Assassinato

Artigo: Dandara foi espancada até a morte em plena luz do dia e seus assassinos riam

Todos que assistiam ficaram inertes, tudo gravado em vídeo, afinal, há certeza de impunidade

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Depois de levar pontapés na cabeça e ser espancada por um enorme pedaço de madeira, ela foi levada em um carrinho de mão para sua morte / Arquivo pessoal

Uma travesti, Dandara, foi espancada até a morte em plena luz do dia, enquanto seus assassinos gritavam, entre risos, coisas do tipo:

"Ê viado fei"

"A mundiça ainda tá de calcinha"

"Vão matar o viado".

Todos que assistiam ficaram inertes, tudo gravado em vídeo, afinal, há certeza de impunidade.

A mídia de massa não falou um pio, não saiu reportagem de 5 minutos no Jornal Nacional para falar sobre o assunto.

Não houve mobilização dos ditos movimentos sociais em prol dos direitos humanos em passeatas pelo Brasil. Não há comoção da massa brasileira, que inclusive justificou o linchamento. 

Depois de levar pontapés na cabeça e ser espancada por um enorme pedaço de madeira, ela foi levada por um carrinho de mão como se fosse um saco de lixo para sua morte, completamente ensanguentada.

Há um pouco ou muito de Dandara dentro de todas nós, que pertencemos a uma minoria das mais alijadas no país.

Um país que bate recordes de assassinato de travestis e transexuais. E nada é feito para se mudar isso. Afinal, como dizem, estamos querendo privilégios ao exigir que alguma coisa seja feita. Mas qual o privilégio? O de viver?

Dandara foi assassinada há 15 dias, a cara dos assassinos e o lugar onde o crime ocorreu é de conhecimento de todos.

Mas todos eles estão livres. Não fosse o vídeo ter sido divulgado nas redes, mais um assassinato seria colocado debaixo dos panos.

Justificariam assim: mas "ele" era travesti, não era? Deveria ser dívida de droga, deveria ser prostituta, deveria estar respirando.

Há sempre alguma desculpa para transformar as vítimas em culpadas pelo próprio assassinato, e ao fim e ao cabo, foi apenas mais "um viado" que morreu", tanto melhor. Se não tinha o direito de ser respeitada e legitimada viva, não teria após sua morte.

Amanhã posso ser eu a espancada até a morte, simplesmente por existir e me afirmar mulher transexual - a sociedade perdoa muitas vezes os criminosos, mas quase nunca quem se determina fora da caixa hegemônica cisgênera.

Se Dandara fosse um homem branco cisgênero, burguês, será que há 15 dias seus assassinos continuariam livres?

Isso me lembra tantos outros casos em que, no final, os assassinos ganharam como prêmio, por matarem travesti e transexual, a liberdade - aquela que todos os dias eles nos negam, que essa sociedade, cúmplice desses assassinatos nos nega.

Isso me lembra o assassinato cruel de Luiza Mouraria, que foi esquartejada e teve seu corpo jogado ao mar. Os assassinos não ficaram uma semana na cadeia, quando receberem o habeas corpus. A pena prescreveu, e por fim, estavam todos livres. Qual foi o crime de Luiza? Não contar que era mulher transexual para o namorado.

Isso me lembra o assassinato de Princesa, assassinada a pauladas, e que não teve direito nem a uma gaveta no necrotério - seu corpo estava jogado no canto da sala quando descoberto. Qual o crime de Princesa? Existir.

Isso me lembra tantas outras que perderam a vida. No Brasil está determinado que não podem nos servir, não devemos existir, é preciso que sejamos exterminadas, assassinadas a pauladas, com muitas facadas ou o corpo todo perfurado por muitas balas.

Tantas outras que não foram lembradas, que tiveram seus assassinatos esquecidos, justificados apenas por que cometem o crasso crime de se afirmarem travestis ou transexuais.

No Brasil os únicos direitos que travestis e transexuais têm é o de ir para “as pistas” e sermos assassinadas.

Há um amargor e uma raiva nesse mundo, que é, às vezes, o que me faz viver. Mundo que determina quem tem direito de viver e quem vai morrer, apenas por não se encaixar dentro das categorias hegemônicas.

Como diz a professora Berenice Bento: “quem tem direito aos direitos humanos?” Não é uma pergunta banal. A filosofia costuma discutir o humano, o homem com maiúsculo, razão absoluta.

Desce pra vida! Coloca carne, coloca osso, enche o seu esquema analítico de vida para você ver que no mundo real as travestis são assassinadas por que não são gente, e aquele cara que assassina a travesti – e ele não assassina apenas uma vez, mas várias vezes com várias facadas – ele assassina com a autorização que a sociedade lhe dá para dizer: “aquele corpo não tem humanidade suficiente para compartilhar o mesmo espaço que o meu”.

Não é à toa que os nossos processos na Justiça não chegam ao final, que os assassinos das travestis e das transexuais e dos transexuais não vão para a cadeia. Não vão para a cadeia por que eles não mataram um ser humano, você não vai para a cadeia se alguém, por exemplo, dissesse que você matou um bicho. Não é ser humano. E nem bicho é.

Então parece que a questão da transexualidade inaugura, restabelece uma coisa muito interessante, que é uma disputa, um projeto do que é o ser humano. A humanidade não está pronta, é um projeto a ser disputado. Estamos num processo intenso de disputa do que é o ser humano, quem tem direito a estar no mesmo espaço do que eu? Por quem eu choro? O choro é aquilo que mais humaniza o outro lado da morte. Quem chora pela travesti? Quem chora pela transexual?

Esse cara que mata travesti não é um doente, um transtornado, um anormal como nos faz crer algumas vertentes da psicologia. Ele é resultado de um projeto social onde todos nós participamos como produtores e indutores.

ps: o crime contra Dandara foi de TRANSFOBIA e não homofobia.

** Daniela Andrade, mulher trans e ativista

Edição: José Eduardo Bernardes