Educação

Em março inicia segundo ano letivo de curso Pré-Vestibular Popular no Rio de Janeiro

Cursinho Popular Cerro Corá funciona na favela carioca, localizada abaixo do Cristo Redentor, no bairro Cosme Velho

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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No seminário de troca de experiências de pré-vestibulares populares ficou evidenciada a dificuldade de permanência dos alunos nos cursinhos / Divulgação

Desde o ano passado, o cursinho Pré-Vestibular Popular Cerro Corá funciona na favela carioca, localizada logo abaixo do Cristo Redentor, no bairro Cosme Velho. Com 30 vagas disponíveis a moradores das redondezas, o cursinho conta com professores voluntários para ensinar toda as disciplinas exigidas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e também trazer uma formação crítica aos estudantes. A iniciativa é fruto da parceria entre moradores e movimentos populares, como o Levante Popular da Juventude e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

De acordo com balanço feito pela coordenação do cursinho, as aulas atendem não só moradores do Cerro Corá, mas também da vizinhança. O perfil dos alunos é variado, desde aqueles que terminaram o ensino médio há pouco tempo, até os que estão há anos longe dos bancos da escola. O cursinho funciona em uma das salas da sede da Associação de Moradores. Neste ano, as aulas acontecerão de segunda à sexta, no turno da noite, a partir do dia 6 de março.

Como começou: visão crítica sobre o mundo

O cursinho teve início quando um grupo de moradores da favela organizaram o “Cerro-Corá: moradores em movimento”, para produzir atividades no local. A ideia era construir um museu para contar a história da comunidade e também uma biblioteca. Depois de muita conversa com movimentos populares e apoiadores, decidiram fazer um pré-vestibular.

Jeferson Dias, de 27 anos, esteve no início dessa mobilização. Além de participar da organização da iniciativa, ele foi também aluno do cursinho. No entanto, não terminou o ano letivo porque em setembro do ano passado recebeu a notícia de sua aprovação na reclassificação do vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que havia prestado no ano anterior.

“Quando fui chamado foi uma festa! A galera ficou animada, alguns voltaram às aulas. Foi um incentivo geral. Acho que mais do que formar para o vestibular, o cursinho nos ajuda a ter uma visão crítica sobre o mundo. A realidade de um aluno de escola pública, pobre e morador de favela é muito diferente de quem tem acesso aos melhores colégios, por isso, é um trabalho de conscientização que o cursinho faz também. As pessoas se sentem mais independentes com as aulas” explica Jeferson, que hoje trabalha como auxiliar de cozinha durante o dia e estuda à noite na UERJ.

Jefferson é estudante do curso de História e tem como meta ser professor de universidades públicas. Além disso, ele quer dar aulas no pré-vestibular como voluntário, assim que estiver mais adiantado nas disciplinas da faculdade.

Para Priscila Mello, militante do Levante Popular da Juventude e integrante da coordenação política e pedagógica do cursinho, o papel do pré-vestibular é justamente esse: democratizar. “Queremos contribuir para pintar a universidade pública com outras cores. Democratizar o acesso à educação universitária superior é também fazer com que as pessoas tenham mais voz e mais sonhos possíveis de realizar”, afirma.

Ciranda infantil para evitar desistência

A maior dificuldade do primeiro ano de funcionamento do cursinho foi a permanência dos alunos. Das 30 vagas abertas foram todas ocupadas, mas no final do ano restaram apenas oito estudantes. Essa é a realidade de muitos cursinhos pré-vestibulares no Brasil todo, principalmente, os populares.

Durante o seminário de troca de experiências de pré-vestibulares populares, que aconteceu nos últimos dias 4 e 5 de fevereiro, ficou evidenciada a dificuldade de permanência dos estudantes nos cursinhos. O encontro reuniu os pré-vestibulares Rede Emancipa, de Vila Isabel,  +Nós, de Duque de Caxias e CEASM, da Maré.

“Mesmo que seja uma realidade comum, não pode ser naturalizada. Então, pensamos em duas ações práticas que podem ajudar a reverter esse histórico. A primeira delas é reativar a ciranda infantil, um espaço que as crianças podem ficar enquanto as mães estudam. A outra é formar uma comissão de apoio psicossocial, que possa acompanhar os alunos mais de perto e entender suas dificuldades em dar continuidade aos estudos”, explica Talles Reis, militante do MST e membro da coordenação do pré-vestibular. A ideia é que a ciranda infantil, que atuará como uma espécie de creche para as mães estudantes, funcione na biblioteca da associação, ao lado da sala de aula. 

Segundo Talles, a expectativa para o ano de 2017 é que o cursinho consiga avançar no método pedagógico e na aprovação no vestibular.  “A gente espera ter mais pessoas participando do cursinho e superar limites da organização interna, para que consigamos melhorar cada vez mais. Queremos mais pessoas se desafiando e alcançando seus objetivos”, acrescenta. 

Cursinho procura professores

Diferente do ano passado que havia professores disponíveis para todas as disciplinas, nesse ano o cursinho precisa de professores voluntários de química, matemática e física. A expectativa é que as vagas sejam logo ocupadas. Os interessados podem entrar em contato através do email: prevestcerro@gmail.com. O contato também pode ser feito pelo Facebook e na sede do cursinho, na Associação de Moradores do Cerro Corá.

Edição: Vivian Viríssimo