Antimanicomial

Artigo: Por uma sociedade sem manicômios, porque lugar de doido é onde ele quiser

Pernambuco mantém uma rede de serviços diversificada, experiências de referência, porém, os dispositivos são sucateados

Recife

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" O manicômio teve, e tem, um papel fundamental na perversa cartilha capitalista" / Saúde Mental RJ

Por anos, o hospital psiquiátrico com o aval do Estado brasileiro, da sociedade, da categoria médica e outras profissões da saúde, encarcerou, aplicou eletrochoques sem indicação médica, dopou. Por anos, o Estado brasileiro chamou a isso de cuidado, e tirou de muitas pessoas o direito à vida com base em um diagnóstico. O manicômio teve, e tem, um papel fundamental na perversa cartilha capitalista, onde o sistema exclui aqueles que não são força de trabalho. Ele tira de circulação, tortura e mata aqueles que questionam o sistema e os pilares que fundamentam essa estrutura, como o machismo, o racismo e a homofobia.

Nos anos 1970/1980 no Brasil, o Movimento de Trabalhadores em Saúde Mental, com o objetivo de chamar a atenção aos maus tratos corriqueiros nessas instituições, deu início ao Movimento de Luta Antimanicomial e ousou propor o lema Por Uma Sociedade Sem Manicômios. O movimento propunha uma mudança técnica-política-cultural, que re-inventasse novas formas de conviver com a loucura. Desde então, muros foram derrubados e hospitais foram fechados. Amparados na Lei 10.216/2001, que orienta o fechamento dos leitos e incentiva a abertura de serviços substitutivos, hoje a sociedade tece uma rede, que grita que loucura se cuida com liberdade, respeito, cidadania. 

Em 2010, fechamos aquele que já foi o maior hospital psiquiátrico do País, o Hospital José Alberto Maia, em Camaragibe. Uma vitória para a nossa luta. Hoje, Pernambuco mantém uma rede de serviços diversificada, conta com experiências de referência, porém, os dispositivos são sucateados, muitos são terceirizados, poucos são 24h. Com o horizonte de 20 anos de congelamento do investimento em saúde, esperamos o pior, mas não sem luta, como fizemos no passado e fazemos hoje.

Caminhamos muito e quando olhamos pra trás percebemos que muitas vidas se perderam no caminho, outras foram ressignificadas e hoje ocupam a cidade e espaços de controle social. Seguimos carregando a bandeira Por Uma Sociedade Sem Manicômios, mas também erguemos a bandeira da Reforma Agrária, da luta LGBTT, das mulheres, porque só numa sociedade menos desigual a loucura e o uso de drogas não são desculpas para encarceramento em massa. Porque massa é ser diverso e cuidar do outro em liberdade e sem estigmas que nos separem.