CAIXA PRETA

Artigo | A crise do transporte público de Curitiba na era Greca

A tarifa técnica, paga pela prefeitura aos empresários do sistema de transporte, subiu cerca de 9%

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Com a tarifa técnica em R$ 3,66 e a tarifa pública em R$ 4,25, a prefeitura embolsava R$ 0,59 centavos a cada passagem paga em fevereiro / Brunno Covello/SMCS

Na gestão passada da prefeitura de Curitiba, o que se via era um jogo de cartas marcadas. Com pressões feitas através de falta de pagamento para os trabalhadores do transporte e consequentes greves, a prefeitura se via encostada na parede pela população, tendo que aumentar a passagem. Assim, ano a ano Fruet (PDT) foi se desgastando politicamente frente a uma crise herdada de 2010, quando Beto Richa (PSDB) era prefeito.

Greca (PMN) viu isso acontecer e mudou a estratégia do município frente à iminente crise do transporte coletivo da capital. Com a ajuda do próprio arquiteto da lambança, Beto Richa, entendeu como fazer política com o sistema de transportes: prejudicou a população e se armou politicamente para os próximos anos.

Sabendo que iria enfrentar uma greve mobilizada pelo Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus (Sindimoc) e uma pressão por aumento da tarifa pelos empresários, o novo-velho prefeito se adiantou. Assim explica-se o repentino e adiantado reajuste da tarifa, que foi de R$ 3,70 para R$ 4,25 como um passe de mágica, no começo de fevereiro, um mês antes da "data-base" da tarifa técnica: a data em que são calculados novos valores a serem pagos pela prefeitura às empresas do custo por passageiro para operar o sistema.

Com a tarifa técnica em R$ 3,66 e a tarifa pública em R$ 4,25, a prefeitura embolsava R$ 0,59 centavos a cada passagem paga no mês de fevereiro. Se pegarmos a média de passageiros que pagam a passagem integral em um mês, segundo a própria URBS, a prefeitura municipal embolsou em fevereiro aproximadamente R$ 9,8 milhões. Ou seja, sem justificativa, sem prestação de contas, a prefeitura pôs em caixa quase R$ 10 milhões vindo dos usuários de transporte coletivo da cidade. A ideia era essa: fazer caixa frente a uma crise de arrecadação.

Na terça feira (4), a prefeitura publicou no Diário Oficial do Município o novo cálculo da tarifa técnica, aquela que é passada aos empresários. A tarifa técnica até fevereiro de 2018 foi fixada em R$ 3,98, o que significa que o município vai se beneficiar de um excedente de R$ 0,27 centavos por passagem até fevereiro do ano que vem. Quanto o município vai ganhar com isso? Quase R$ 54 milhões ao ano. Nas costas de quem acorda cedo todo dia e depende do sistema de transporte mais caro do país.

Cortina de fumaça

Politicamente, isso significa uma coisa: Greca muito provavelmente não precisará reajustar a tarifa em 2018.Quando chegar a hora de reajustá-la em 2019, terá dinheiro suficiente para subsidiá-la até 2020. Assim, o prefeito pensa na sua reeleição. Com um ajuste pesado e único na tarifa, o prefeito pretende lançar sua bandeira para 2020 como o prefeito que resolveu o impasse do transporte na capital: pura ficção.

Com as atuais medidas, Greca prejudica o sistema de transporte que perde competitividade frente ao carro e a moto, (mais uma vez) caracterizando um ciclo vicioso de perda de passageiros pagantes no sistema, o que resulta em maior custos para gerenciar o sistema no futuro e, portanto, reajustes anuais da tarifa técnica. Isso significa que, por mais que a tarifa não saia de R$ 4,25 até 2020, o custo do sistema irá sim aumentar frente à perda de demanda: a conta irá chegar, mais cedo ou mais tarde. Nada mais que uma cortina de fumaça para esconder a crise estrutural do sistema: a licitação de 2010.

Gustavo Fruet não teve a capacidade de enfrentar a crise de transportes por alguns motivos, mas fez uma escolha, submeter-se ano a ano às pressões dos empresários do transporte para o aumento da tarifa. Greca, em apenas um golpe, ajustou a tarifa por anos, mirando lá na frente sua reeleição e contando com a falta de memória de seus eleitores. Paulada na população, que agora tem que ver sair do seu bolso o dinheiro para resolver essa crise, gerada lá atrás na administração Beto Richa. Mais uma vez, quem gera a crise se exime de resolvê-la.

É a classe trabalhadora que está pagando o déficit do sistema de transporte curitibano, a classe que mais sofre em tempos de crise, que mais precisa de um dinheiro a mais em época de recessão, que deveria ter o direito universal de ir e vir dentro da cidade. A administração municipal não está preocupada em resolver a crise, se estivesse estaria enfrentando os empresários, revendo os contratos de transporte e elaborando uma outra metodologia de cálculo de tarifa. Isso demanda enorme esforço e coragem política, assim como assumir um compromisso sério com a população demandaria. Greca e Richa vão traçando mais uma vez o destino do transporte coletivo na cidade: colocando a crise pra debaixo do tapete e enfeitando o discurso. Até quando?

*Luiz Calhau é Engenheiro Civil, integrante do Sindicato dos Engenheiros e mestrando em Planejamento Urbano pela UFPR

Edição: Ednubia Ghisi