Literatura

Escritora trans lança financiamento coletivo para publicar livro em Portugal

Para editar seu primeiro romance, “A Revolta dos Feios”, Luana Morena precisa arrecadar R$ 8 mil com pré-venda da obra

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Luana Morena durante gravação do curta-metragem Queria Tanto Ter Nascido Mulher / Arquivo pessoal

Escritora, atriz, professora, redatora e revisora. Apesar do currículo de Luana Morena, foram muitas as dificuldades que ela encontrou ao longo da vida por ser uma mulher transexual. Com vocação para a literatura desde a infância, há pouco veio a notícia tão aguardada: uma editora de Portugal reconheceu o “ótimo potencial literário” de sua obra e quer lançar seu primeiro romance, “A Revolta dos Feios”, na Europa e no Brasil.

O modelo da editora Chiado, uma das mais importantes e a que mais cresce em Portugal, no entanto, determina que, para garantir o lançamento de uma publicação original, o autor da obra deve bancar a compra antecipada de 250 exemplares.

Atualmente desempregada e sem condições de arcar com o investimento, Luana decidiu realizar a pré-venda de seu livro em uma plataforma de financiamento coletivo na internet. A meta é arrecadar os R$ 8 mil que vão cobrir os custos das 250 cópias e o envio pelos correios aos primeiros compradores. O modelo de arrecadação de “tudo ou nada” determina que se ela conseguir o total da meta almejada, ela recebe o dinheiro, mas se as doações não atingirem o montante, o valor é devolvido às pessoas e ela não recebe nada.

No site, o prazo termina no dia 26 de março, mas que será prorrogado até 15 de abril; e ainda falta mais de 80% da meta. Se o livro for publicado e vender mais de três mil cópias, a editora promete traduzi-lo para o espanhol e o inglês e entrar em outros mercados, como Estados Unidos, Espanha e América Latina.

Trajetória literária

Formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Luana vive em Brasília desde 2012. Já trabalhou como professora substituta de Língua Portuguesa na rede pública de ensino do Distrito Federal, como editora e redatora em laboratório de pesquisa literária e até como organizadora de clipping de notícias em empresas de comunicação. Mas, desde cedo, seu coração bate mais forte mesmo é pela literatura. “Escrevo desde a minha adolescência. Foi um professor de História que me falou que eu deveria fazer algo que trabalhasse com a escrita, que eu tinha talento pra isso”, lembra.

Luana com alunosLuana pensou em cursar Comunicação Social ou Letras na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e acabou optando pela segunda opção, da qual nunca se arrependeu: “Gostei demais do curso, não me vejo fazendo outra coisa. Na faculdade descobri o tanto que sou apaixonada pela literatura”.

Sinopse

Em “A Revolta dos Feios”, Luana se vale da narrativa literária para tecer uma história de traço épico e, ao mesmo tempo, intrigante e atual. O livro conta a história de Tião, um bailarino profissional extremamente feio, que se torna vítima de bullying coletivo na internet após se apresentar como candidato a dançarino de uma famosa banda de eletro-forró. Deprimido e vingativo, o homem usa a fama maldita para conclamar outros feios, que, como ele, sofreram humilhações e privações por conta da aparência ao longo de toda a vida. A revolta dos feios se transforma em uma guerra civil que vai mudar a história do país.

Em outro núcleo da história, o antagonista Fábio, um traficante de pessoas, descobre um vírus capaz de manter as funções vitais de corpos humanos até cinco anos após a morte. Com isso, ele mata belas mulheres e vende seus corpos para serem usados como bonecas sexuais, só que humanas.

“A reflexão que eu quero trazer é sobre a valorização de um certo padrão de beleza. Todo mundo sabe que aquele que tem o padrão de beleza dominante – que é algo construído socialmente – vai ter sim mais privilégios na sociedade”, analisa. “E se alguém se revoltasse contra essa situação? Se um sujeito fosse privado de concretizar seu sonho por ser considerado excessivamente feio diante dos olhos da sociedade? Esse é o ponto de partida da Revolta dos Feios”, revela.

Luana também é autora de pelo menos dois roteiros para o cinema e uma série de televisão. No momento, já escreve seu segundo romance, o “Sangue Divino”, onde narra sua própria versão sobre o juízo final e os perigos do radicalismo religioso. Sinopses e crônicas de seus trabalhos podem ser vistas em seu site pessoal.

Visibilidade e orgulho

Mais do que o sonho de se tornar escritora, Luana Morena desafia a própria história da literatura brasileira. “No país que mais mata transexuais no mundo, uma dessas putas em potencial conseguiu sobreviver para contar a história sob o seu ponto de vista”, diz. Entre janeiro de 2008 e abril de 2013, foram 486 mortes de travestis e transexuais no Brasil, quatro vezes mais do que no México, o segundo país com mais casos registrados, segundo relatório da ONG internacional Transgender Europe. A expectativa média de vida de uma travesti não passa de 35 anos no Brasil, muito em função da marginalização à qual essa população é submetida, sendo forçada a se prostituir em 90% dos casos.

“Na minha infância eu era uma menina, mas por conta de muito preconceito, em um certo momento da minha vida eu decidi me fingir de menino. Passei 20 anos sendo Paulo. Isso foi até o ano de 2011, quando passei a conviver mais com travestis e comecei a escrever meu primeiro roteiro de longa-metragem, o ‘Traumas Eficazes’, que tem como protagonista justamente uma travesti”, conta. O roteiro desenterrou suas memórias de infância e a ajudou a se entender mais. Em 2014 ela passou a se apresentar ao mundo como Luana. Apesar do preconceito e dificuldade de conseguir trabalho na nova identidade, isso que a libertou como artista: “Eu nunca havia permitido me assumir como artista . Como Luana eu me permiti ser artista, me assumir como escritora e levar mais a sério minha carreira”.

Para contribuir

O livro “A Revolta do Feios” encontra-se em pré-venda pelo na página criada por Luana Morena no site Kickante. A colaboração pode ser feita com qualquer valor acima de R$ 10. Como recompensa, a pessoa receberá um exemplar da obra, cujo valor é R$ 32 e deve ser entregue em junho deste ano.

Edição: Vanessa Martina Silva