Paraná

Sem-Terras denunciam impunidade um ano após assassinato de militantes do movimento

"Muitas vezes somos lembrados como criminosos. Mas somos nós que levamos alimento à população", diz manifestante

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Em memória das vítimas, cerca de 300 pessoas que vivem em acampamentos da região de Quedas do Iguaçu se reuniram nesta manhã em um ato / Wellington Lenon

Há um ano, na tarde de 7 de abril de 2016, agentes da PM assassinaram Vilmar Bordim e Leonir Orback, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). O crime ocorreu em uma das estradas de acesso ao acampamento Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu, no centro-sul do Paraná. Bordim era casado, pai de três filhos, e morreu aos 44 anos. Já Orback, então com 25 anos, deixou dois filhos e a esposa grávida de nove meses.

Além das mortes, a ação policial deixou pelo menos sete feridos, dois deles em estado grave. A PM alega que os sem-terra iniciaram os disparos, mas foi incapaz de comprovar a hipótese de confronto: as vítimas estavam todas do mesmo lado, e nenhum policial saiu ferido.

Em memória das vítimas, cerca de 300 pessoas que vivem em acampamentos da região de Quedas do Iguaçu se reuniram na manhã desta sexta (07) em um ato. Wellington Lenon, do MST, explica que a mobilização teve um “caráter mais pacífico, de memória, colocando as questões do ocorrido, de como as famílias estão hoje e principalmente para denunciar esse um ano da morte dos companheiros e que não houve nenhum julgamento e ninguém foi penalizado por isso.”

A PM assumiu a autoria de 128 disparos naquela tarde. Uma das balas, segundo o Instituto Médico Legal (IML), atingiu Leonir Orback nas costas. Mesmo assim, a delegada Anna Karyne Palodetto, da Polícia Civil, sustentou a versão de confronto após ouvir o depoimento de um dos sobreviventes, Pedro Francelino. No entanto, nenhum agente da PM foi responsabilizado.

Já a integrante do movimento Fabiana Braga, de 22 anos, testemunhou as mortes dos amigos, foi acusada de participar da formação de uma organização criminosa e está presa desde novembro de 2016.

Em discurso durante o ato, Branca dos Santos, da Direção Estadual do MST, ressalta o caráter trabalhador da organização: “Todo mundo come arroz, feijão etc que nós produzimos. E como somos recebidos? Muitas das vezes somos lembrados como criminosos. Não somos. Nós somos camponeses. E somos nós, os excluídos. que estamos levando alimento à população brasileira”.

Edição: Mauro Ramos