Coluna

O cineasta e o sociólogo

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“Eu, Daniel Blake” é um símbolo dos estertores da seguridade inglesa, que já foi modelo para o mundo
“Eu, Daniel Blake” é um símbolo dos estertores da seguridade inglesa, que já foi modelo para o mundo - Divulgação
Inferno inglês anuncia a tragédia brasileira

Compreender o mundo está cada dia mais difícil. Há muitas razões que explicam essa situação, desde a complexidade das relações sociais, políticas e econômicas, até a crise das formas de saber e expressão. Tudo que era certeza tem se desmanchado no ar contaminado da pós-verdade. Por isso é preciso, a todo momento, ter a cabeça a e sensibilidade abertas para as boas tentativas de entender nosso tempo e ajudar a organizar nossa relação com o mundo.

O filme Eu, Daniel Blake, do diretor inglês Ken Loach, em cartaz no Brasil, é uma dessas chaves iluminadas. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, a produção, pelo caminho da arte, nos revela o cenário da desmontagem do estado de bem-estar social inglês, algumas décadas depois de Margareth Thatcher. Não é um filme didático, preocupado em retroceder à origem do esvaziamento humano representado pelo Estado mínimo. Ken Loach põe em cena a vida real. Não se pode pedir mais da arte engajada.

O diretor é considerado um cineasta de esquerda. Aos 80 anos, ser de esquerda representa a herança de uma tradição humanista, que tem coragem em denunciar o sistema como máquina que faz operar a luta de classes em favor do capital e contra o homem. Eu, Daniel Blake tem a saudável inspiração desses dois elementos: é uma história de gente como a gente, mas que não se deixa capturar apenas pelas explicações teóricas. É humano na origem e no destino. É um filme que acusa o que vem sendo feito para diminuir a humanidade do homem e arregimenta as forças da indignação moral.

A história de um carpinteiro com quase 60 anos, viúvo sem filhos, que é afastado do trabalho por causa de um infarto, é um símbolo dos estertores da seguridade inglesa, que já foi modelo para o mundo. Sem os sindicatos – que sequer são citados no filme, como se fosse essa a realidade mais próxima dos espectadores –, resta ao trabalhador enfrentar sozinho a batalha da reivindicação dos próprios direitos. Blake é preso num labirinto burocrático que serve apenas para dificultar o acesso aos benefícios sociais a ele devidos e pelos quais pagou por toda a vida. A estratégia do sistema é a do uso da tecnologia que despersonaliza e, ao final do trajeto, humilha o cidadão.

Em seu caminho, o trabalhador se encontra com uma mulher, Katie, mãe de dois filhos, que atravessa o mesmo deserto de direitos e a mesma tática de transformá-la numa pessoa descartável. Retiram dela todas a identidades possíveis, do colégio dos filhos à cidade onde morava sua família. Ela é deslocada para Newcastle por que não há moradia social disponível em Londres (mesmo com dezenas de milhares de imóveis vazios a serviço da especulação). Katie perde uma audiência numa repartição porque se atrasa por não conhecer a cidade. Como sempre, na impessoalidade do sistema, a vítima é a culpada.

Os dois se aliam de forma quase inviável, numa aliança de derrotados, que faz emergir uma das poucas atitudes humanas naquele universo: a solidariedade na dor e na carência. Os laços são de afeto, mas não sentimentais ou pretensamente familiares. Uma espécie de amizade pública, que pode ser outra definição da política possível para nossa época. Há um fio de sentido que percorre a história nos momentos mais difíceis, gerando um sentimento de invalidez moral. A revolta talvez seja a única possibilidade de manter a dignidade num mundo indigno.

Ken Loach sabe contar histórias. Em alguns momentos deixa escapar pequenos lampejos que dizem muito sobre seu universo. A amizade entre “perdedores”, a crítica bem-humorada ao consumismo, a sinceridade de algumas manifestações de empatia, a recusa em aceitar a invasão do espaço pessoal pela anomia de um cenário corrompido pela pobreza, a valorização do trabalho como expressão do mais que humano em nós. Não se pode deixar o lixo sem recolher, nem os cães fazerem sujeira na porta de sua casa. O carpinteiro que ajuda a levantar prédios é capaz de fazer um móbile de borboletas. Mesmo com o coração frágil no peito, há força para dizer não.

Sem forçar a barra, é possível aproximar a história de Daniel Blake e da realidade inglesa, que é de retrocesso, com a anunciada tragédia brasileira que se seguirá à reforma trabalhista e da previdência. No nosso caso, a desumanidade é ainda maior. Já se começa a retirar direitos que sequer chegaram a constituir de fato uma sociedade mais igualitária ao longo dos anos. Estamos na iminência de perder o que não chegamos de fato a ter, uma sociedade de bem-estar social. Mesmo o pior dos infernos ingleses parece pálido frente à brutalidade de nossos projetos regressivos.

Blake percebe que a perda de direitos trabalhistas tira dele a identidade como operário. O passo seguinte, que ele chega a intuir, é a perda dos direitos sociais e, por fim, dos direitos humanos. Ele deixou de ser trabalhador e cidadão. Seu temor é que chegue a ser comparado com um cão. Com sua lógica realista, não chega a ser de fato um medo, mas uma antevisão. Eu, Daniel Blake tem um título que reafirma a identidade a partir do nome próprio. É algo que se percebe em vários filmes de Ken Loach (Uma canção para Clara, Jimmy’s Hall, A procura de Eric, Meu nome é Joe, Cathy come home). Chega um momento em que a defesa da consciência é a tarefa de uma vida. Transformar o eu em nós passa a ser a única saída possível.

Líquido e incerto

Há poucos dias o mundo perdeu Zygmunt Bauman. O sociólogo polonês morreu aos 91 anos, em Leeds, na Inglaterra, onde passou boa parte de sua vida e escreveu seus livros. Assim como Ken Loach, o pensador foi um homem de olhos abertos para as questões mais candentes de seu tempo. Sua obra, que passa dos 60 títulos, foi sempre um convite a entender a sociedade contemporânea e seus desafios. Assim como o cineasta, Bauman foi um humanista radical.

Como poucos pensadores de nossa época, ele foi capaz da dura tarefa de enfrentar os maiores problemas sociais, políticos e até mesmo psicológicos (uma área em que sempre surpreende e encanta), com uma escrita que sem abrir mão da profundidade, não afastava a comunicação com os leitores. Escreveu muito, mas não demais. Alguns de seus livros se tornaram best-sellers, sem concessão à superficialidade. Zygmunt Bauman talvez tenha criado uma das mais importantes linhas de interpretação da ciência social nos últimos 50 anos, a ideia de liquidez.

Para ele, o mundo da pós-modernidade e da globalização abriu mão das referências éticas, históricas e políticas, que deram solidez ao projeto da modernidade, em favor de uma liquidez sem substância. A sociedade líquida deixou de lado desafios como a igualdade, a solidariedade e o respeito à diferença em favor de atitudes fugazes no campo da organização social, do mundo do trabalho e até das relações afetivas.

Não é só a política e a economia que padecem da liquidez da perda de referências humanistas, o próprio amor escorre entre projetos de experiências que se esvaem no tempo e contaminam o afeto. Não se valoriza o amor pela estabilidade de suas conquistas ou pela riqueza das possibilidades que inaugura. No contexto escorregadio das relações afetivas contemporâneas, a diversidade se assemelha a uma metástase das mesmas artimanhas da busca em consumir o outro. O outro é sempre o mesmo, o que parece anular o medo da solidão. O amor líquido é um território de sensações, uma narrativa da fugacidade, uma coisificação do desejo.

Zygmunt Bauman foi acusado de pessimista. Ele não acreditava no poder distributivo do capitalismo parasitário e não era admirador dos contatos superficiais e individualistas das redes. Divisava um cenário de cegueira moral ao seu redor e tinha consciência que o mundo era, cada vez mais, composto de vidas desperdiçadas. Em sua longa vida, produtiva até os últimos dias, apostou na mais líquida das vítimas da pós-modernidade: a memória. Sua obra é uma defesa de valores sedimentados no tempo e que valem a pena ser preservados, como o humanismo, a democracia e a liberdade.

Um cineasta e um sociólogo, pelos caminhos da estética e da ética, da sensibilidade e da razão, das imagens e das palavras, são parceiros na difícil jornada de nos tornarmos contemporâneos de nós mesmos. Tudo que não é apenas arte em Ken Loach nos obriga a refletir melhor; o que vai além da ciência em Zygmunt Bauman nos torna mais sensíveis para os desafios do nosso tempo. Um saber que emociona. Uma arte que faz pensar.

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