Síria

Trump usa bombardeio na Síria como mais uma ação midiática, diz pesquisador

Para Danilo Bassi, “provavelmente a gente vai ter nos próximos anos uma diplomacia do espetáculo”

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Imagem cedida pela Marinha estadunidense do navio USS Porter lançando um dos mísseis em direção à Síria / Reprodução/Marinha dos Estados Unidos

Na noite desta quinta-feira (06), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, coordenou um ataque com 59 mísseis em território Sírio. A notícia surpreendeu muitas pessoas devido à escalada do governo estadunidense, já que o mandatário havia sinalizado uma posição menos conflitiva com o homólogo sírio, Bashar al-Assad.

Para Danilo Martins Guiral Bassi, pesquisador de Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (USP), no entanto, a súbita mudança no discurso de Trump e o ataque à base militar síria de Shayrat não foi surpreendente. Ele ressalta que “Trump vem se desenhando como alguém que vai usar praticamente todo o governo, o que inclui a política externa, de uma forma midiática. Provavelmente a gente vai ter nos próximos anos uma diplomacia do espetáculo”.

A ação foi o primeiro ataque de Washington contra um alvo da liderança do governo sírio, além do primeiro comandado por Trump, que até então expunha uma posição menos ofensiva, prometendo atitudes pragmáticas para garantir a estabilidade do conflito, que já dura seis anos na Síria.

"Em diversos momentos, Trump disse que era preferível um Oriente Médio governado por 'homens fortes' como o próprio Assad, dizendo que eles trariam estabilidade. Agora você tem uma mudança de postura. É uma mudança, realmente, mas não é completamente surpreendente", opinou.

A justificativa do Pentágono para a ofensiva foi protagonizar uma "retaliação proporcional ao ato hediondo de Assad", com referência ao suposto ataque químico que matou ao menos 80 civis no país, entre eles 27 crianças, na última terça-feira (4). O ato foi atribuído a Assad, mas não houve uma investigação exaustiva para comprovar os atos. O governo sírio nega a ação e disse ter se tratado de um acidente.

O governo sírio já havia sido acusado de utilizar compostos químicos contra civis em 2013, e desde então, em conjunto com a Organização das Nações Unidas (ONU), estava comprometido a destruir o arsenal químico do país.

Por esse motivo, o pesquisador acredita que o ataque dos EUA teve seu momento cuidadosamente calculado, e que a suposta "impulsividade" frequentemente atribuída a Trump não é compatível com a realidade.

"E acho que essa estreia dele nos bombardeios do Oriente Médio é um bom exemplo do quanto foi um bombardeio surpresa, pontual, e está tendo muita visibilidade. Esse bombardeio foi barato politicamente para Trump porque foi feito em um momento em que a acusação tornaria o governo Assad indefensável”, afirma Bassi.

Confira a íntegra da entrevista:

Após o ataque dos EUA à base na Síria, o que podemos esperar da relação entre os dois países?

Eu acho que para a gente entender a forma como Trump vai agir no Oriente Médio é preciso entender muito bem o contexto em que o governo dele se sustenta, sua estratégia de sustentação e por mais que possa parecer que ele aja de forma irracional e impulsiva, isso faz parte de uma racionalidade, de se mostrar como um homem forte, que se adapta ao contexto e necessidades imediatas do imaginário que ele cria em volta dele.

Ele foi eleito com o apoio de dois setores: o conservadorismo tradicional americano e um conservadorismo mais líquido. A própria chapa de Trump reflete um pouco essa tentativa de equilíbrio. Ele tinha um discurso pouco tradicional do Partido Republicano, no mínimo, desde os anos 1990. O vice dele [Mike Pence] é um conservador das alas tradicionais do partido republicano e da linha dura do conservadorismo do Partido Republicano e com um discurso muito forte sobre o Oriente Médio e sobretudo de apoio à Israel. Enquanto Trump era visto desde o período das prévias dentro do Partido Republicano como alguém fraco em relação ao apoio a Israel.

Então, Mike Pence veio trazer esse conservadorismo mais tradicional e ideológico. Diferentemente do que acontecia na era Bush, Trump parece não ter um apoio teórico ideológico muito claro em relação ao Oriente Médio. Enquanto Bush tinha um alinhamento muito forte com o neoconservadorismo, Trump vai provavelmente agir de forma menos clara e menos previsível.

O ataque veio como uma surpresa para a política internacional e o conflito da Síria?

No Oriente Médio especificamente, o argumento é a democracia, mesmo que o objetivo fosse a exportação pela guerra, existia esse argumento por trás. O mais importante para o Trump era a estabilidade. Ele prometeu uma política mais pragmática de estabilidade do Oriente Médio. Em diversos momentos, ele criticou o apoio da gestão Obama aos rebeldes da oposição Síria de modo geral. Eles eram chamados como terroristas na campanha de Trump. Em diversos momentos ele falou que ela preferível um Oriente Médio governado por homens fortes, como o próprio Assad, já que eles trariam estabilidade. E que era um equívoco apoiar uma oposição sem saber quem era.

Agora, para surpresa generalizada, você teve uma mudança de postura. Enquanto Trump estava silencioso em relação à Síria, deixando Assad com o apoio da Rússia retomar posições, agora você tem esse bombardeio das bases militares pelas forças americanas. Você tem uma mudança realmente, mas não é completamente surpreende. Trump vem se desenhando como alguém que vai usar praticamente todo o governo dele, o que inclui a política externa, de uma forma midiática. Provavelmente a gente vai ter nos próximos anos uma diplomacia do espetáculo por parte do Trump. E isso vai incluir o Oriente Médio.

A guerra na Síria já dura seis anos, por que agora temos o primeiro ataque do Pentágono explicitamente contra o presidente Bashar al-Assad?

Trump se vendeu durante a campanha como alguém que seria um protecionista na economia, com o discurso de trazer de volta para os EUA os empregos roubados, falando dos mexicanos e chineses como ladrões de empregos americanos e, na política externa, embora muitos o tenham analisado como alguém que não faria intervenções fora dos EUA, essa visão sempre me pareceu meio equivocada.

Na verdade, ele teve um discurso desde o início de ser pontualmente intervencionista, o que significa fazer intervenções com poucos custos de todos os tipos: políticos, financeiros, militares, mas com muita visibilidade.

E acho que essa estreia dele nos bombardeios do Oriente Médio é um bom exemplo disso, do quanto foi um bombardeio surpresa, pontual, e que está tendo muita visibilidade. Esse bombardeio foi barato politicamente para Trump porque ele ocorre em um momento em que a acusação tornaria o governo Assad indefensável. Há dúvidas de diversos governos e setores de que se tratou de um ataque do governo sírio — isso é pouco claro — mas é um momento em que China e até mesmo autoridades Russas estão dizendo em que um ataque químico é indefensável. Então, foi feito racionalmente em um momento em que mesmo bombardeando civis, a crítica seria a menor possível para Trump.

Há um cálculo racional de ação, que geralmente é menosprezado. Imagina-se muito Trump como sendo irracional, mas é um equívoco. A ação dele é focada para um determinado público que já sustentou e vai seguir sustentando a política dele.

Edição: Vanessa Martina da Silva