Documentário

Professor da UFRJ transforma teses acadêmicas em documentários

Os filmes discutem, entre outros temas, a exploração do trabalho e o uso de agrotóxicos na alimentação

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Documentário “Linha de corte” conta sobre a dinâmica de precarização e exploração dos cortadores de cana no interior de São Paulo / Divulgação

Em um canavial no interior de São Paulo, trabalhadores cortam mais de 20 toneladas de cana por dia, sem pausa para descanso e alimentação insuficiente. Essa narrativa é real e acontece diariamente nas usinas canavieiras paulistas. O documentário “Linha de corte”, produzido pelo professor Beto Novaes, conta a dinâmica de precarização e exploração dos cortadores de cana, sob a perspectiva dos trabalhadores e das pesquisas desenvolvidas na universidade em torno da temática.

O filme foi feito a partir de um alerta dos sindicatos e movimentos de trabalhadores sobre a necessidade de mostrar as péssimas condições de trabalho nos canaviais. A partir do tema, Beto Novaes procurou pesquisas na universidade que o discutisse. Uma delas foi produzida pelo professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Rodolfo Vilela.

A pesquisa mensura as atividades físicas que os trabalhadores têm que fazer ao cortar a cana para mostrar o desgaste físico causado pelo trabalho. Através do monitoramento das flexões de coluna, rotações e golpes dados nos pés de cana, há uma prova científica do prejuízo que o trabalho causa ao corpo humano.   

Uma das principais críticas abordadas no documentário diz respeito ao pagamento por produtividade. Ou seja: quanto mais o trabalhador corta cana, mais dinheiro ele recebe. Como a atividade nas lavouras é muito desgastante, esse sistema de remuneração é um estímulo à degradação ainda maior da saúde dos trabalhadores.

A perversidade dessa lógica reside no fato de que a responsabilidade pelo ritmo de trabalho é transferida ao cortador. Em busca de um salário mais alto, eles fazem um esforço tão grande que pode gerar paradas cardíacas e até levá-los à morte.

Dessa forma, o filme mostra que as denúncias ao Ministério Público e a fiscalização da vigilância sanitária trouxeram pequenos benefícios aos dormitórios e transporte dos trabalhadores nos últimos anos, mas isso não quer dizer que houve uma melhoria, de fato, para o cortador de cana.

Educação através das imagens

O documentário “Linha de corte” faz parte do projeto “Educação através das imagens” desenvolvido por Beto há mais de 20 anos dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O professor, que é vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ, começou a trabalhar com documentários ao perceber que grande parte das pesquisas acadêmicas ficavam fechadas nos muros universidade e não eram apresentadas à sociedade.

“Queria arrumar uma forma de colocar a produção acadêmica nas escolas e na sociedade. Então surgiu a ideia de usar a imagem, que é uma linguagem universal e didática. A partir daí comecei a selecionar temáticas, que surgiam das demandas dos movimentos sociais que tenho contato, e procurar pesquisas na universidade que tratavam sobre os assuntos”, explica Beto.

A partir dessa seleção, Beto produz o argumento e o roteiro dos documentários. Com uma pequena equipe de filmagem e edição, ele consegue finalizar os filmes com apoio da universidade e, algumas vezes, de outras instituições, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).  Todos os filmes estão disponíveis online no canal do YouTube “Filmografia Beto Novaes” e também são distribuídos em DVD na Editora da UFRJ.

O projeto tem mais de 30 títulos finalizados. Os mais recentes tratam de assuntos diversos. Além do trabalho nos canaviais apresentado em “Linha de corte”, “Mulheres das águas” conta sobre o modo de vida das pescadoras nos manguezais do Nordeste do Brasil. O documentário denuncia que a sobrevivência de suas famílias estão ameaçados pela poluição de grandes indústrias e pelo turismo predatório, causadores de danos ao ecossistema.

Também voltado à temática dos canaviais, “Migrantes” narra as condições de trabalho e vida dos migrantes nordestinos nas plantações de cana das modernas usinas paulistas e os motivos que os levam a migrarem de suas terras para submeterem-se a um trabalho árduo, penoso e arriscado no corte da cana.

Outra tema recorrente nos trabalhos de Beto é o uso dos agrotóxicos na produção de alimentos. O filme “Nuvens de veneno” expõe as preocupações em torno das consequências do uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos para o meio ambiente e para os trabalhadores. O documentário “Sementes”, por sua vez, retrata trajetórias de vida de mulheres agricultoras que participam ativamente dos movimentos agroecológicos no Brasil.

Além dos novos títulos, o canal do YouTube também exibe documentários antigos. Um deles é “Expedito em busca de outros nortes”. Nele, é relembrada a história de Expedito Ribeiro Souza, que sai de sua cidade em busca de terra e trabalho. O filme, que ajuda a compreender o processo de ocupação da Amazônia brasileira na ditadura militar e os problemas de concentração de terra e violência no campo, recebeu o Prêmio Margarida de Prata, CNBB, em 2007.

“É um documentário com o objetivo de resgatar memória. Em todos os trabalhos nós temos um posicionamento político claro: queremos tratar sobre as questões a partir da ótica do trabalhador”, acrescenta Beto.

Além dos filmes, o projeto “Educação através das Imagens” desenvolve oficinas com alunos de graduação da UFRJ para divulgar o material produzido. A ideia é que os profissionais formados na universidade tenham acesso aos documentários e os utilizem nas escolas, entidades sindicais ou organizações não governamentais.

Os documentários podem ser acessado no link.

Edição: Vivian Virissimo