Cultura

Crônica: Sábado de carnaval

No caminho à Praça do Carmo, meu corpo e teu corpo se desprenderão em milhares de corpos e purpurinas

Recife (PE)

,
*Roberto Efrem Filho – ou Beto, como gosta – é do Recife e, vez ou outra, desajeita-se na palavra. / Acervo pessoal

Assim que o dragão se levantar sobre a multidão e a Praça dos Milagres, tão logo os clarins cubram a tarde de sábado e nós procuremos o lado direito da orquestra, no íntegro instante em que os metais desarranjem o verde dos meus olhos no escuro dos teus, eu te amarei, de camisa de botão amarela em flor, como tu também, de bermuda de cambraia vermelha, eu te amarei. Porque há muito sabemos, nós dois saberemos. E Mariana, cujas dores dos últimos dias se retirarão discretas e em cores calmas, estenderá jasmins e braços às nossas cabeças. Como num ritual secular, sorrindo diante dos músicos, ela anunciará “Três da Tarde” já aos primeiros acordes – e dirá “é o meu frevo favorito”, com o sabor hortelã de uma novidade. No caminho à Praça do Carmo, meu corpo e teu corpo se desprenderão em milhares de corpos e purpurinas, tu me adivinharás à beira de uma calçada, de um poema ou de um suor, nos abraços das pessoas queridas que nos atravessarão, porque nelas eu também te amarei. [Anos depois, eu te lembrarei de cada um desses encontros e tu rirás esquecido, com esse teu jeito de trazer a mim furtivamente, em dias de setembro ou outubro, o calor e o gosto da tua boca nas noites de carnaval]. No descanso do bloco, eu te pressagiarei faminto, à busca da comida que estarão servindo à barraca do Movimento; sim, nós comeremos e nos ergueremos às réstias do dragão em direção à Rua do Bonfim. De lá Ana Lia, insistindo que haverá de se fantasiar novamente de “quarta-feira de cinzas”, nós avistaremos a Ladeira da Misericórdia. Aos seus íngremes sinais, os surdos, as caixas, os repiques e os pandeiros se elevarão contra a altura e o cansaço. Com o samba, escalando degraus e cordilheiras de paralelepípedos coloniais, tu e eu divisaremos as luzes do Recife, a roda gigante do parque de diversões e a calda do dragão se refazendo e balançando vermelha e amarela em nossos tecidos. Bem ao nosso lado, compreenderemos Ariri dançando estrelas e, qual palhaço, iluminando as felicidades que ele distribuirá até os portões da Igreja da Sé. Na descida escorregadia da última grande ladeira, à marcha suave do frevo-canção, eu darei a minha mão direita à tua mão esquerda. Então, na candura dos minutos que antecedem a Ribeira, eu te amarei. Ali, tua pele reconhecendo a minha depois do tato de tantas outras, porque há muito somos, nós dois seremos, eu serei teu e tu serás meu, como nós pertencemos à língua imensa do dragão e àquela chama que nos amanhece a cada sábado de carnaval.

Para Irandhir.

Edição: Monyse Ravenna