CRÔNICA

Um homem na madrugada

Para ler diante de fotografias amareladas; ou ao som de Al Green cantando “For the good times”.

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Roberto Efrem Filho – ou Beto, como gosta – é do Recife e, vez ou outra, desajeita-se na palavra / Arquivo pessoal

Um homem na madrugada escreve angústias antigas. “Sua avó sabia”. Algumas tardes atrás, sentada no sofá da sala, minha mãe me entregou essa frase. “Sua avó sabia que você era gay”. E sorriu contra o meu olhar de desaviso. Eu comentara que apenas muito recentemente havia compreendido o impacto de vovó em minha própria personalidade, mesmo nestes meus trejeitos com a dor, o carnaval e os pequenos comprimidos brancos para a hipertensão. “Sua avó sabia” foi o que, então, minha mãe me disse em resposta. “Você, minha filha, precisará de muita paciência para a relação entre seu filho e seu marido”. Duas, quase três décadas depois, minha mãe atualizava aquelas palavras na tarde e conferia a vovó uma força profética. Ela, afinal, sabia o que sequer minha mãe parecia, àquele instante prematuro, saber. E me amava, apesar do que prenunciava, talvez em sua razão. [Iran tem me dito, trelando com minhas manias, que eu conto histórias como se somasse 80 anos e um passado irrestrito. Deve ser vovó, meu amor, que fala quando minha garganta vacila à véspera da dúvida]. Na noite de sua morte, meus pais, meu irmão e eu visitamos vovó em casa. Ela sentia dores. Queixava-se de gases. Seu enfarte, em verdade, já começara. Ainda assim, conosco cantou “Carinhoso” algumas vezes. Alegrava-se ao choro. “E só assim então serei feliz, bem feliz”. Antes de deixarmos a casa, sem muita explicação, meu pai pediu a ela a cópia sobressalente das chaves dos portões. Ela, sem estranhar, consentiu com o pedido incomum. Na manhã seguinte, o telefone tocou cedo. A moça da limpeza gritara à janela da casa de meus avós, sem retorno. Ninguém a atendeu. Telefonou, assim, à nossa casa. Quando meu pai o encontrou, o corpo de vovó se achava no chão do seu quarto, encolhido como quem se dobra ao próprio sofrimento. Sozinho, meu pai a pôs sobre a cama, onde eu a veria. Da cadeira de balanço da sala de televisão, meu avô vertia as últimas lágrimas de um homem vindo de uma madrugada. Quando o coração de vovó doeu enfim, vovô soube, mas já não conseguia mais se levantar e, embora tenha vivido por mais alguns meses, penso que ele nunca se levantou. Atravessou a escuridão e a manhã, àquela cadeira, compreendendo a partida. “Sua avó sabia”. Nunca cogitei que ela não soubesse. Com sorte, é por isso que eu, como ela, prefiro as tardes, as ruas desta cidade e os retratos de angústias antigas.