Bancos

Conselheiro de Temer, diretor do Citibank ajuda presidente a vender o país

“Instituições financeiras têm seus interesses envolvidos nas reformas da previdência e trabalhista", diz sindicalista

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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"Ajudamos governos a estruturarem projetos em sintonia com os interesses dos mercados de capital privado", afirmou Johnston / Citibank/Divulgação

Um governo formado por homens velhos e brancos e dirigido por um banco estrangeiro. Esse é o retrato do centro do poder administrado pelo presidente não eleito Michel Temer (PMDB). Às críticas de que seus ministros não representam a diversidade da população brasileira, soma-se agora a de que um banco internacional não só auxilia, como influencia a gestão e venda de empresas estatais do país.

O fato foi revelado pela BBC Brasil na última segunda-feira (27) e recebeu pouca atenção. À reportagem da emissora pública britânica, Charles R. Johnston, diretor global de assuntos governamentais do Citigroup, revelou ser um dos “conselheiros informais” de Temer. A função de Johnston é ligar os clientes do Citigoup a governos. Em setembro de 2016, após o anúncio do pacote de privatizações feito pelo governo, ele apresentou um grupo de bilionários a Temer e a Henrique Meirelles, ministro da Fazenda.

O texto diz ainda que o banco estadunidense vai promover um encontro entre seus principais clientes e ministros brasileiros em Nova York no mês que vem para promover o programa de privatizações do governo não eleito nas áreas de mineração e exploração de petróleo e gás, incluindo o pré-sal. Nas próprias palavras de Johnston: “Ajudamos governos a estruturarem projetos em sintonia com os interesses dos mercados de capital privado".

A relação entre o Estado brasileiro e os bancos não é uma novidade. A presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Juvândia Moreira lembra que “o Brasil tem dois banqueiros na condução da economia – um no Ministério da Fazenda e outro no Banco Central [Ilan Goldfajn]|”. Mas, aponta que “as instituições financeiras estão influenciando diretamente o governo, com seus interesses envolvidos nas principais reformas do país, como a trabalhista e previdenciária”. Além disso, ela observa que 45% do orçamento público “está nas mãos dos rentistas, enquanto os gastos públicos estão congelados por 20 anos”.

Nessa mesma linha, o professor de Ciência Política da Unicamp Armando Boito Jr. ressalta que a relação de Temer com o banco dos EUA “é um indicador, não uma prova. A prova é o conteúdo das medidas de política governamental - econômica, social e externa -, que corresponde objetivamente aos interesses do capital estrangeiro e aos setores da burguesia brasileira mais ligados a ele”.

Exemplos dessa política, para ele, seriam a reorientação da atuação do Itamaraty, a diminuição da atuação da Petrobras na economia brasileira e a desarticulação da política de conteúdo local. “Não só o governo favorece esse setor com suas medidas, como também esse setor reconhece nesse governo a representação de seus interesses”, resume Boito Jr..

Juvândia observa ainda que as políticas defendidas pelo governo e pelo setor bancário prejudicam a maior parte da sociedade: “O governo propõe desmontar o Estado e liberar o orçamento para o mercado financeiro, além de criar mercado para os bancos, como no caso da previdência privada. Eles agradam os bancos e seus acionistas e prejudicam a população”.

Além disso, “esse movimento se repete em relação ao sistema financeiro mundial, que impõe políticas neoliberais aos países para beneficiar o rentismo e a concentração de renda”, ressalta a sindicalista.

Boito Jr., no entanto, não considera que as posições adotadas por Temer junto ao capital rentista seja uma coincidência. Para ele, a interação esclarece também o papel do capital internacional no impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff: “Existem muitos sinais da intervenção do capital estrangeiro na política brasileira e no processo de golpe parlamentar que ocorreu”, ressalta.

Ele cita ainda como exemplo da influência externa sobre o impeachment, o veto da embaixadora estadunidense na Organização dos Estados Americanos (OEA) a uma moção de crítica ao processo contra Rousseff.

A reportagem procurou o Planalto, o Citigroup e o Banco Central para se posicionarem, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Edição: Vanessa Martina Silva