Do mesmo lado

Policiais precisam ser vistos e se ver como trabalhadores

Se PMs são trabalhadores, por que agridem outros que também lutam por seus direitos?

Brasil de Fato | Curitiba (PR) ,
“Trabalhadores da PM” soa estranho, já que estamos acostumados a ocupar as ruas por direitos, podendo ser reprimidos pelos mesmos policiais / Gabriel Dietrich

O governo do Espírito Santo informou que 703 policiais militares foram indiciados por aderirem aos protestos por melhores condições de trabalho. Se condenados, eles serão expulsos da corporação e podem pegar de 8 a 20 anos de detenção pelo crime de revolta.

O motivo da revolta? Sete anos sem reajuste salarial, sendo quatro sem reposição da inflação. Também reivindicam, entre outros, o pagamento de adicional noturno, coletes à prova de bala para toda a tropa e melhoria da frota de viaturas.

Por menos, várias categorias já paralisaram, fecharam ruas e ocuparam prédios públicos. Mas a Constituição Federal impede que militares façam greves e tenham sindicatos, o que torna os trabalhadores da PM capixaba criminosos pelas reivindicações feitas.

“Trabalhadores da PM” soa estranho, já que estamos acostumados a ocupar as ruas em protestos por direitos, podendo ser reprimidos pelos mesmos policiais. Apesar de defendermos, inclusive, pautas que também interessam a eles – caso da educação de qualidade.

Mas, se PMs são trabalhadores, por que agridem outros que também lutam por seus direitos? Pesquisadores no tema apontam a militarização da polícia como origem desse problema. Outros dizem que em países como França e Itália a polícia, apesar de militar, não age com truculência. O problema estaria no fato de que a polícia no Brasil ainda atua com um sistema de repressão da época da ditadura militar.

Em nível nacional, policiais civis, federais, guardas municipais, agentes penitenciários e bombeiros se organizam contra a reforma da Previdência (PEC 287), que retira da Constituição a aposentadoria especial aos servidores da segurança pública. Para eles, é impossível pensar numa segurança pública eficiente com um guarda municipal protegendo as ruas aos 60 anos, por exemplo.

Resta saber como agirão nas ruas quando outros profissionais fizerem o mesmo. Vão lembrar que estão todos no mesmo lado?

 

*Waleiska Fernandes é jornalista

Edição: Pedro Carrano