Habitação

Ocupação do MTST na zona leste de SP recebe famílias expulsas do Jardim Colonial

Cenas de violência protagonizadas pela Tropa de Choque na reintegração de posse ainda assustam antigos moradores

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Famílias violentamente expulsas da Ocupação Colonial tentam recomeçar na zona leste de São Paulo / José Eduardo Bernardes/ Brasil de Fato

A Ocupação Colonial, no bairro de São Mateus, zona leste da capital paulista, resistiu durante um ano e sete meses às investidas do capital imobiliário, até que no último dia 17 de janeiro, para cumprir uma ordem de reintegração de posse, policiais militares do Batalhão de Choque, invadiram o terreno, atearam fogo nas casas, agrediram homens, mulheres, inclusive grávidas e protagonizaram cenas de extrema violência, comparadas por muitos ao massacre de Pinheirinho, quando milhares de famílias foram despejadas de um terreno em São José dos Campos, em janeiro de 2012.

Cerca de 700 famílias viviam no terreno em São Mateus. Segundo os moradores, grande parte das 3.000 pessoas desabrigadas após a ação policial, não tem para onde ir. O MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) não tinha ligações com a ocupação, mas foi chamado pelos líderes habitacionais do Jardim Colonial para tentar intermediar com a polícia e com o poder público uma alternativa para a reintegração de posse. Durante a ação policial, o coordenador nacional do MTST, Guilherme Boulos, foi preso.

Horas depois do clima de terror que se instalou no bairro de São Mateus, após tantas bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha, jatos de água e intimidação policial, quatro famílias foram abrigadas em um terreno ocupado pelo MTST, no Jardim Conquista, cerca de cinco quilômetros de distância de seu antigo terreno, no Jardim Colonial.

Marcas da violência

No dia seguinte à ação policial, Erick de Assis, 35 e Aline da Silva, 27, ainda ocupavam um sofá do barracão central, onde são realizadas as reuniões do MTST, na Ocupação Anastácia. Erick ainda carregava as marcas da violência policial em seu corpo. Ele recebeu um tiro de bala de borracha, que veio na direção de sua cabeça. Ao desviar, ele teve um pedaço de sua orelha arrancado.

Ainda assustado, Assis lembra que a polícia chegou disposta a “bater” nos moradores. “Não chegou para conversar, tinha mulheres grávidas e eles dando tiro de bala de borracha em mulheres grávidas, gás de pimenta em todo mundo, abrindo os barracos, chutando, tirando o pessoal na pancadaria. Isso não é justo de ser feito com o ser humano”, diz. 

“O descaso no Brasil é geral. Quem tem dinheiro vale, quem não tem é uma peça descartável para eles”, explica Assis. Ele e sua companheira Aline são catadores de materiais recicláveis nas ruas de São Paulo. Chegaram a alugar um imóvel, mas a renda irregular fez com o que o proprietário rompesse o contrato.

“A gente fazia uns serviços aqui e ali e a gente sempre ia ganhando nossa renda. Se não tinha um serviço aqui, a gente fazia uma reciclagem, a gente nunca meteu a mão no que é de alguém. A gente sempre lutou para ter o que é nosso. O dono falou: ‘se você não tem condições de pagar mais, então desocupa minha casa porque eu vou colocar quem tenha’. Infelizmente fomos despejados também e agora nos encontramos na mesma situação”, afirma Assis.

O reciclador lembra que o antigo terreno no Jardim Colonial era um local temido na região. Segundo ele, quando chegaram no terreno, ”estava tendo desova de corpos, de carros roubados, o pessoal usavam drogas ali dentro, assaltavam a população”. 

Assis lembra que após a ocupação do terreno, há anos sem qualquer utilidade pública, “a população mesmo vinha doar coisas para a gente, porque a gente tornou a terra produtiva. Nós conquistamos a confiança deles [população] e eles passaram a ajudar a gente. Como queriam até trazer emprego para dentro. Tinha ONG, tinha creche, tinha a escolinha das crianças para elas ficarem, para aprenderem a ler e a escrever. Coisas que eles [Polícia Militar] não deram valor, chegaram e derrubaram tudo”, conta.

Ilegalidades

O incômodo pelas cenas vividas também atormenta Kelly da Silva, 33 anos. Mãe de dois filhos e esperando o terceiro há três meses, a antiga moradora da Ocupação Colonial ainda tenta entender o que aconteceu no dia 17 de janeiro. “Como o juiz assina uma coisa dessa, colocando 700 famílias que não tinham nem para onde ir, não tinham nem sido cadastradas no auxílio aluguel e o juiz assinou para ir pra rua?”.

“A gente não teve recursos e benefícios para sair de lá, a gente não teve o direito de tirar as nossas coisas que foram conquistadas. Eu acho que os policiais foram muito truculentos e agressivos”, acrescenta Kelly. Ainda procurando materiais para construir a nova casa, Kelly aponta que a reintegração de posse não teve a “presença de um assistente social, do Conselho Tutelar, não teve direitos humanos. Ninguém da prefeitura apareceu lá”, observa. 

Kelly explica que não quer voltar mais para o terreno, mesmo que, horas depois, já instalada na Ocupação Anastácia, tenha recebido ligações de pessoas que queriam retomar a área no Jardim Colonial. “Depois de tudo que eu passei, por tudo que eu perdi, eu não quero mais voltar lá”.

Seu companheiro Brian da Silva conta ter sido ameaçado por uma das pessoas que dirigiam as escavadeiras, responsáveis por colocar abaixo todas as casas que abrigavam as 700 famílias na zona leste de São Paulo. “Estava difícil para recolher as coisas. Aí eles falaram que iriam passar por cima e esse só seria mais um barraco que eles iriam destruir”, conta.

As ilegalidades cometidas durante a ação policial deixaram marcas no corpo da também catadora de materiais recicláveis, Ana Maria de Almeida, 33 anos. Ao lado do companheiro Rafael Severino, 25, de quem espera um filho, Ana se emociona ao lembrar da reintegração de posse e da violência policial. “Eles jogaram jato de água em mim e eu fui para o chão. Eu consegui sair e eles jogaram duas bombas. Eu até pensei que fosse fogo no barraco de um dos meninos. Quando eu me afastei, a fumaça me pegou e eu desmaiei”. 

Ana já tem uma filha de outro relacionamento, portadora de Síndrome de Down e epilepsia. A menina completou 13 anos no dia em que Ana era acuada pela polícia no Jardim Colonial. Lembrar da distância da filha e das dificuldades que tem passado, lhe mareja os olhos. 

A recicladora explica que havia se animado com a esperança da casa própria, ao chegar no Jardim Colonial. “Eu morava com uma amiga minha e quando soube da Ocupação fui direto para lá. Antes disso, minha mãe me expulsou de casa, porque minha irmã tinha quatro filhos e não tinha para mim e para minha filha. Três dias depois eu já estava trabalhando na cozinha”, conta.

Vida nova

A Ocupação Anastácia tem cerca de 1.200 famílias. O terreno, que está há mais de 30 anos sem qualquer utilização da proprietária, a construtora Savoy, está ocupado há dois meses pelo MTST. A área foi declarada, segundo o MTST, como Zeis (Zona Especiais de Interesse de Social) e, por isso, duas ordens de reintegração de posse do terreno foram barradas na justiça de São Paulo. 

No próximo dia 27 de janeiro, representantes do MTST se reúnem com a construtora para uma audiência. A ideia, segundo coordenadores da ocupação, é demonstrar o interesse do Movimento na área, já destinada para a habitação social. Contatada pela reportagem do Brasil de Fato, a construtora Savoy não respondeu até o fechamento desta matéria. O assessor da Secretaria Municipal de Habitação disse estar se inteirando dos processos da prefeitura e também não confirmou se a municipalidade irá auxiliar os moradores que pleiteiam a área.  

"Com os que estão entrando, a gente vai fazer uma recontagem", afirma Rosilene Olinda Maurício, 35 anos. Há dois anos no MTST, ela é uma das coordenadoras da Ocupação Anastácia. Rose, como é conhecida no Movimento, era uma das acampadas da Ocupação Dandara, quando decidiu levantar a mão para se voluntariar à coordenação do MTST. 

A recepção dos novos companheiros, garante Rose, foi calorosa. “Estamos ajudando para ver a estrutura de um barraco para eles. Alguns não têm onde morar mesmo, tem muita dificuldade. Para esses dias nós estamos cedendo o nosso barracão de reunião de coordenação para eles dormirem, para se organizarem”, diz a militante do MTST.

Rose, que também estava na reintegração de posse no Jardim Colonial, diz ter lutado “contra o [Batalhão de] Choque junto com eles [os moradores]”. “Nós vimos o desespero deles, acompanhamos a situação deles, participamos de tudo, então para nós é um prazer recebe-los aqui”, diz. 

“Agora vamos ensinar para eles o que é uma ocupação, como a gente trabalha aqui, que é diferente das outras. Aqui a gente não cobra, a gente trabalha com luta e participação. E ensinar para eles como fazemos a nossa luta”, explica Rose. 

Para as famílias que chegaram no terreno do Jardim Conquista, ainda assustadas com a ação policial, essa é a esperança de um recomeço. A recicladora Ana conta estar feliz de ter sido recebida na Ocupação Anastácia, mas se diz apreensiva com o futuro. “Eu não sei como vai ser daqui para frente. Em outra ocupação eu não vou não. Eu vou ficar aqui. Até eu ter minha casinha, eu não saio daqui não”, afirma.

“A recepção aqui foi ótima, eles foram muito bons com a gente”, descreve Kelly. O problema ainda é livrar-se dos traumas vividos, “o psicológico ainda está muito abalado”, coloca.

O também reciclador Erick Assis quer retribuir a acolhida que teve na Ocupação Anastácia. “Espero encontrar um servicinho que eu possa fazer com dignidade e poder ajudar os amigos que me ajudaram nesse momento e cuidar da minha esposa, claro”, sorri. 

Erick explica que a nova chance de ter a casa própria será um recomeço. A expectativa é terminar os estudos. “Eu quero me formar, eu quero ter perspectiva de vida”.