Literatura

Crônica: Saudade

O porteiro Jeová, Marcela e seu livro, o Velho Arlindo, os meninos, todos sorriram, sem se demorar

Recife

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Roberto Efrem Filho – ou Beto, como gosta – é do Recife e, vez ou outra, desajeita-se na palavra / Arquivo pessoal

Dona Salete assistiu ao verde-oliva dos tanques se impor na avenida sobre os meninos. Franziu discretamente a testa enquanto limpava as vidraças da sala de reuniões. Do décimo andar do prédio de escritórios, as cabecinhas amarradas nas camisas do uniforme escolar até pareciam ameaçar as pontas dos fuzis postas contra elas. Mais cedo, Dona Salete estranhara os caminhões do exército nas ruas da cidade. Mas a farda dos rapazes lembrou os filmes de guerra de que Antônio gostava, as tardes de sábado no Cinema Moderno, no Veneza ou no Arte Palácio, o dinheiro da semana guardado para o algodão-doce ou para o doce japonês. Antônio sempre ria do apito do japonês da bicicleta. Hoje, diante dos soldados, Dona Salete até sorriu, sem se demorar. Limpas as últimas janelas, ela guardou os panos, os baldes, o rodo da faxina e retirou o fardamento para, cuidadosa, entrar no vestido com detalhes de organdi azul. Aquele que Antônio preferia. Na saída do prédio, o porteiro Jeová entendeu o 16 de dezembro e, como todos os anos há 10 anos, elogiou garbosamente o vestido de Dona Salete. Ela agradeceu, tímida, e se apressou sobre o asfalto entre os faróis dos carros que, depois do protesto, voltaram a circular pelo centro. Não conseguiu, no entanto, chegar ao ponto de ônibus. Os soldados haviam abarrotado a calçada com os estudantes ajoelhados, cabisbaixos, acuados, assustados. De perto, bem de perto, as armas dos militares apontadas para os meninos pareceram, a Dona Salete, muito à vontade com o medo gravado nos olhos de quem passava. Não demorou, o Vasco da Gama estacionou no meio da avenida. A porta já vinha aberta e Dona Salete sequer precisou dar o sinal de parada. Entrou no ônibus como quem adentra um salão de dança e, como quem é chamada para um bolero, aceitou contente o convite de uma moça para se sentar no lugar que então ela ocupava. Dona Salete pensou que a moça devia se chamar Marcela. Sim, porque esse era o nome escrito no cabeçalho de uma folha que saltava de dentro do livro de poemas que Dona Salete se ofereceu para segurar. “Libertinagem”, dizia a capa. O veículo à velocidade, o vento trespassando a massa de passageiros, Dona Salete recordou os versinhos que Antônio recitava, ao seu ouvido, enquanto valsavam sagradamente nos bailes de sexta-feira. Mal se levantou do assento para puxar a corda da chegada, Dona Salete ouviu a canção. Àquela hora, como combinado, o Velho Arnaldo preenchia o seu bar, a rua, o Vasco com as músicas de Dolores Duran que Antônio punha à agulha, dia a dia, assim que Dona Salete entrava em casa. Desceu do ônibus, cumprimentou o Velho, subiu dois quarteirões e abriu a porta da sala. Dentro, no escuro, “A noite do meu bem” vinda do bar, Salete se deitou ao sofá, ergueu as anáguas e o organdi e se deixou tocar. Profundamente. “Antônio”, arfou. O porteiro Jeová, Marcela e seu livro, o Velho Arlindo, os meninos, todos sorriram, sem se demorar.