Moradia

Famílias despejadas da Ocupação Nelson Mandela continuam desabrigadas

Reintegração de Posse violenta da área em Campinas (SP) ocorreu nesta terça-feira (28)

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Famílias desabrigadas após reintegração de posse da Ocupação Nelson Mandela / Rede de Apoio da Ocupação Nelson Mandela

Grande parte das famílias que viviam na Ocupação Nelson Mandela, localizada no Jardim Capivari, Campinas (SP), ainda está desabrigada após a reintegração de posse do terreno, realizada na última terça-feira (28).

A Ocupação abrigava cerca de 600 famílias, das quais mais de 120 foram realocadas em outras ocupações por moradia da região e 40 estão dormindo na rua. É o que afirma Célia Maria dos Santos, moradora e uma das lideranças da Nelson Mandela.

"Porque uma outra ocupação nos cedeu espaço, mas não foi o suficiente para todo mundo aqui. Todo mundo está dormindo no chão. A gente pediu para o prefeito um ginásio, e ele se recusou".

Segundo o advogado Irineu Ramos, que representa a ocupação, não houve espaço para negociação antes da expedição do mandado de reintegração.

"O juiz aqui de Campinas não estava nem um pouco preocupado se tinha recurso ou não. Ele deu a reintegração de posse e não permitiu sequer uma audiência para as famílias apresentarem propostas de acordo. Uma das propostas previa a permanência no terreno até o final do ano letivo para que as crianças não tivessem interrupção da matrícula escolar. O saldo é trágico, o governo vai ter que ver que não se resolve problema de moradia com despejo".

A reintegração de posse, segundo Célia, foi marcada por truculência da Polícia Militar. "Jogaram bomba de gás, teve uma criança que parece que não está muito legal. Fizeram muita pressão, quebraram os móveis das pessoas, não tiveram paciência de esperar tirar. Há pessoas que não tem roupas porque perderam tudo", relatou.

A área, é propriedade da empresa Cerâmica Argitel e foi ocupada em julho de 2016. A liminar de reintegração foi expedida em agosto e, de acordo com Irineu, as famílias vêm resistindo desde então.

"O terreno é localizado em uma Zona de Habitação Popular e estava inutilizado há 30 anos, abandonada mesmo. O proprietário não tinha o menor interesse na área, ela não estava sequer cercada. Era usada para depósito e entulhos, lixo".

Para a advogada Adriana Paim, que representa os proprietários do terreno, a área não estava abandonada e não houve truculência por parte da Polícia.

"A área já está destinada por um contrato com uma empreiteira para lotear e fazer um empreendimento popular. Eu acompanhei a reintegração e, violência, sinceramente, não presenciei. Claro que o cumprimento de uma ordem judicial forçada acaba tendo um problema ou outro. A PM fez o trabalho, foram recebidos a pedradas, fogo. Então a resistência do movimento foi muito grande", opinou.

De acordo com o movimento, as famílias e lideranças da Ocupação Nelson Mandela vão continuar insistindo por um abrigo proporcionado pelo Estado.

Edição: Camila Rodrigues da Silva