Perfil

Itaércio Rocha, fundador do bloco de carnaval mais popular de Curitiba

Artista maranhense critica a falta de apoio do poder público para realização da festa

Brasil de Fato, Curitiba (PR)

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Itaércio se define como “artista elástico”: músico, bonequeiro e carnavalesco / Daniel Giovanaz

Itaércio Rocha nasceu na ilha de Pedras, no Maranhão. O apelido, “ita”, significa pedra em tupi-guarani. E foi com uma pedra – na bexiga – que ele descobriu sua vocação: o carnaval.

Da varanda do hospital onde foi internado, aos dez anos, Itaércio assistiu de camarote a uma exibição do Tambor de crioula, dança praticada por descendentes de escravos nas festas populares maranhenses. “Prometi a mim mesmo que, se eu saísse de lá, brincaria carnaval para sempre”, conta, com os olhos marejados.

A pedra foi retirada da bexiga e a promessa, cumprida à risca: Itaércio tornou-se músico, bonequeiro, carnavalesco de mão cheia.

Depois de participar de folias em Olinda, São Luís e Rio de Janeiro, o multi-artista veio parar em Curitiba nos anos 90 para morar com o companheiro Odilio Malheiros. Logo que chegou, ouviu dizer que a festa era “fraquinha” por estas bandas: “O que faltava era a preparação, o pré-carnaval”, lembra. “A festa nunca acontece, assim, da noite para o dia”.

Aquela constatação foi a semente do bloco Garibaldis e Sacis, criado por Itaércio e um grupo de amigos em 1998. O bloco tornou-se o mais popular da cidade, e chegou a reunir 90 mil foliões no Largo da Ordem. Este ano, descentralizou a festa para outras regiões de Curitiba e da região metropolitana.

Resistência

Itaércio Rocha afirma que a Prefeitura nunca investiu um real para que o bloco fosse às ruas. Segundo ele, mesmo sem investimento direto, a gestão do prefeito Gustavo Fruet (PDT), de 2013 a 2016, “com todas as limitações”, foi a que mais reconheceu a importância do bloco. Porém, as chances de diálogo diminuíram com a eleição de Rafael Greca (PMN): “Eu preciso que o poder público ofereça, no mínimo, segurança para eu brincar”.

“Artista elástico”, como gosta de ser chamado, Itaércio garante que houve grandes carnavais antes de sua chegada a Curitiba. Ele menciona algumas fotografias do início do século XX em que aparecem “milhares de pessoas brincando na rua”, mas sugere que há poucos registros daquela época – e não é por acaso. “A tradição da elite curitibana sempre foi a de tentar matar o carnaval”, lamenta.

Essa resistência, segundo ele, tem caráter higienista. “Em que outro momento a população dos bairros e do Centro se junta para brincar junto, suar junto?”. O artista defende que o carnaval sempre é subversivo, porque mistura cores que aparentemente não combinam: “Tem uma certa Curitiba se acha mais europeia que o Nordeste, mas não sabe que a própria Europa foi beber nas formas e cores da África. Sem essa mistura, não existiria Picasso, nem Van Gogh, nem carnaval”. Nem Itaércio.

Edição: Ednubia Ghisi