ESTADO DE EXCEÇÃO

Movimentos populares criticam denúncia de Sérgio Moro contra petroleiro do RJ

Organizações políticas e sindicatos também declaram apoio ao petroleiro acusado de crime contra a honra pelo juiz Moro

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Em seu blog, o coordenador do Sindipetro-RJ escreve sobre a operação Lava Jato, que ele considera como uma série de investigações seletivas / Divulgação FNP

O coordenador do Sindicato dos Petroleiros do Estado do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ), Emanuel Cancella, prestou depoimento ao Ministério Público Federal (MPF) na última quarta-feira (14), após denúncia movida pelo juiz Sérgio Moro. A acusação, que está sendo investigada pelo MPF, trata sobre possíveis práticas de crime contra a honra do servidor público federal que teriam sido emitidas por Cancella em seu blog pessoal.

Durante o depoimento de Cancella, um grupo de pessoas se reuniu em frente à Procuradoria da República no Rio de Janeiro, no centro da cidade, em um ato de solidariedade ao petroleiro. Ao Brasil de Fato, membros de organizações políticas e movimentos populares também manifestaram apoio ao coordenador do Sindipetro.

Para Joaquín Piñero, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a denúncia é mais uma tentativa de calar os movimentos sociais. "Não basta rasgar a constituição, entregar as riquezas e as empresas estatais como a Petrobras ao capital estrangeiro, manter um corja de corruptos no poder, agora atentam contra o companheiro petroleiro Emanuel Cancella que tem sido uma voz fundamental na denúncia contra as arbitrariedades cometidas contra o nosso país. É o Estado de Exceção!", afirma.

Já segundo Rodrigo Marcelino, da Consulta Popular, o golpe de estado instaurado no Brasil só pode avançar em seus objetivos antidemocráticos se silenciar e perseguir as entidades representativas da classe trabalhadora.

“Ficamos revoltados em saber da ação que um certo juiz da república do Paraná contra o dirigente petroleiro Emanuel Cancella. Ele é um companheiro de luta, parceiro dos movimentos populares e defensor da democracia, dos interesses e das riquezas nacionais. Perseguir e amordaçar um companheiro da qualidade de Cancella é parte do terrorismo e da ditadura judicial que os golpistas querem implantar no país. Não se trata apenas de calar Cancella: trata-se de amedrontar a todos e a todas nós”, argumenta.

O Levante Popular da Juventude também prestou solidariedade à Cancella. “Essas ameaças através de ações na justiça contra um sindicalista por conta de sua legítima luta, mostra a verdadeira face do golpe em curso no país e a centralidade de construir uma ampla unidade contra a crescente criminalização das lutas e da resistência popular contra esse programa de morte que vem sendo imposto aos trabalhadores e ao povo brasileiro”, afirmou a organização em nota.

Para José Carlos Madureira, diretor de políticas sociais da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Moro repete a postura dos governos militares. “Ele quer por mordaça nos sindicatos e nos movimentos populares. Não aceitaremos ameaças ou intimidações, seja de quem for. Práticas ditatoriais não nos calarão.Hoje é o Cancela. Amanhã pode ser qualquer um. Hoje precisamos de mais democracia e menos Moro”, acrescenta.

A direção Central Única dos Trabalhadores (CUT) também declarou apoio à Cancella, um dos fundadores da central sindical. “A CUT é solidária ao nosso companheiro e considera que essa ação visa perseguir e intimidar o sindicalismo combativo cutista na conjuntura de golpe e avanço da repressão e criminalização dos movimentos sociais”, afimou a organização em nota.

Petroleiro lançará livro

No endereço online, o coordenador do Sindipetro escreve sobre a operação Lava Jato, comandada por Moro, que ele considera como uma série de investigações seletivas. No início de 2017, o petroleiro lançará o livro “Outra face de Sérgio Moro”, em que traz uma coletânea de artigos publicados em seu blog. O livro está sendo custeado pelo próprio Cancella e tem apoio da jornalista Fátima Lacerda, que cedeu seu trabalho de forma gratuita. A renda arrecadada com as vendas será doada aos dois milhões de trabalhadores demitidos em função da operação Lava Jato.

De acordo com Cancella, tudo que diz respeito a Petrobras tem relação direta com a sua história como petroleiro, profissão que exerce há mais de 43 anos, por isso escreve para denunciar o que considera pertinente.

“Eu tinha certeza que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer para me ameaçar, me amedrontar e para eu parar de fazer críticas. Eles estão querendo me calar. Ao invés de se sentir incomodado, ele (Moro) deve aproveitar essa oportunidade para esclarecer tudo o que está obscuro nessa operação. Nós não abrimos mão do nosso direito de opinião. Vamos continuar contestando tudo o que está sendo feito. Eles não vão nos intimidar”, garante Cancella.

Em seu depoimento ao MPF, o petroleiro usou da prerrogativa de ficar calado. Segundo o advogado do Sindipetro-RJ, Aderson Bussinger, a denúncia vai retornar  à Curitiba, onde o MPF avaliará se é pertinente abrir um inquérito, uma ação judicial ou arquivar o caso. “Não há nenhum crime no que Cancella fez. É o direito de manifestação dele. Não vamos acrescentar nada a isso. Esse tipo de procedimento não deveria ter sido encaminhado, deveria ter sido arquivado. São milhares de blogs fazendo as mais diversas críticas e elogios à Moro. Agora ele vai sair procurando de blog em blog para fazer denúncias?”, questiona o advogado.

Edição: Vivian Virissimo