Mídia

Coletivo pede que Justiça investigue responsabilidade da Globo em agressão no BBB

"Emissora permitiu que violências continuassem acontecendo por semanas para trazer mais audiência", critica Bia Barbosa

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Marcos foi expulso do BBB após briga com Emilly no último domingo (9) / Reprodução/BBB

A articulação Rede Mulher e Mídia protocolou, na tarde desta terça-feira (11), uma representação no Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (MPF-RJ) contra a Rede Globo de Televisão. O coletivo pede que o órgão investigue a responsabilidade da emissora no caso de agressão de Marcos Harter contra Emilly Araújo, ambos participantes desta edição do programa Big Brother Brasil (BBB). 

A Rede Mulher e Mídia reúne dezenas de organizações da sociedade civil, movimentos sociais e centenas de ativistas de todo o país.

Na segunda-feira (10), Marcos foi expulso do programa após uma briga do casal em que Marcos foi verbalmente agressivo com Emilly e a encurralou em um canto da casa, impedindo que ela se movesse. Antes da punição ao médico, a delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) de Jacarepaguá (RJ), Viviane da Costa, esteve nos estúdios da Globo para pedir as imagens das discussões entre os participantes. A delegacia abriu um inquérito contra Marcos por lesão corporal.

Para as entidades que compõem a rede, no entanto, a punição do candidato não é suficiente. A jornalista Bia Barbosa, do coletivo Intervozes, que integra a articulação da rede, alega que o programa prevê punição apenas em casos de violência física, enquanto a legislação brasileira, com a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06), amplia as formas de agressão contra a mulher, considerando suas dimensões física, psicológica ou patrimonial.

Segundo Barbosa, a emissora não tomou nenhuma iniciativa para resolver um caso que já se alongava por semanas. "Quem estava acompanhando o programa viu uma escalada significativa das agressões psicológicas que a participante vinha sofrendo", disse. "Apesar de a Globo dizer que alertou o participante em algum momento porque o comportamento dele estava muito agressivo, a emissora permitiu, na verdade, que essas violências continuassem acontecendo por semanas para trazer mais audiência", completou a ativista.

Por volta das 17h, o Brasil de Fato entrou em contato com a assessoria de imprensa da Rede Globo de Televisão por e-mail e telefone para questionar se as regras do programa citam punição para machismo, homofobia e/ou outros casos de discriminação e se a emissora havia alertado o participante sobre seu comportamento antes da intervenção das autoridades policiais. Até a publicação desta reportagem, no entanto, a emissora não havia respondido aos questionamentos.

Antecedentes

Para a psicóloga e coordenadora do Observatório da Mulher, Rachel Moreno, o episódio "simboliza claramente" uma violência psicológica contra a participante Emilly. Moreno pontua, no entanto, que o caso não é isolado.

Em dezembro do ano passado, a Rede Mulher e Mídia acionou o MPF contra Fausto Silva, que apresenta o programa Domingão do Faustão. O apresentador afirmou, ao vivo, que há mulheres que gostam de "homem que dá porrada". "Tem mulher que é doida. 'Ah, vou recuperar [o companheiro]'. Então, vá ser enfermeira", disse Faustão.

"Pedimos o direito de resposta e não conseguimos até agora. Estamos entrando de novo com esse mesmo pedido. A Rede Globo, como uma concessão pública, deveria servir aos interesses da sociedade de modo geral, falar com diversidade e pluralidade", disse a psicóloga.

Em 2012, outro caso dentro do BBB tomou grandes proporções quando uma das participantes foi vítima de estupro presumido enquanto estava embriagada e dormindo. O caso demorou cinco dias para ter uma consequência concreta no programa e o participante Daniel Echaniz ser expulso.

Bia Barbosa pontua que, tanto no episódio de 2012, quanto no caso da expulsão de Marcos nesta segunda-feira, a emissora tomou uma atitude por causa do fortalecimento do movimento de mulheres: "Se não tivesse havido essa forte mobilizações das mulheres, não necessariamente esse participante teria sido expulso do programa", disse.

Para ela, a resposta mais rápida das autoridades policiais e da emissora é um fruto positivo da pressão das mulheres. "Este ano [a pressão] foi muito maior porque, quando a gente segue vendo este tipo de violência sendo legitimada pelos meios de comunicação, o grau de indignação e intolerância cresce na sociedade", disse Barbosa.

Edição: Vanessa Martina Silva