Violência Policial

Polícia invade com violência a Casa Fora do Eixo, sede da Mídia Ninja, em Macapá

Sem mandado de segurança, policiais fora do horário de serviço teriam apontado armas e agredido as pessoas no local

Brasil de Fato | São Paulo (SP),
Dezenas de motos de participantes do evento cultural foram derrubadas na frente do local / Mídia Ninja

A polícia invadiu a Casa Fora do Eixo Amapá, centro de cultura e sede da Mídia Ninja, em Macapá (AP), na noite deste domingo (8). Segundo testemunhas, policiais fora do horário de serviço e soldados fardados entraram sem mandado de segurança, apontaram armas e agrediram com socos e chutes as pessoas que estavam no local.

“Tudo começou com três policiais à paisana, vizinhos da Casa, que estavam visivelmente embriagados. Eles começaram a derrubar as motos estacionadas na frente do evento. Depois que entraram na casa, o mais alterado deles sacou uma arma e ficou ameaçando as pessoas. Em seguida, chegaram viaturas com mais policiais que, no lugar de amenizar a situação, deram guarda para os outros policiais sem farda”, conta Otto Ramos, articulador do Fora do Eixo e produtor cultural.

Segundo ele, naquele momento estava acontecendo uma atividade do projeto "Domingo na Casa". Por volta das 22h30, a polícia chegou e alegou ter sido acionada para conter “perturbação do sossego público”, e a casa passou por uma revista minuciosa, sem que nada fosse encontrado.

“Não houve nenhum tipo de diálogo para diminuir o barulho da festa. Pelo contrário, eles entraram na Casa sem mandado e depois começaram uma revista para achar um motivo que justificasse a ação deles, mas não encontraram nada. Eles agiram com muita violência e agrediram muita gente com tapas no rosto, empurrões e chutes. Além de jogar no chão, sem nenhum cuidado, todos os nossos equipamentos”, lembra Ramos.

Além dele, mais duas pessoas foram detidas e conduzidas ao Centro Integrado de Operações e Segurança Pública (CIOSP), onde teriam ficado seminus, por mais de uma hora, até terem os depoimentos colhidos pelo delegado.

De acordo com o produtor, o delegado que estava de plantão marcou uma audiência para o dia 10 de fevereiro para ouvir as testemunhas e saber o resultado dos exames do corpo de delito. Dois advogados e movimentos sociais acompanham o caso.

Repercussão

“A onda conservadora que assola o Brasil e o mundo autoriza a violência e normaliza casos como esses, em que a Polícia se sente no direito de invadir um espaço de resistência e atacar pessoas sem se preocupar com as consequências. “Continuaremos na luta contra o autoritarismo, o abuso de poder e a força das armas. O Fora do Eixo e a Mídia Ninja reforçam seus valores pacíficos, a importância das ações culturais e engrossa o coro pela desmilitarização da polícia brasileira, uma das que mais mata e morre no mundo. Não vão nos intimidar”, diz o texto da Mídia Ninja.

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) comentou o episódio em sua página de Facebook: “É um absurdo que a sede da Mídia Ninja no Amapá tenha sido invadida e que parte de seus membros tenha sido agredida e até detida naquele estado! Quem deve autorizar busca e apreensão, quando for a necessidade, e certamente não é o caso do evento cultural em questão, é o Judiciário. É inaceitável que o órgão do estado que deveria zelar pelo cumprimento da lei se comporte dessa maneira. Cabe ao governador Waldez Góes tomar as medidas para apurar as responsabilidades nesse incidente. Estou solidário aos ninjas e ao excelente trabalho que essa mídia alternativa e crítica oferece ao país.”

A página oficial de Facebook da Rede Sustentabilidade do Amapá também publicou um texto em apoio à Mídia Ninja: “Nosso mais duro repúdio ao flagrante abuso praticado por alguns Policiais Militares do Amapá contra os coletivos Casa Fora do Eixo Amapá e Mídia Ninja na noite do último domingo, 08 de janeiro. Na ocasião, um policial à paisana aparentemente alcoolizado e escoltado por outros colegas danificou equipamentos, veículos e agrediu pessoas gratuitamente. Abusos como esses não podem ser tolerados em um estado democrático de direito e por isso os responsáveis devem ser exemplarmente punidos. Chega de intolerância!”

O Brasil de Fato tentou entrar em contato com a Secretaria de Segurança do Estado do Amapá pelos telefones fixos divulgados no site, pelo celular publicado na página de Facebook da entidade e pelo chat da mesma rede social, mas não teve resposta em nenhum dos canais de comunicação até o fechamento desta matéria. 

Edição: Camila Rodrigues da Silva