e da comida.

“É muito boa a comida de lá. Meu pai faz algumas comidas aqui, o arroz e a carne ficam iguais, mas lá eu comia bastante peixe, aqui como mais batata-frita e hambúrguer. Minha comida favorita do Brasil é o churrasco”. Ele conta que fala com seu primo por telefone e por Facebook, mas que não tem contato com nenhum amigo mais. Segundo Robert, o resto da família colombiana não pensa em vir para o país ainda, por ser muito difícil chegar aqui. Sobre o quanto mudou desde a viagem, Enrico diz apenas estar “um poquito mais grande” do que quando chegou.

Apesar de ter gostado de partes da aventura, Enrico absorve as dificuldades financeiras do pai na sua percepção sobre o Brasil. “Não sei se foi bom vir para cá, talvez. Tá muito difícil conseguir o dinheiro e pagar o aluguel, lá era mais fácil”, explica o menino. Durante a entrevista, o pai confessa: “Não estou muito bem não. A coisa mais difícil é ter estabilidade, tranquilidade, para mim e para as crianças, eu preciso muito disso. Trabalho direitinho, mas sou completamente dependente do meu trabalho. Não é fácil vender empanadas”. 

Robert trabalhou por alguns meses em uma lan house do Glicério, que entrou em falência e fechou. Hoje trabalha vendendo as empanadas e arepas colombianas com a marca própria: “¡És Rico!”. Através da entidade Adus, ele participou de um projeto no qual vendia seus pratos em um food truck na Universidade Mackenzie, por 40 dias. “Para nós a vida é muito mais difícil do que na Colômbia, é muito complicado fazer tudo sendo refugiado, organizar tudo, conseguir documento”.

Na opinião de Robert, falta muito espaço para os refugiados no Brasil. “A Cáritas ajuda muito, guiando quando os refugiados chegam, mas é muito demorada. A Adus ajuda no encaminhamento, para que eu possa me empoderar da minha situação. As duas tem programas, mas muito pouco para as crianças. Para elas falta tudo. Tem alguns cursos de português, mas não há uma diretriz”.

Ele opina que os brasileiros sabem muito pouco sobre o refúgio, e muito menos sobre seu país de origem. “Eles sabem que existem refugiados aqui, mas não conhecem nossas vidas e porque tivemos que deixar tudo para chegar aqui. Acho que é bom que as pessoas conheçam mais, para não acharem que nós viemos tirar seus trabalhos. As pessoas não gostam de nós, não podemos generalizar, mas sinto que não gostam. Falam que os estrangeiros têm que ir embora. Falta educação para as pessoas”.

Enrico vai à escola de ônibus no período da manhã e volta para casa à tarde, onde fica pelo resto do dia, ajudando nos afazeres domésticos, fazendo compras no supermercado para as arepas e brincando. Ele faz questão de me contar que no seu prédio mora um menino que estuda junto com ele, com quem, de vez em quando, disputa campeonatos de videogames. “Ele é brasileiro e é meu amigo”. Tanto o pai quanto o filho acham o Centro, e principalmente o Glicério, perigosos. “Do lado da lan house onde meu pai trabalhava só tinha brigas”. A maior diferença entre o Brasil e a Colômbia, para o menino, é a quantidade impressionante de “pessoas dormindo na rua”, que temos aqui.

O lugar preferido do menino em São Paulo é o Parque Ibirapuera, onde já foi duas vezes visitar e andar de skate. A família já visitou outros locais turísticos da cidade, como o Parque Vila Lobos e o Aquário. Da viagem para o Brasil, o lugar que Enrico mais gostou foi Cuzco, no Peru, e o mar de Esmeraldas, no Equador. “Eu conheci o mar. Nunca tinha visto, nem na Colômbia. A gente morava longe”, conta.

Em um mapa cuidadosamente desenhado pelo menino, mas que ainda assim não representa toda a distância e cidades percorridas, ele explica que a jornada teve início quando tinha 11 anos, no Terminal de Bogotá, passando pela cidade de Ibagué, Cali, Pasto e Ipiales, na Colômbia. “Em Pasto tem uma ponte famosa”, relata. Cruzaram a fronteira para o Equador, passaram por Tulcán e pelo tal mar de Esmeraldas, onde aprendeu a nadar, cena também escolhida por Enrico para ser perpetuada em desenho.

Para representar a cidade seguinte, Santo Domingo, também no Equador, o menino desenhou uma mão.  “Foi em um shopping onde a gente pediu dinheiro para comer pela primeira vez, por isso a mão”, explica. Na cidade de Naranjal, o desenho de três sacos representam as sacolas de roupas que a família recebeu quando se hospedou em um hotel, e em Machala, quase na fronteira com o Peru, uma iguana desproporcionalmente grande mostra a primeira vez que Enrico viu o animal. “Machala foi onde fui a conhecer as… Como diz? São como grande lagartixas. Fazia muito calor”.

O muro vermelho padronizado que simboliza as fronteiras no mapa de Enrico (e expõe a riqueza semiótica do desenho) marca dessa vez a entrada no Peru. A primeira cidade atravessada, Piura, é representada com grãos de areia, “lá é um deserto”. Na cidade seguinte, Chiclayo, um pequeno homem com chapéu remete à vez em que a família se hospedou na casa de um policial por quatro dias. Em seguida vem a capital Lima, com seus muitos prédios; Nazca; Pisco; e Cuzco: várias casinhas entre montanhas. “Lá fica bem alto, é muito frio”. Enrico conta que gostou de Cuzco porque o hotel onde se hospedaram ficava em frente à linha do trem. “Lá foi a primeira vez que conheci o trem, muito barulhento, mas legal”.

    

Nesse momento o menino interrompe a explicação e se volta para o pai em espanhol, comprovando a insatisfação em morar no Brasil: “Papa, vamos a volver para Colombia caminando?”, pergunta, dando risada. A irmã ri junto e o pai responde, em um misto de graça e preocupação, que já está muito velho para caminhar.

Enrico continua, explicando que em Puerto Maldonado pegou carona no carrinho acoplado de uma moto, até a última cidade do Peru, Iñapari, onde finalmente cruzou a fronteira para o Brasil.

Em Brasiléia, primeira cidade conhecida em solo brasileiro, Enrico conta que um moço os abrigou, “mas não em uma casa com coisas, era uma casa em construção mesmo. Nós dormimos lá por uns dias”. Na cidade, os três aprenderam a fazer pulseirinhas de miçanga para vender, até chegarem em Rio Branco. “Conhecemos um montão de haitianos lá. Alguns falavam espanhol ou português, então conseguimos falar com eles. Vi uma cobra lá no albergue, também”. 

Na capital acreana, Robert procurou o endereço da Polícia Federal e apresentou o pedido de refúgio. Ele já havia pesquisado todo o procedimento antes de sair da Colômbia. “Eles falaram que como a Colômbia faz parte do Mercosul eu podia entrar no país com o documento do bloco, é bem mais fácil. É muito complicado ficar com o Protocolo de Refúgio, ninguém sabe o que é, não dá nem para abrir uma conta, é sempre ‘não, não e não’ com o protocolo. Mas a carteira do Mercosul custa R$600”, explica.

“Ficamos quinze dias em um albergue em uma chácara onde chegavam cerca de 800 haitianos diariamente. Então nos colocaram em um ônibus para São Paulo. Não é difícil entrar no Brasil, é difícil chegar e transportar-se aqui dentro, porque tudo é mais caro. Ficamos no ônibus por três dias e meio e chegamos aqui em São Paulo. O Brasil é bem grande e as pessoas são muito temerosas, não gostam de dar carona como nos outros países”, continua  Robert. 

Em São Paulo, a família chegou a dormir na rua por alguns dias, até procurar a Cáritas e se hospedar por um tempo no CRAI, conhecido por eles como o “albergue da Rua Japurá”. Robert conta que gostou do albergue, porque lá oferecem três refeições diárias e permitem que as crianças fiquem na casa, enquanto na maioria dos albergues em que passou tinha que sair às 6 horas e retornar às 18h. A família chegou a morar em outro apartamento, menor ainda, até se estabelecer no endereço atual do Glicério.

Para o pai, o mais difícil do trajeto de refúgio foi o próprio caminhar. “Havia dias inteiros que tínhamos só agua e pão para comer, água e pão. Algumas vezes pegávamos uma bandeja para os três comerem. Eu tentava ser o que menos comia, para deixar para eles. Era duro”. Nos retratos feitos por Enrico, a mochila grande, pesando sobre os ombros como a de um mochileiro, parece fazer parte da anatomia do pai. “Ele carregava a mais pesada. Meu pai e a Nataly levavam duas mochilas cada, e eu uma”.

A menina, que tem uma aparência infantil e esteve ocupada cozinhando durante todo o meu primeiro encontro com a família, conversou comigo durante a visita seguinte, e contou acreditar que a jornada trouxe várias coisas novas. “Muitas experiências boas, outras tristes que a gente nunca vai esquecer, tipo dormir na rua, pedir dinheiro na rodoviária… Eu nunca tinha pedido dinheiro, tive muita vergonha. Ficamos com fome e sede todos os dias…”.

Nataly, que ainda não completou o ensino fundamental, afirma que a decisão da viagem foi de uma hora para a outra e que ela amadureceu muito durante o trajeto. “A gente decidiu e arrumou tudo em um dia, saiu no dia seguinte, dormimos na rodoviária e começamos essa aventura louca. Nunca imaginei que seria assim, eu era uma criança”.

Quanto a pegar tantas caronas, Nataly e Enrico disseram que nunca ficaram com medo. “A gente conhecia bastante gente, contávamos que estávamos indo para o Brasil caminhando, as pessoas gostavam de saber, davam dinheiro, almoço, guaraná, até panetone”, conta a menina. “Quando a gente começava o caminho a gente tinha que terminar. Agora a gente caminha fácil”, disse, rindo, sob queixas do irmão mais novo:

 — Eu não caminho fácil, não.

— Ele é uma manteiguinha, cansava e ficava chorando — provocou a menina, arrancando gargalhadas da família que, por um momento, pareceu estar conversando sobre uma dificuldade pré-adolescente de acordar cedo, e não sobre os milhares de quilômetros percorridos.

Em consenso, a família decidiu que o momento mais divertido da viagem foi quando fizeram uma competição para vender bolachas, que o pai comprava em rodoviárias para depois revender em pequenos sacos. Já a pior hora, segundo Nataly, foi quando tiveram que dormir em um posto de gasolina. “Meu pai ficou acordado toda a noite, ele não conseguiu dormir”.

Quando questionado sobre os desenhos, Enrico disse que foi difícil se lembrar de tudo, mesmo com a ajuda do pai. Seu mapa, cheio de símbolos significativos, cruza parte da América Latina sem destacar atrações turísticas. Nazca não é representada com suas misteriosas linhas e Cuzco não é acompanhada das ruínas do Machu Picchu, que a família gostaria tanto de ter visto, mas não conseguia pagar a entrada. Mesmo o trajeto entre Rio Branco e São Paulo não traz referência qualquer da Floresta Amazônica. Sua vivência e percepção da jornada simbolizam as dificuldades, encantamentos e incertezas da própria experiência do refúgio. Noites sob tetos que os abrigaram, em casas ou hotéis, são cuidadosamente marcadas, assim como alguns dos veículos que facilitaram o caminho da família com caronas. As fronteiras entre países, barreiras em vermelho, são quase uma metáfora da interdição do migrar, e a pequena mão sobre Santo Domingo, uma metáfora imagética da fome. Já o “Mar de Esmeralda”, onde o menino nadou por vários dias, corta seu mapa como um Oásis.

Entretanto, o mapa não termina com o prédio cinzento de São Paulo. A estrada continua, com ajuda de flechas, até outro pequeno desenho do Cristo Redentor, a única marca totalmente turística do desenho, acompanhado de um ponto de interrogação que dispensa qualquer explicação. “Eu só quero conhecer o Cristo… E a praia”, diz Enrico. “Até ofereceram trabalho para o meu pai no Equador, mas ele queria chegar ao Rio. Essa era a meta”, destacou Nataly. “Ainda não terminamos, não chegamos lá”, concluiu Robert, que hoje pensa apenas em visitar a cidade maravilhosa.

— Obrigada pelos desenhos, Enrico, você desenha muito bem. Essa história daria um livro, hein?

— Seria muito legal um livro de dibujos da viagem… — respondeu Nataly

—Muito bonito… — completou o pai, com seu último sorriso preocupado antes que eu saísse do apartamento.

Dicionário sobre a situação de refúgio, por Enrico:

Refugiado: "São as pessoas que ficam refugiadas, assim, nos albergues, em casas onde tem pessoas de diversos países, porque quando vieram de um país não tem como pagar o aluguel."

Imigração: "Não sei. Eu sei, mas não me lembro."

País: "Várias nacionalidades que moram muitas pessoas, assim."

Nacionalidade: (não responde)

Dá pra ter duas nacionalidades? "Dá, ou mais".

Dá pra ser colombiano e brasileiro ao mesmo tempo? "Sim… Não sei"

Você se considera brasileiro? "Não, mais ou menos, um pouquinho."

Brasileiro: "Quem nasce no Brasil".

Criança: "Criança são uns meninos muito pequenos e que são menos maduros".

Nação: "Hahaha, não sei, não".

ONU: "Não sei, esse eu não sei mesmo".

Direitos Humanos: "Direitos humanos sim, mas não me lembro. Direito é, por exemplo, assim, a coisa que qualquer pessoa quer fazer. Por exemplo, eu tenho direito a tomar banho".

São Paulo: "É uma cidade onde tem muitas pessoas de vários países também".

Rio de Janeiro: "Esse eu não sei, porque não fui ainda".

Colômbia: "Ah, na Colômbia é… Eu não conheci o mar". 

*Este texto faz parte do Trabalho de Conclusão de curso "Por um Pedaço de Terra ou de Paz" da estudante de jornalismo Júlia Dolce, que conta os relatos de dez crianças em situação de refúgio no Brasil, de cinco nacionalidades diferentes, a partir de abordagens pensadas para relatar as histórias de conflitos armados, violência e refúgio, de forma que as entrevistas diretas fossem contornadas, como a reprodução de desenhos feitos e músicas cantadas pelas próprias crianças e produção de um glossário também respondido por elas. 

Para conferir o trabalho na íntegra, acesse o link.