Coluna

A História que queremos e vamos construir

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30 de Janeiro de 2017 às 18:14
Auschwitz foi o maior e mais terrível campo de extermínio dos nazistas / Reprodução
A sociedade tem setores extremamente doentes

Nesta semana fiquei chocada e estarrecida com uma foto publicada nas mídias sociais de duas senhoras vestindo verde e amarelo, com cartazes de protestos contra a família Lula da Silva, na porta do hospital onde D. Marisa Letícia, ex-primeira dama de nosso país, se recupera de uma cirurgia de embolização de um aneurisma cerebral.

Essas senhoras jogavam na cara de nossa sociedade o desprezo pelos sentimentos e dor de uma família. Recentemente passamos por um problema parecido em minha família, quando uma de minhas irmãs foi diagnosticada com um aneurisma cerebral e foi submetida a uma cirurgia idêntica a que D. Marisa foi submetida. Foram os piores dias de nossas vidas, dias de angústia de medo, de incertezas quanto ao futuro. Estivemos, de forma visceral, expostos em toda nossa fragilidade, por isso meu estado de torpor ao ver tanto desrespeito e ódio, mascarados como simples divergências políticas e um ato de protesto. Na verdade, o simbolismo desse ato traduz a incapacidade das pessoas em perceber o outro em sua humanidade, em perceber que o outro, por mais diferente que se apresente, é de forma contraditória extremamente semelhante.

Memória do Holocausto

Percorremos nesse início de século caminhos que, sinceramente, me levam a ter medo, muito medo do que podemos esperar de nossa “civilizada” sociedade no futuro. Aí me lembro de que nesta semana o mundo se curva à lembrança da memória pelas vítimas do Holocausto. Há 72 anos, na tarde de 27 de janeiro, as tropas soviéticas libertaram Auschwitz, o maior e mais terrível campo de extermínio dos nazistas. Local onde foram exterminados pelo menos um milhão de pessoas em câmaras de gás e crematórios. Essa foi uma clara demonstração do que o ódio, a prepotência e a pretensa ideia de superioridade humana são capazes de fazer, quando toda uma sociedade, ou parte significativa desta, encontra-se doente. Hitler é o grande vilão da teoria nazista, mas Hitler não era sozinho. Para que suas ideias doentias surtissem o efeito que buscava, precisava de apoio, de pessoas que como ele se alimentavam de ódio. Caso contrário, não teria conseguido ir tão longe em suas ideias de supremacia racial. E a sociedade alemã que naquele momento o apoiou era uma sociedade doente, que de fato acreditava em sua pretensa superioridade humana. Ele criou exércitos, armou suas tropas e levou o mundo a uma guerra, e diga-se de passagem, uma longa guerra.

Para coibir futuros Hitler e seus poderes bélicos no mundo, criou-se a ONU - Organização das Nações Unidas - para que a história não se repetisse na proporção que foi a segunda guerra mundial. Mas isso não significa que o mundo esteja livre de mentes doentias como a de Adolfo Hitler. Ao contrário, temos visto cada vez mais o crescimento de grupos e movimentos racistas, intolerantes e homofóbicos. E isso tem se refletido na política mundial, com eleição de governantes conservadores, prepotentes e racistas. A mais recente destas eleições foi a de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos. Trump se apresentou ao longo de toda campanha como um homem racista, homofóbico, machista e xenófobo. E nada disso o impediu de alçar um dos mais importantes cargos políticos do mundo. Sinal de que tempos difíceis estão à vista.

Voltemos ao nosso país e as imagens deprimentes da semana, citadas no início. Nosso país não está distante desta realidade, temos assistido, visto, ouvido e sentido na pele esta triste onda de conservadorismo, de preconceitos e ódio.

Nos últimos anos, o Brasil avançou na implantação de políticas públicas inclusivas, vimos surgir novos padrões sociais, econômicos e políticos que trariam ao país ares novos de transformações sociais importantes para assegurar a equidade e a igualdade. Mas isso incomodou e muito as nossas elites acostumadas a privilégios históricos, ainda que usurpados da maioria da população. E foi exatamente essa elite, que se encontrava ainda atordoada com as transformações sociais, que saiu do armário e protagonizou uma onda de ódio, contra todas e todos os que de alguma forma passaram a fazer parte destas novas possibilidades sociais. Uma elite que quer manter seus privilégios e se sentiu ameaçada pelo filho da empregada que passou a frequentar a mesma escola que seu filho, pela empregada que passou a ter direitos trabalhistas, pelo sem-terra que adquiriu o direito à terra, pelo sem-teto que passou a ter um teto, pelo brasileiro que pôde dividir com estes o banco do avião, pelo trabalhador que pôde fazer um puxadinho, pelo favelado que pôde ter uma TV de plasma.

As elites são assim mesmo, querem nos ver como sombra de sua riqueza e poder. E assim estes perderam o medo de se apresentarem como são: doentes. Doeu muito nessa elite perceber a perda de privilégios históricos.

E assim caminha nosso país, com uma população dividida entre os que pensam que direitos são privilégios históricos e outra parte lutando pra manter o pouco conquistado. Os que querem manter seus privilégios não mais se escondem na máscara histórica da hipocrisia social e racial, já não têm mais medo de se apresentarem como sendo o que sempre foram: moradores da casa grande, que surtam quando a senzala aprende a ler.

E a foto das senhoras, “moradoras da Casa Grande” protestando, ou melhor dizendo, desrespeitando um momento delicado de uma família, prova exatamente o que falei ao longo deste texto: a sociedade tem setores extremamente doentes, como teve em vários momentos da história da humanidade. Tragédias como as vividas coletivamente deixaram a lição de que por mais que tenhamos um verniz de civilidade, ainda precisamos avançar muito para que escravidões, holocaustos, preconceitos, machismo e tantas outras formas de opressão, sejam de fato apenas fatos de uma história que não podemos, não queremos e não vamos permitir que se repitam e coexistam na atualidade. Por isso, temos memória. Não esqueceremos jamais!!! E temos sobrenome: Luta e Resistência!

*Jornalista, Empreendedora Social da Rede Ashoka e Coordenadora Nacional do CENARAB.