Coluna

Duro com o opressor, amoroso com o oprimido

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"No Brasil de hoje, essa dupla inscrição do amor que emana de dom Paulo Evaristo Arns se mostra imprescindível"
"No Brasil de hoje, essa dupla inscrição do amor que emana de dom Paulo Evaristo Arns se mostra imprescindível" - Reprodução
Homem de Deus, dom Paulo sabia que só há Deus onde o homem é íntegro

A longa e honrosa vida de dom Paulo Evaristo Arns deixa como maior ensinamento a dupla dimensão do amor. Há um amor que combate, que enfrenta as situações desumanizadoras, que tem coragem de se opor ao poder, que projeta valores de civilização contra os patrocinadores do arbítrio. Há também o amor que acolhe os sofredores, que ampara os injustiçados, que estende a mão aos desabrigados de direitos, que propõe um olhar ao outro como a um irmão.

Em sua ação pastoral, o religioso foi, ao seu tempo, o mais político de seus pares. Em seu trabalho de construção de alternativas para um tempo marcado pela opressão, mostrou a força libertária de sua fé. Ao seguir as sendas da política como quem reza, ele deu dimensão espiritual à sua visão de mundo. Por outro lado, soube sempre se relacionar com as forças instituídas tendo como maior patrimônio a segurança de sua crença no homem. Não faltou coragem no cumprimento desse desígnio, sobretudo quando se leva em conta a época em que viveu e os adversários que enfrentou.

Quando a sombra da ditadura militar cobriu o país, dom Paulo foi um dos mais destacados lutadores pelo restabelecimento da liberdade. Fez isso em seu nome, mas não afastou sua instituição religiosa do campo de batalha, mesmo com a difícil tarefa de vencer a rigidez de uma Igreja conservadora por dentro, a partir de sua própria inspiração. Não se tratava de enfrentar, mas de converter. A Igreja de Paulo Evaristo Arns esteve sempre do lado da liberdade e dos movimentos que caminhavam na mesma direção, como a Teologia da Libertação.

A mais vergonhosa chaga da ditadura, a tortura como ação de Estado, recebeu do cardeal de São Paulo uma ação enérgica, que reuniu o repúdio em forma de declarações públicas, a determinada ação política e o envolvimento pessoal em casos específicos. Mas é importante destacar a sofisticada montagem da mais bem-sucedida rede de pesquisa e denúncia dos crimes da ditadura. O projeto “Brasil: nunca mais”, uma articulação que teve a força moral, a inteligência estratégica e o poder de convocação de dom Paulo Evaristo Arns, reuniu o que até hoje é a maior fonte de informações sobre o crime contra a humanidade cometido pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar.

Mobilizações e acolhimento

Paulo foi um importante personagem na denúncia de torturas e mortes, mas partiu dele também o acolhimento a protestos contra a carestia, em favor da organização sindical e de colaboração com os movimentos populares. Em uma de suas atitudes mais dignas, abriu sua casa religiosa para a celebração da passagem do jornalista judeu Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura. E o fez ao lado de um rabino e de um pastor, numa prática de ética universal e diálogo interreligioso bastante rara até então. Além do destemor em enfrentar um Estado que negava seu crime e impunha censura aos gestos humanitários. Homem de Deus, dom Paulo sabia que só há Deus onde o homem é íntegro.

Destemido na ação pública, não teve medo de enfrentar o general Médici, o mais violento dos mandatários da ditadura. Afirmou a realidade da tortura, olho no olho, sem temer a reação que viria de forma destemperada. Ele tinha a verdade ao seu lado, o general apenas a força discricionária. Falou sempre duro com os opressores. Mas soube lavar a mansidão onde era necessária: no convívio com os pobres, nos cárceres onde sofriam os adversários do regime, nos espaços onde se gestava a recomposição da liberdade. Abriu seu templo sempre que necessário. Portou a palavra libertária em vários fóruns, usando para isso de seu prestígio pessoal.

Erudito, foi autor de uma obra clássica ainda hoje referência nos estudos teológicos, “A técnica do livro segundo são Jerônimo”. Recebeu dos poderosos o desprezo, o temor por sua estatura moral e a pequenez rancorosa da inveja. Teve sua arquidiocese dividida pelo Vaticano, para que seu poder fosse diminuído. Sua vida foi manchada pela tentativa de infâmias de toda ordem. Ganhou dos oprimidos o amor. A história terá a eternidade para lhe fazer justiça. Seus contemporâneos, muitos sem merecimento, terão a graça da contemporaneidade de seu exemplo.

No Brasil de hoje, essa dupla inscrição do amor que emana de dom Paulo Evaristo Arns se mostra imprescindível. É preciso lutar com ira santa contra as violências que se impõem por meio de instituições apodrecidas; resistir com bravura à retirada de direitos em nome de interesses torpes; enfrentar com as armas da resistência ativa a qualquer afronta à cidadania e à democracia. É o lado de falar duro com os algozes da liberdade.

Mas há também a convocação à solidariedade, ao caminhar conjunto, ao reforço das alianças em torno de valores inalienáveis. Um esforço que se evidencia na substância das ideias e dos projetos coletivos, mas também na ação diária frente ao resultado das injustiças que se desenham no horizonte. É preciso divisar o inimigo real, mas também saber reconhecer o aliado possível. É a vertente do diálogo e da tolerância com os parceiros de destino.

Não é um acaso que dom Paulo tenha criado a Comissão de Justiça e Paz, dispondo as palavras exatamente nessa ordem. Quase sempre, o amor do bom combate é condição primeira para a conquista da paz entre os homens. Quem ama, luta.

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